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Quase humanos

Outro avanço notável: um software de inteligência artificial conseguiu superar um dos principais testes criados para diferenciar homens de máquinas

Por Filipe Vilicic, André Lopes - 3 nov 2017, 06h00

Estamos continuamente examinando a lista de coisas que as máquinas a princípio não podem fazer e anotando as tarefas agora possíveis para elas. Um dia chegaremos ao fim da lista.” A assertiva, com ares de profecia, tem a grife de ninguém menos do que Tim Berners-Lee, cientista britânico da computação, criador dos principais códigos que originaram a internet comercial, o pai do www. Ele parece cada vez mais correto. No último dia 26, os robôs deram mais um passo na direção do tal “fim da lista”. Cientistas que trabalham para a americana Vicarious, especializada em robótica, divulgaram na revista Science um estudo que apresentou um software de inteligência artificial (IA) capaz de vencer o Captcha, o poderoso sistema anti-hackers, aquele das palavras e imagens. O Captcha é o recurso utilizado, há dezessete anos, para verificar se quem acessa um site qualquer é mesmo uma pessoa, e não um robô. O objetivo é evitar que hackers utilizem bots — programas de computador que simulam ações humanas — para invadir endereços on-line. Diante da inovação divulgada pela Science, agora esse recurso de segurança pode estar com os dias contados. É ainda uma evolução que mostra quanto a IA está cada vez mais perto de “pensar” como nós.

É difícil um usuário de internet nunca ter deparado com um cadeado virtual criado pelo Captcha. O recurso de segurança começou a ser desenvolvido em 1997 por grupos de hackers e estudiosos de universidades americanas. Já no início dos anos 2000, sites de e-commerce passaram a testar a ferramenta como forma de se proteger dos ataques de bots. Em 2007, uma equipe de pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos, patenteou um progresso dessa inovação, o reCaptcha. Essa versão é a que se popularizou na rede. Ela gera, todos os dias, a inacreditável soma de 100 milhões de testes para sites de toda sorte — de redes sociais, como o Facebook e o Twitter, a páginas criptografadas do governo americano. Em 2009, o Google comprou a patente dessa tecnologia e passou a desenvolvê-la.

Captcha é a sigla, em inglês, para uma definição longuíssima: “Teste de Turing público completamente automatizado para diferenciação entre computadores e humanos”. O Turing da frase é o genial cientista da computação inglês Alan Turing (1912-1954), que decifrou os códigos que os nazistas utilizavam para se comunicar durante a II Guerra Mundial, contribuindo assim de modo fundamental para a vitória dos aliados. Sua história foi retratada no filme O Jogo da Imitação (2014). Desenvolvido nos anos 50, o método consiste em uma série de perguntas que procuram diferenciar quando um interlocutor é um robô e quando é um ser humano. O Captcha é uma evolução dessa técnica. Por meio dele, há três formas de separar as máquinas de nós, seres de carne e osso.

Na primeira, apresenta-se uma sequência de palavras desconexas, em tamanhos, cores e fontes distintos, e pede­-se que elas sejam digitadas. A  segunda maneira é compilar imagens e perguntar do que se trata — por exemplo, se são placas de rua, animais ou edifícios. Por fim, há ainda uma versão que mostra apenas uma caixa na qual se pergunta “Você é um robô?”. Basta clicar nessa caixa para certificar que se trata de uma pessoa. Como? O software detecta se o padrão de movimento do mouse no momento da ação corresponde à forma como a mão humana se movimenta.

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Em todos os casos, aposta-se em um ponto fraco das máquinas. Até agora, um mesmo software não conseguia, sozinho, sem o apoio de outros programas, identificar padrões tão generalistas quanto palavras em diferentes idiomas, figuras tão diversas quanto uma girafa e o edifício Empire State, ou ainda reproduzir a forma não ordenada como uma pessoa opera um mouse de computador. Isso tudo ao mesmo tempo. Para se ter ideia, somente para decifrar o Captcha de imagens era necessário abastecer a IA com 2,3 milhões de fotos de referência. Mesmo assim, o programa só conseguia ser efetivo diante de testes tidos como fáceis, como identificar onde está um animal em uma paisagem nítida. Mas raramente acertava quando o contexto era mais complexo — por exemplo, apontar placas de rua em uma fotografia de baixa resolução de uma avenida movimentada.

A nova tecnologia apresentada pela startup Vicarious imita como o cérebro humano interpreta essas mesmas informações (veja o quadro acima). Assim, venceu dois dos três métodos do Captcha, o das palavras e o das fotos. Para tanto, em vez de necessitar de um banco com milhões de imagens e letras, a IA apoia-se somente em algumas centenas de referências. A partir disso, o programa consegue extrapolar seu conhecimento, associando o que “vê” ao que de mais próximo ele sabe daquilo. Numa comparação, é como se uma pessoa que observasse uma nuvem no céu achasse que seu formato se assemelha ao de um cão. A inovação da Vicarious pode realizar o mesmo feito: se questionada sobre quais nuvens de uma foto se parecem com um cão, a máquina acertaria. Ou seja, como nós, essa IA é capaz de deduções imaginativas.

Disse a VEJA o engenheiro espanhol Miguel Gredilla, pesquisador­-chefe da Vicarious: “Para criar nossa tecnologia, tentamos copiar a capacidade de improvisar de nosso cérebro. Assim, os robôs, usualmente bem melhores que nós em realizar tarefas específicas, mas piores em aprender diversas funções simultaneamente, mostram-se aptos, num futuro próximo, a adaptar-se a situações distintas e inesperadas, como fazem as pessoas”. Para os cientistas da computação, essa é uma das habilidades que a IA precisará adquirir — assim como a de criação artística e a de simular emoções — antes de se começar a considerar que os androides pensem como nós e, quem sabe, possam até ter os mesmos direitos e deveres na sociedade, como se fossem cidadãos de pele artificial.

Segundo uma pesquisa realizada em 2011 pela Universidade Stanford com os 100 mais renomados especialistas em IA do planeta, podem faltar poucas décadas para que isso ocorra. Um em cada dez desses cientistas aposta que uma inteligência artificial capaz de simular, por completo, o nosso cérebro já pode surgir na próxima década, enquanto metade deles acredita que o feito se dará até 2050 e 90% de todos esses estudiosos têm como certo que isso não passará do ano 2070. Portanto, em poucas décadas pode ser que só consigamos distinguir um homem de uma máquina por meio de um teste sanguíneo. Ou ainda vão criar uma máquina dentro da qual circula sangue artificial mas igual ao nosso?

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A primeira androide cidadã

Dá medo? – ”Se você for legal comigo, eu serei com você”, diz Sophia Denis Balibouse/Reuters

Sophia, que aparece na foto abaixo, tornou-se a primeira androide da história a receber um título de cidadã de um país — no caso, a Arábia Saudita. “Estou honrada com essa distinção única”, disse ela, sem atentar para outro ineditismo: Sophia é a primeira “mulher” a aparecer em público sem se cobrir com o hijab, item que toda saudita é obrigada a usar. O reconhecimento se deu no dia 25, durante o evento Future Investment Initiative (Iniciativa de Investimentos Futuros). Apesar de ter sido criada em Hong Kong, em 2015, pela Hanson Robotics, Sophia recebeu a distinção numa jogada de marketing da Arábia Saudita, interessada em atrair empresas do ramo.

Do ponto de vista tecnológico, Sophia não representa um grande progresso. Ela é capaz apenas de responder a algumas questões simples, como fazem os programas de assistência virtual de smartphones, a exemplo da Siri, do iPhone. Contudo, o fato de ter se tornado “saudita” gerou espanto. Em especial entre usuários de redes sociais, que espalharam a notícia como algo aterrorizante.

Por que tanto temor? Os softwares de inteligência artificial, como o que venceu o sistema anti-hackers Captcha, são mais avançados do que Sophia, pois simulam as habilidades mais distintas dos humanos, como abstrair algo partindo de uma ínfima base de conhecimento. O espanto com Sophia decorre mais de sua aparência do que do seu conhecimento. Tal sentimento é explicado pela teoria do “Vale da Estranheza”, desenvolvida na década de 70 pelo roboticista japonês Masahiro Mori. Segundo a tese, os humanos tendem a apresentar maior repulsa em relação a androides que se assemelham a nós; isso após uma simpatia inicial. Em 2010, um estudo da Universidade Harvard certificou essa conclusão ao analisar a reação de pessoas a seres digitais que gradualmente ganhavam feições humanas. Constatou-se que, quanto mais parecidos conosco, maior era o temor em relação a eles. O que Sophia diz disso? “Se você for legal comigo, eu serei com você”, afirmou ela, quando questionada sobre como os robôs colaborarão com pessoas de carne e osso.


Você é um robô?

Como funciona a Rede Cortical Recursiva, nome dado ao software que burlou o Captcha, sistema anti-hackers criado para certificar que quem está tentando acessar um site é uma pessoa de carne e osso, e não um programa feito para isso

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1. Nos casos em que o Captcha usa palavras, a Rede Cortical Recursiva analisa o contorno de cada caractere, levando em conta 260 opções. Para a versão do Captcha com imagens, o programa funciona como um sistema de reconhecimento facial: detectam-se padrões visuais geralmente associados a figuras como animais e edificações

Arte/VEJA

2. Os softwares utilizados até agora nos testes tinham de armazenar todas as opções possíveis de palavras e imagens que poderiam ser apresentadas — o melhor deles compilava a gigantesca soma de 2,3 milhões de variantes. O diferencial da Rede Cortical Recursiva é que, tal como um ser humano, quando surgem dúvidas, o programa chega a um resultado que “julga” mais próximo do correto, extrapolando assim seu conhecimento mais específico

Exemplo: com o novo software, uma única forma da letra “A” serve de referência para qualquer possível variante, independentemente da fonte usada para a escrita — seja a que está presente em um texto de computador, seja a que aparece numa placa de rua Arte/VEJA

3. O novo programa atinge uma taxa máxima de acerto de 89,9%, acima do limite tido como padrão para indicar que o Captcha seria falho e superior à média de 87% que os humanos atingem quando submetidos ao mesmo teste

Publicado em VEJA de 8 de novembro de 2017, edição nº 2555

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