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Preso e presente

Ficha-suja condenado por corrupção, Lula pode transferir ao menos um terço de seus votos ao candidato do PT que escolher, seja ele quem for 

Por Ana Clara Costa - 27 Jul 2018, 07h00
Arte/VEJA

O candidato que vier a ser indicado pelo ex-presidente Lula para concorrer à Presidência da República pelo PT, quem quer que seja ele, poderá dar a largada com um invejável patrimônio de 9% das intenções de voto. Apresentados aos nomes de políticos do PT, como Jaques Wagner e Fernando Haddad, os entrevistados atribuem a cada um dos petistas não mais que 3% das intenções de voto. Confrontados, porém, com a opção “Alguém do PT indicado por Lula”, os eleitores exibem outro comportamento — a porcentagem de votos atribuídos à sigla triplica. Os 9% das intenções de voto que o candidato indicado por Lula receberia de bandeja, segundo a pesquisa, representam um patamar que muitos políticos de centro sonham alcançar — o tucano Geraldo Alckmin, por exemplo, ainda patina em 7%.

Os dados da pesquisa permitem duas conclusões. A primeira é que, para o eleitor do PT, o “apelo Lula” é muito mais forte que o apelo da sigla. A segunda, consequência da anterior, é que o partido acerta ao optar pela estratégia de manter a pré-candidatura do ex-presidente até o último minuto, mesmo estando Lula preso e virtualmente inelegível. Quanto mais seu nome permanecer nas pesquisas, maior será seu poder de transferência de votos para o candidato da sigla. Os números também explicam a resistência do PT a uma aliança com Ciro Gomes, por exemplo. Na pesquisa, Ciro tem 7%. O candidato de Lula, já na largada, teria 9%. Faz pouco sentido para o PT a­­liar­-s­e a um candidato que é menor que o seu.
Quem sai ganhando quando Lula some da lista de candidatos é Marina Silva, da Rede. Segundo a pesquisa, sem Lula e com Haddad, Marina deixa o patamar de 10% e passa para 13%. Num cenário em que o candidato petista é Wagner, Marina marca 14%. Não é nenhum crescimento portentoso, mas, na fragmentação atual, qualquer ponto porcentual pode dar direito ao segundo turno.

Oito anos depois de sair do governo e com todo o passivo criminal trazido pela Lava-Jato, Lula continua sendo o primeiro nome lembrado pelos eleitores das regiões Norte e Nordeste, onde as intenções de voto espontâneas no ex-pr­e­sidente alcançam 30% e 21%, respectivamente. Embora pulverizado no critério faixa etária, o eleitorado lulista é mais numeroso entre quem tem mais de 60 anos. Quando se levam em conta os critérios renda e formação, seus apoiadores continuam sendo os grupos menos escolarizados e de renda mais baixa: 34% não terminaram o ensino fundamental e 39% ganham até um salário mínimo. Os eleitores de Lula, revelou a pesquisa, são também os mais conservadores. São os menos inclinados a aceitar que a cadeira de presidente seja ocupada por um negro, um homossexual ou mesmo uma mulher, ainda que tenham votado, em boa parte, em Dilma Rousseff.

Publicado em VEJA de 1º de agosto de 2018, edição nº 2593

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