Assine VEJA por R$2,00/semana
Continua após publicidade

Paz fraudulenta

No excepcional '1945', um diretor húngaro parafraseia o faroeste 'Matar ou Morrer' numa história de culpa nacional — e negação — diante do Holocausto

Por L.B.
Atualizado em 7 abr 2018, 06h00 - Publicado em 7 abr 2018, 06h00

São 11 da manhã de 12 de agosto de 1945 e, enquanto o vilarejo húngaro segue nos preparativos de um casamento, dois homens descem do trem. São evidentemente judeus, e trazem um par de baús pesados. Embora ninguém os conheça por ali, a cidadezinha entra em pânico: talvez eles tenham vindo reclamar de volta os negócios, casas e pertences de que os moradores se apossaram quando os judeus locais foram mandados para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, na deportação em massa ocorrida na Hungria em meados de 1944. Talvez estejam ali para confrontar, em particular, o tabelião — e pai do rapaz que vai se casar —, que delatou o melhor amigo aos nazistas para ficar com sua farmácia e carimbou as escrituras forjadas. À medida que os dois desconhecidos caminham atrás da carroça que leva seus baús, a polvorosa se espalha. Alguns tramam estratagemas para se proteger. Outros, como o jovem noivo, reagem com consternação: a paz relativa desses primeiros meses após o término da guerra na Europa se revela não só fraudulenta como também criminosa.

Na premissa e no desenrolar em tempo real, 1945 (Hungria, 2017), já em cartaz no país, graceja de um jeito muito sério com o faroeste clássico Matar ou Morrer, de 1952. No preto e branco de alto contraste e nas composições de estupenda linguagem pictórica — assim como no tom mordaz —, percebe-se que o diretor Ferenc Török admira A Fita Branca (2009), do alemão Michael Haneke. Como em ambos esses filmes, está em jogo aqui uma falha fundamental na cultura que leva a ética a se degradar em autopreservação, em covardia e por fim em indiferença. A Hungria de hoje faz o que pode para barrar o trânsito de refugiados, e a Polônia baixa lei para se isentar do Holocausto. Mas a última imagem de 1945 atesta que certas culpas, mesmo quando se dispersam, continuam lavradas em cartório.

Publicado em VEJA de 11 de abril de 2018, edição nº 2577


Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

O Brasil está mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VEJA.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou

Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.