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O verde ficou cinza

Levantamento inédito mostra como região amazônica, antes exaltada por ser exemplo de preservação, se tornou uma das que mais sofrem com desmatamento

Por Jennifer Ann Thomas Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 1 jul 2018, 11h01 | Atualizado em 4 jun 2024, 16h41
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Um novo estudo do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) revela que o desmatamento ilegal continua sendo uma persistente realidade na maior floresta do planeta, e traz uma novidade brutal: a destruição da floresta teve crescimento exponencial com o retrocesso na fiscalização. A região analisada abrange sete terras indígenas nos estados de Rondônia e Mato Grosso, com um total de 3,5 milhões de hectares — uma área maior que a da Bélgica. Dentro desse espaço, destaca-se a terra indígena Sete de Setembro, local onde o fenômeno criminoso se mostrou mais acentuado. Desde 2015, a devastação aumentou 77%.

O Idesam identificou os motivos para a derrubada das árvores na área: exploração madeireira, invasão e atividades ligadas ao garimpo. A Sete de Setembro serve como um retrato sombrio das ameaças à natureza, mas o desmatamento acelerou-se em toda a Amazônia nos últimos três anos. De 2012, o menor registro da devastação, a 2017, o desmatamento sofreu um aumento da ordem de 52%. Com o afrouxamento da vigilância pelos órgãos responsáveis, decorrente do corte de recursos, acontece o óbvio: fazendeiros, madeireiros e mineradores sentem-se livres para derrubar a mata. O Ibama, o instituto que cuida do meio ambiente, não realiza concurso para contratar novos agentes desde 2009. A Funai, entidade que zela pelos índios e por seus interesses, teve a verba reduzida em 44% no ano passado.

Numa triste ironia, a tribo suruí-­paíter, que vive na Sete de Setembro, ganhou fama justamente pelo combate ao desmatamento. O líder Almir Suruí lançou, em 2008, um projeto em parceria com o Google para monitorar o desmate por meio de fotos e vídeos armazenados on-line no site Earth. A iniciativa, somada a outras similares, levou a revista americana Fast Company a considerá-lo uma das pessoas mais criativas de 2011 e, dois anos depois, Suruí foi homenageado com o título de Herói da Floresta, em cerimônia da ONU.

Hoje a tribo, de 1 375 pessoas, está dividida. A parte liderada pelo cacique defende os esforços de preservação. O outro grupo quer faturar com o garimpo. “Os indígenas cooptados por madeireiros e garimpeiros são usados como escudo contra as ações de fiscalização. Eles não impedem a entrada do Ibama ou da Polícia Federal, mas tornam o trabalho mais tenso, com risco de conflitos e até de fatalidades nas operações”, diz Roberto Cabral Borges, coordenador de operações do Ibama. Com a ausência de autoridades como a Polícia Federal, os índios conservacionistas passaram a receber ameaças de morte. “Somos alvo por defender a floresta, enquanto o governo permanece omisso, sem nos oferecer proteção”, diz Almir Suruí.

“As pessoas não desmatam por falta de conhecimento, mas porque é lucrativo”, diz Pedro Soares, gestor ambiental do Idesam. “A melhor maneira de enfrentar o problema é, além de fiscalizar, comprovar que a floresta de pé rende mais dinheiro, pelo uso sustentável de recursos naturais, do que se for destruída.” Entre 2004 (quando o registro da destruição atingiu seu auge) e 2012 (o ápice da conservação), os esforços caminharam nessa direção. Nesse período, o desmatamento caiu 84% — sem prejuízo para a agroindústria, que parou de comprar grãos e carne produzidos em terras desmatadas. Sem fiscalização, porém, até esse tipo de controle está ameaçado.

Publicado em VEJA de 4 de julho de 2018, edição nº 2589

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