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O ser humano rumo à imortalidade?

Robôs capazes de tratar doenças em nível molecular e remédios que bloqueiam o envelhecimento acenam para algo que a ciência não admitia: a vida eterna

Por Thaís Botelho - Atualizado em 1 ago 2018, 10h36 - Publicado em 27 jul 2018, 07h00

Vita brevis, ars longa. Se há algum debate a respeito da segunda parte dessa máxima do grego Hipócrates (460 a.C.-375 a.C.), o “pai da medicina”, consagrada por Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), celebridade da Roma Antiga — ars, em latim, teria no original o significado de techne; assim, a frase se referiria ao tempo necessário para adquirir uma habilidade, e não à arte propriamente dita —, sobre a primeira nunca existiu polêmica. Sempre se acreditou: a vida é breve. Para se ter uma ideia, ainda no século XIX “vida longa” era passar dos 35 anos, o que então não era comum.

Pois bem: um século e meio depois, a expectativa de vida dobrou: hoje é de 72 anos. Com isso, começa a ser posta em xeque a velha expressão da Antiguidade. Até o fim deste século, atingir os 100 anos, e com saúde, não será difícil. Estamos vivendo mais — e o aumento do tempo de vida vem se acelerando de modo espantoso. Mas até onde conseguiremos ir? “Driblaremos a morte”, disse a VEJA o cirurgião francês Laurent Alexandre, estudioso de revoluções tecnológicas que assina um livro chamado justamente A Morte da Morte (Editora Manole), lançado no Brasil neste ano.

Há apenas uma década não existia consenso científico de que seria possível encontrar caminhos para frear o passar da idade. No máximo se admitiam as chances de melhorar a qualidade de vida dos idosos. Agora, o cenário mudou completamente. Uma das grandes ferramentas para a imortalidade — não existe outra palavra para definir o que se está discutindo —, apontada por Laurent Alexandre em sua obra, é o uso da nanotecnologia na medicina. Nanorrobôs ou nanopartículas de tamanho microscópico permitirão intervenções no corpo humano em nível molecular. Sua abso­luta precisão possibilitará, por exemplo, o uso de quantidades direcionadas de remédios, uma vez que o mecanismo poupará as células sadias que estejam ao redor das adoentadas. A técnica também facilitará a investigação detalhada do organismo. Uma referência do que está por vir nesse campo foi o lançamento, no fim de 2017, da primeira pílula digital. Em novembro passado, a FDA, agência americana reguladora de remédios, deu o seu aval para um comprimido que tem embutido um sensor do tamanho de um grão de areia capaz de emitir informações de dentro do corpo do paciente, como a dose da medicação absorvida.

Século de festa - Expectativa: será fácil chegar em forma aos 100 Sean Gallup/Getty Images

Outra forma de usar a tecnologia como ferramenta antienvelhecimento diz respeito ao acesso às informações do doente. E isso já está ocorrendo. O Watson, plataforma inteligente da IBM, por exemplo, consegue analisar em pouco tempo centenas de milhares de estudos científicos para compreender situações extremamente específicas, como a mutação de uma célula cancerosa. Sem os avanços da era digital, isso exigiria 38 anos de trabalho humano. Outro bom exemplo foi o investimento do Google na criação da Calico, empresa que conta com cientistas e desenvolvedores de softwares para criar uma fórmula para a imortalidade com base em dados biológicos. Calcula-se que em 2030 não haverá diagnóstico médico sem esses sistemas inteligentes — profissionais da saúde e os próprios pacientes terão acesso a um número de informações 1 milhão de vezes maior que o disponível hoje.

Há ainda outra frente tão ou mais importante que os tratamentos em si para tornar a imortalidade algo palpável: os remédios que poderão aumentar o tempo de vida bloqueando compostos e mecanismos associados ao envelhecimento. Um exemplo é o que se tem descoberto com a rapamicina, um imunossupressor, tipo de remédio originalmente usado contra o processo de rejeição a órgãos transplantados. Trabalhos americanos conduzidos pelo Texas Health Science Center e pelo Instituto Barshop de Estudos de Longevidade e Envelhecimento, feitos com camundongos de 20 meses de idade (o equivalente aos nossos 60 anos), mostraram que o fármaco prolongou a vida em cerca de 25%. O medicamento inibiu a atividade de uma enzima chamada mTOR, que regula o metabolismo das células e está também envolvida no mecanismo do envelhecimento. “Nosso corpo será tratado pela medicina como a engenharia lida com uma máquina: danificou, reparou”, acredita Aubrey de Grey, biólogo e gerontologista britânico, autor do livro O Fim do Envelhecimento, publicado em junho na versão digital no Brasil. Nele, Grey cita os chamados medicamentos “senolíticos”, drogas que eliminam células que param de se dividir com o passar do tempo. O acúmulo delas no organismo é um dos princípios do processo de envelhecimento. Nos Estados Unidos, o laboratório Buck Institute for Research on Aging, em parceria com a Clínica Mayo, organização sem fins lucrativos, comprovou que em animais aqueles remédios reduziram a velocidade do envelhecimento celular em um terço. O que se fará com a vita longa que se anuncia no horizonte é uma questão espinhosa — capaz de se estender pela eternidade.

Publicado em VEJA de 1º de agosto de 2018, edição nº 2593

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