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O primeiro e único

Com um talento que não se abateu no rarefeito ambiente da ‘haute couture’, Karl Lagerfeld, o dínamo criativo alemão à frente da Chanel, morreu em Paris

Por Da Redação 22 fev 2019, 07h00

A figura inconfundível cristalizou-se nas últimas duas décadas: expressão séria, cabelos brancos (empoados, como nas cortes de antigamente) amarrados na altura da nuca, óculos escuros, luvas, colarinho alto escondendo o pescoço e preto da cabeça aos pés — tudo pensado para disfarçar sinais de velhice. Karl Lagerfeld, o dínamo criativo alemão à frente da Chanel, de certa forma deixou de ter idade no mundo da alta moda, em geral pouco simpático aos mais velhos (a não ser que o velho em questão seja o dono da grife). O kaiser, como era chamado, tornou-se diretor de criação da Chanel em 1983, já aos 50 anos e com passagens por marcas como Fendi e Chloé, um degrau abaixo no rarefeito ambiente da haute couture. Com um talento que não se abateu nesses anos todos, tirou do baú o corte e os tecidos imortalizados por Coco Chanel e deu-lhes cara moderna com um pé no pop — um ato muito ousado para a época, que, segundo ele, “Coco provavelmente odiaria”.
A ideia vingou: a marca decadente, que sobrevivia com a venda de perfumes e cosméticos, renasceu.

“Chanel é uma instituição, e instituições têm de ser tratadas como prostitutas, sempre tirando algo delas”, definiu Lagerfeld, em uma de suas frases de efeito. Ano após ano, em desfiles memoráveis no magnífico Grand Palais, em Paris, seu palco por excelência, o estilista desmontou e remontou os tailleurs, as camélias, as pérolas e tudo o que é Chanel com uma irreverência regada a muito estilo que revitalizou e recapitalizou a grife (calcula-se seu faturamento em 4 bilhões de dólares por ano). Em paralelo, comandou a equipe de criação da Fendi — os dois postos eram vitalícios por contrato —, desenvolveu linha própria, embrenhou-se na fotografia e na decoração, fundou uma editora e, quando perdeu 40 quilos, no início dos anos 2000, escreveu o best-seller A Dieta de Karl Lagerfeld.

Rei dos aforismos, reunidos inclusive em livro (O Mundo segundo Karl), tesourava sem dó o que achava feio. “Moletom é sinal de derrota. Você compra quando perdeu o controle da sua vida”, disse; “Tatuagem é horrível. É como usar o tempo todo um vestido Pucci”, alfinetou; ou, descrevendo as mulheres que falam que modelos são magras demais: “São múmias sentadas na frente da televisão comendo batata frita”. Fotógrafo renomado, arrepiava-se com a mania dos cliques desenfreados no celular: “Não faço selfie. Mas todo mundo quer tirar selfie comigo. Felizmente meu assistente é cruel e grosseiro com as pessoas na rua. Eu sou bonzinho”.

Muitas vezes milionário, o estilista acumulou coleções e musas, várias musas, sendo a mais famosa a mo­delo aposentada Inès de la Fressange. Seu único companheiro conhecido, Jacques de Bascher, morreu de aids aos 38 anos, em 1989. No apartamento de Paris, abarrotado de preciosidades, a única companhia era a gata Choupette, que se sentava à mesa com ele, comia em porcelana francesa e tinha “duas empregadas pessoais, uma para o dia, a outra para a noite”. No desfile da Semana de Moda de Paris, em janeiro, o estilista pela primeira vez não subiu à passarela no final, para a costumeira ovação. Segundo a Chanel, estava se sentindo “cansado”. Lagerfeld morreu em Paris, na terça-feira 19, aos 85 anos (mais ou menos — nunca deixou isso muito claro), de causa não revelada. Sabia-se que estava doente e falava-se em câncer de próstata. Virginie Viard, seu braço-direito, assume a criação da grife. Mas o espaço do kaiser, este ninguém vai preencher.


DEPOIS DAQUELE BEIJO

MENDONSA, o marinheiro da mais famosa das fotos: “Queria reconhecimento” Patrick Raycraft/Hartford Courant/MCT/Getty Images

Poucas fotografias foram mais reproduzidas do que a do beijo entre um marinheiro e uma enfermeira na Times Square de Nova York. A imagem foi feita por Alfred Eisenstaedt (1898-1995), que trabalhava para a revista Life e fora convocado para registrar as celebrações de rua em 14 de agosto de 1945, horas após a rendição ja­ponesa, o marco do fim da II Guerra para os Estados Unidos. Depois daquele beijo, o instante em praça pública viraria símbolo de um novo tempo. Eisenstaedt não anotou o nome dos personagens, disse ter lhe chamado a atenção o uniforme alvíssimo da moça em contraponto ao tecido escuro do militar, e clique. Fez uma série deles, e quatro foram dar nas páginas da imprensa. Em 1960, Greta Friedman (1924-2016) procurou os editores da Life e os convenceu de que era ela a mulher de corpo curvado e perna direita levemente erguida. Faltava descobrir o outro rosto da cena. Durante anos, dezenas de americanos reivindicaram o posto, quase sempre com relatos inverossímeis. Até que George Mendonsa, filho de uma família de origem portuguesa, surgiu com argumentos bem razoáveis. Um minucioso trabalho investigativo cotejou a foto com algumas características físicas de Mendonsa, como um cisto no braço esquerdo e uma mancha escura no braço direito. Antropólogos forenses foram incapazes de achar uma única inconsistência. O marinheiro fora descoberto. “Quantas pessoas na vida fazem algo famoso?”, perguntou Mendonsa numa entrevista de 1995, logo depois de ser entronizado como “o sujeito”. “Não há um homem da Marinha que não tenha servido na II Guerra que, ao olhar aquela foto, deixasse de dizer: ‘Queria ser aquele cara’. Eu não estava procurando nenhum ganho financeiro, só queria reconhecimento.”

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Demorou tanto a aparecer que, quando virou o marinheiro do beijo, o romantismo original do retrato já tinha sido substituído por outra impressão: Greta Friedman disse ter si­do pega de surpresa por ele, e o que tinha jeito de paixão acabou sendo visto como assédio. Mendonsa morreu no domingo 17, aos 95 anos, em Middletown, Rhode Island. Estava abrigado em uma casa de saúde para idosos. Deixou quatro bisnetos, três netos, um casal de filhos e a viúva, Rita Petry. Ela era namorada de Mendonsa naquele verão de 1945. Diz ter estado junto com o companheiro na Times Square, viu o namorado de 21 anos feliz da vida e não se incomodou quando ele agarrou a enfermeira.


UM ATOR E DOIS PAPÉIS

Só os grandes artistas conquistam fama em mais de um papel forte. O suíço Bruno Ganz conseguiu. Ele foi o anjo Damiel de Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders. Depois ganhou destaque como Hitler em A Queda! As Últimas Horas de Hitler (2004). A cena em que ele dá um carão em seus comandados ganhou centenas de paródias no Brasil, com as legendas em português inventando uma outra história. Ganz morreu aos 77 anos, de câncer, no dia 16.

VARIEDADE - Do anjo de Asas do Desejo (acima) a Adolf Hitler Snap/Shutterstock

 

O IDEALIZADOR DA ECONOMIA

Ministro do Planejamento de 1969 a 1979, nos governos de Médici e Geisel, o economista João Paulo dos Reis Velloso foi o mentor de uma fase de crescimento do Brasil que associou força de investimento a endividamento externo das empresas estatais. Foi um dos criadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entidade crucial para aferir as finanças do país. Morreu na terça-feira 19, aos 87 anos, de causas naturais.

Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2019, edição nº 2623

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