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O negociador polonês

Delator diz que o mandachuva do PR, o partido mais cobiçado pelos presidenciáveis, recebeu 4,3 milhões de reais em propina

Por Marcelo Rocha - 20 jul 2018, 06h00

Desde que deixou a penitenciária da Papuda, onde cumpriu onze meses de cadeia por corrupção, o ex-deputado Valdemar Costa Neto não ocupa formalmente nenhum posto de direção no Partido da República (PR). Apesar disso, continua ditando os rumos da legenda. Às vésperas das convenções que vão confirmar o nome dos candidatos à Presidência da República, Costa Neto é quem articula as alianças e dá a palavra final sobre elas, além de pautar as conversas com alguns dos principais postulantes ao Palácio do Planalto — Geraldo Alckmin (PSDB), Jair Bolsonaro (PSL), Ciro Gomes (PDT) e até Lula, que está preso e inelegível. O PR de Costa Neto, como de costume, acena em todas as direções. Quem aceitar o apoio da sigla não poderá alegar desconhecimento de causa quando a fatura for apresentada mais adiante.

Com uma bancada de quarenta deputados e um minuto e 34 segundos de tempo de televisão, o PR é uma das joias do chamado “centrão”, um grupo de partidos que, apesar do apelido, se move muito mais por interesses pessoais e conveniências políticas do que por alinhamento ideológico — interesses e conveniências, ressalte-se, muitas vezes nada republicanos. Para apoiar o ex-presidente Lula, em 2002, o PR cobrou 10 milhões de reais — taxa de adesão quitada pelo PT com dinheiro desviado dos cofres públicos. Depois, para continuar apoiando o governo no Congresso, o partido combinou o pagamento de um “extra” aos seus parlamentares e ganhou o comando do Ministério dos Transportes. O ex­tra, que ficou conhecido como men­salão, rendeu a Costa Neto aque­la rápida temporada na Papuda. E o comando do Ministério dos Trans­­portes, sabe-se agora, pode devolvê-­lo à penitenciária.

SEMPRE PRESENTE – Valdemar Costa Neto: do mensalão à Lava-Jato André Dusek/Estadão Conteúdo

A Operação Lava-Lato descobriu que o ex-deputado cobrou e recebeu propina de empreiteiras que prestavam serviços ao Ministério dos Trans­portes. Ele, como sempre, não ocupava nenhum cargo de comando na pasta, mas nada lá ia adiante sem o seu aval. Pedro Leão Neto, ex-diretor da Odebrecht, empresa envolvida no escândalo de corrupção na Petrobras, contou à Polícia Federal que a empreiteira venceu uma licitação para construir trechos da Ferrovia Nor­te-Sul (FNS). O achaque não tardou. No início de 2007, meses depois da assinatura do primeiro contrato, no valor de 110 milhões de reais, o representante da empreiteira foi chamado a Brasília para uma conversa com o então presidente da Valec, a estatal responsável pelo acompanhamento da obra, e preposto de Costa Neto. Sem meias palavras, o aliado queixou-se de que a empresa não estava repassando os pagamentos combinados com o PR.

Pedro Leão relatou à polícia que não sabia de nenhuma combinação prévia envolvendo propina. Diante do impasse, foi orientado a procurar o então deputado Costa Neto no Con­gresso Nacional. A reunião acon­teceu no gabinete do parlamentar. De novo, sem meias palavras, tratou-se exclusivamente de “negócios”. “O deputado disse que a empresa estava trazendo problemas para seu grupo político, pois não estava contribuindo e, dessa forma, estava fazendo com que outras empresas também não contribuíssem”, relatou o executivo em seu depoimento. E, na sequência, veio a ameaça: o ministério suspenderia os pagamentos à Odebrecht, caso a construtora não repassasse o equivalente a 4% do valor do contrato. De acordo com o delator, depois desse primeiro encontro, houve outras reuniões em Brasília e em São Paulo entre os executivos e o então deputado para tentar reduzir o valor da propina. Sem sucesso. O montante de 4,3 milhões de reais foi repassado a Costa Neto.

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A Polícia Federal confrontou as informações prestadas pelo executivo da Odebrecht em delação premiada com as planilhas de pagamentos de propina apreendidas nos computadores da empreiteira durante uma das fases da Lava-Jato. Uma delas, identificada como “FNS”, registra repasses, entre outubro de 2007 e fevereiro de 2008, a quatro pessoas identificadas pelos apelidos de “Trio Elétrico” (55 000 reais), “Quatro Queijos” (70 000 reais), “Bob Marley” (660 000 reais) e “Polonês” (4,3 milhões). Pedro Leão confirmou que as anotações faziam referência à propina paga nas obras da Ferrovia Norte-Sul. “Trio Elétrico”, “Quatro Queijos” e “Bob Marley” foram identificados como funcionários da Valec que recebiam suborno. O “Polonês” milionário era o ex-deputado Valdemar Costa Neto. O dinheiro do então parlamentar, segundo a planilha, foi entregue em São Paulo. O ex-deputado já foi intimado pela Polícia Federal a se explicar sobre as acusações, mas invocou o direito ao silêncio. Procurado por VEJA, mandou dizer que não se pronunciaria. Está atarefado demais, dedicado às negociações políticas nas quais é assediado pelos presidenciáveis.

Publicado em VEJA de 25 de julho de 2018, edição nº 2592

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