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O método e a obsessão do comandante Tite

Ancorado nos bons exemplos de equipes do passado, o treinador da seleção respira futebol 24 horas por dia, perfeccionista até não mais poder

Por Alexandre Salvador, Luiz Felipe Castro - Atualizado em 10 Dec 2018, 09h16 - Publicado em 8 Jun 2018, 06h00
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Da recente linha sucessória de treinadores da seleção brasileira é possível extrair um padrão. Nos últimos doze anos, desde a Copa de 2006, apenas treinadores gaúchos se revezaram na missão de comandar o time. Dunga, Mano Menezes, Felipão, novamente Dunga e, enfim, Tite. Os quatro nasceram em um raio menor que 400 quilômetros a partir de Porto Alegre. Talvez seja mera coincidência, talvez não. A escola gaúcha de técnicos ganhou fama ao montar equipes de marcação rigorosa, preparo físico extraordinário e, acrescentando a essa força a habilidade do toque de bola, capazes de chegar ao gol. O Brasil estacionou no penta, de 2002, nunca mais ergueu a taça, mas a aposta na fortaleza sulista nos gramados manteve-se. Todo estereótipo é frágil (convém não levá-lo a sério), mas costuma servir para iluminar alguma coisa. VEJA pediu ao tradutor e historiador Lucas Simone, da USP, que estabelecesse a relação de Tite com um personagem da literatura russa. A resposta: Tarás Bulba, da novela homônima de Nikolai Gógol (1809-1852). “Bulba é um atamã, chefe cossaco, viveu a vida inteira em meio a guerras e escaramuças com poloneses, lituanos, tártaros e russos”, diz Simone. “A cultura gaúcha e a cultura cossaca têm parentesco, com seus cavalos, seu orgulho.” Há, segundo o tradutor, outro ponto a unir Tite e a figura de Gógol no comando das tropas: “Em Tarás Bulba, como no cotidiano do treinador brasileiro, veem-se a importância do trabalho coletivo, a grande capacidade de balancear defesa e ataque e o carisma inigualável. Ambos podem parecer um tanto rudes numa primeira impressão, mas são astutos, estudados e inteligentes”.

Para quem já viu a adaptação para o cinema de Tarás Bulba, associá-lo a Felipão é inevitável, um tem a cara do outro, o vasto bigodão a emoldurar o rosto. Mas Tarás é Tite, apesar das dessemelhanças. Do livro, da boca de Tarás: “O bom e velho vinho, por mais forte que fosse, não seria capaz de fortalecer o espírito de um homem; mas, se a ele fosse acrescentada a palavra certa, então seria duas vezes maior a força do vinho e do espírito”. De Tite, em entrevista a VEJA, sem perder a metáfora dos prazeres à mesa: “Tive de comer muita massa”, diz, usando uma de suas expressões mais características, para ressaltar que batalhou muito, à beira do gramado, mas também com muito estudo, para chegar ao inquestionável ponto em que está, de unanimidade (há quem o enxergue, num país sem rumo, como presidente da República). Para o ex-zagueiro uruguaio Diego Lugano, que nunca foi treinado por Tite, ele é um “encantador de serpentes”. Tite não concorda com a definição, mas diz aceitar críticas, desde que não sejam “rasas, baseadas no ganha e perde”. O técnico afirma que a unanimidade é ilusória e que tem muitos inimigos, velados. A chave é a “resiliência”, tal qual a reafirma Tarás Bulba: “Um bom guerreiro não é apenas aquele que não perdeu a coragem numa operação importante, mas também aquele que não se aborrece no ócio, que suporta tudo e que, haja o que houver, consegue prevalecer”.

Obsessão - Tite é fanático pela recuperação de lances que julga importantes. Ao lado, o pedido para rever o gol de Sócrates contra a Itália, em 1982 (acima) Arquivo/Estadão Conteúdo

Quando se compara Tite com seus antecessores na liderança da seleção, há uma diferença continental. Ele tem prazer em beber da história do futebol brasileiro, é obcecado pela recuperação de lances famosos que, vistos e revistos, eventualmente repetidos à exaustão nos treinos, podem ser úteis. Um dos elogios que mais gostou de receber está pendurado na parede de sua sala na CBF: uma camisa da seleção de 1970 assinada por Gérson — “Ao mestre Tite, uma recordação do amigo que gostaria de jogar nessa seleção, que vai ser campeã do mundo”. Aos auxiliares que o acompanham no cotidiano da CBF, Tite costuma solicitar gravações de jogadas que guarda na memória. Há muita coisa atual, mas o que vem lá de trás é que o entusiasma. Recentemente, ele pediu para rever o gol de Sócrates, o primeiro do Brasil na derrota por 3 a 2 para a Itália, na Tragédia do Sarriá, da Copa do Mundo de 1982, na Espanha (“Aquele foi meu Mundial, apesar do resultado”, gosta de repetir). Está anotada numa folha de papel, à qual VEJA teve acesso, uma demanda de Tite a seus subordinados: “Gol Itália 82: Zico entre linhas e infiltração de Sócrates (Analisar C. Técnica)”. O vídeo com a cena foi escarafunchado de tudo quanto é jeito.

O hábito de anotar tudo o que vê, lê e pensa aliviou a relação de Tite com seu staff. Nos tempos de Corinthians, era comum que enviasse mensagens de WhatsApp aos subordinados, a qualquer hora do dia, cobrando a imagem de uma jogada. Por sugestão de Fernando Lázaro, hoje “analista de desempenho” da CBF, entendeu que as solicitações podiam esperar um ou dois dias, e que precisava ter paciência. “Ele deixava todo mundo louco, até nas folgas”, diz Lázaro. “Agora maneirou.” Trocou a ansiedade pelo pragmatismo e pela organização. “Ele nos envia vídeos que mostram o que fizemos nas partidas anteriores, para que possamos repetir os acertos no jogo seguinte”, disse a VEJA o zagueiro Thiago Silva, do Paris Saint-Germain.

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Admiração - Em craques do passado, como o tricampeão do mundo Gérson, ele busca inspiração histórica para o que faz Lucas Figueiredo/CBF

Tite não descansa, vive do futebol. Por dever de ofício e por prazer, assiste a muitas partidas, seja em seu escritório na CBF, seja nos estádios, seja no sofá de casa. Só interrompeu o trabalho, em dois anos no cargo, no fim de março, para visitar o Vaticano com a família. Reza todos os dias no pequeno santuário que mandou montar no escritório da CBF, com uma imagem de Nossa Senhora. Leva no punho esquerdo uma pulseira-amuleto, semelhante àquela com que presenteia os familiares que passam por problemas de saúde e atletas lesionados (Renato Augusto ganhou uma depois de se contundir, na época do Corinthians). “Quando é para acompanhar futebol, tenho a capacidade de abstrair tudo, não enxergo minha esposa, nada em volta. Se há um lance específico, anoto.” Já preencheu alguns cadernos em dois anos de seleção — ele separa as anotações táticas das motivacionais. Neste último, foram registradas frases de outros e dele mesmo, cultivadas como quem coleciona selos (algumas justificam a simpática troça que se faz com o empolado jeito do treinador de explicar seus movimentos, o “titês”, um idioma só dele). Alguns exemplos: “O controle de variáveis faz aumentar a chance e o porcentual de vencer”, apud Alex Ferguson, ex-técnico do Manchester United; “Concentração baixa gera percepção baixa, prejudicando a melhor tomada de decisão. Futebol é jogado com a cabeça”, de próprio punho.

O treinador não se furta a falar de suas frustrações, que chama de “fantasminhas”. O semblante se fecha ao lembrar o fim precoce da carreira como atleta, aos 27 anos — ele hoje tem 57 —, depois de sete cirurgias no joelho. Questionado sobre que imagem habita seus sonhos, não hesita: “Quando sonho com futebol, é sempre jogando, nunca como treinador”. O ex-volante se recorda de momentos alegres, como um gol marcado em São Januário, e de sua mais doída derrota: a perda do título brasileiro para o São Paulo, em 1986, quando atuava pelo Guarani de Campinas. “O sucesso como treinador não apaga a frustração de atleta. Sempre digo aos jogadores: ‘Desfrutem, porque é uma época muito rica; jogar bola é um prazer inigualável’.” Se “vai bater campeão”, outra frase clássica do titês, o gaúcho diz não saber. Afirma ter apenas uma certeza: quer merecer o título. “As pessoas me dizem que o Brasil precisa ganhar. Disso eu sei desde sempre, mas quero me ater ao desempenho, minha responsabilidade é fazer a equipe jogar bem.”

Volante no caxias - Tite encerrou a carreira de jogador no fim da década de 80, aos 27 anos Edson Correa/Jornal pioneiro/Agência RBS

É o que se verá a partir da estreia contra a Suíça, em Rostov — por acaso a cidade que está no coração da ebulição dos cossacos, como o Tarás Bulba de Gógol, uma casta de soldados que desde o século XVI vivia nas fronteiras sul e oeste do império russo. Um povo, segundo Gógol, em um texto de comentários atrelados a Tarás Bulba, “em que duas partes opostas do mundo, dois espíritos opostos estranhamente se reuniram: prudência europeia e abandono asiático; simplicidade e esperteza; uma forte noção de atividade e amor ao ócio; um impulso para o desenvolvimento e a perfeição e, ao mesmo tempo, um desejo de parecer desdenhoso de toda perfeição”. É um pouco a cabeça de Adenor Leonardo Bachi, o Tite, o cossaco sem violência, subtraído tudo o que soe a displicência, porque o homem é perfeccionista.


Doze homens, uma mulher e um segredo

O segredo, atenção, já foi revelado: é o zelo de Tite pela organização. Para azeitá-la, ele montou um segundo escrete, à sombra dos 23 jogadores. Há uma eminência parda: Edu Gaspar, ex-jogador, o faz-tudo, coordenador de seleções. A rigor, na hierarquia, Edu está acima do treinador. “Não quero que o Tite desprenda um pingo de energia a mais com programação e viagens. Disso cuido eu”, diz Edu. Na engrenagem, há um bloco destinado aos bastidores, de acompanhamento do estado físico dos atletas e análise de lances por meio de vídeos e estatística, e outro para treinamento e jogos. Com um cuidado: Cleber Xavier e Matheus Bachi (filho de Tite) ficam atentos ao ataque do time; Sylvinho e Fernando Lázaro acompanham a defesa.

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‘Tarás Bulba’, de Nikolai Gógol (tradução de Nivaldo dos Santos; 176 páginas; Editora 34; 46 reais) //Divulgação

Tarás Bulba, lançado em 1835, quando Nikolai Gógol tinha apenas 26 anos, o fez famoso em toda a Rússia. Com Almas Mortas, de 1842, ele ganharia notoriedade internacional. Tarás é resultado de vasta pesquisa do autor sobre o folclore e a história da Ucrânia, então parte do império russo. O herói da epopeia, que já foi comparado ao Ulisses da Odisseia de Homero, é um guerreiro cossaco que introduz seus dois filhos nas artes das batalhas sangrentas. Em comentário para a mais recente edição do livro, Bruno Barretto Gomide, do Departamento de Letras Orientais da USP, diz que Tarás Bulba foi recebido inicialmente como “um mero romance de aventuras, no estilo capa e espada”. É muito mais, um épico do século XIX que ainda hoje ecoa, sempre rejuvenescido.

Publicado em VEJA de 13 de junho de 2018, edição nº 2586

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