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O mais egoísta dos lances de futebol

Cristiano Ronaldo alcançou a bola a 2,10 metros de altura e, como se fosse o modelo de uma aula de mecânica do corpo humano, parou no ar

Por Fábio Altman - 7 abr 2018, 06h00

De todos os movimentos do futebol, o gol de bicicleta talvez seja o mais celebrado pelos jogadores e pela torcida. A euforia comumente alimentada pelo lance é filha da plasticidade — o corpo ereto, de costas para as traves, os braços estendidos, a violência do chute. A bicicleta — cuja invenção é atribuída ao brasileiro Leônidas da Silva, que a realizou pela primeira vez em 1932, mas que já tinha sido executada por um jogador que atuava no Chile vinte anos antes — é o mais egoísta dos recursos do mais coletivo dos esportes. Só os muito bons, os genuinamente arrogantes, a desenham no ar. E só os espetaculares a concluem com a perfeição do português Cristiano Ronaldo. Aos dezoito minutos do segundo tempo da partida entre Real Madrid e Juventus da Itália, em Turim, que terminaria com a vitória dos espanhóis por 3 a 0, ele alcançou a bola a 2,10 metros de altura e, como se fosse o modelo de uma aula de mecânica do corpo humano, parou no ar. A arquibancada italiana aplaudiu de pé. Zinedine Zidane, treinador do Real, coçou a careca e exclamou: “Esse cara é louco!”. Gianluigi Buffon, goleiro da Juve, foi direto ao mais polêmico dos pontos. “Cristiano Ronaldo tem de ser equiparado a Maradona e Pelé.” Sorte a partida ter sido televisionada e dezenas de fotógrafos estarem de um lado e do outro do campo — a imagem à direita é apenas uma das que eternizaram o feito. O espanto da plateia, paralisada naquele átimo de tempo, dá a noção da grandeza do que todos viram e depois rodou o mundo. No Twitter, Pelé brincou, ao exibir a foto de um tento de bicicleta seu contra o Corinthians, em 1969. “Alguém viu aquele gol de um jovem chamado Cristiano ontem? Fico imaginando de onde ele aprendeu aquilo.”

Publicado em VEJA de 11 de abril de 2018, edição nº 2577

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