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O esquema do PSB

Empresário revela que o avião que matou o ex-governador Eduardo Campos tinha um amigo do presidenciável como proprietário oculto

Em meados de 2014, o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, do PSB, começava a ganhar espaço na disputa eleitoral à medida que se desgarrava do PT e se apresentava como alternativa numa disputa polarizada entre tucanos e petistas. A “terceira via” chamava a atenção dos brasileiros, sobretudo porque o PSB passava ao largo do escândalo de corrupção da Petrobras. Mas a rota de Campos e de seu partido mudou radicalmente em agosto daquele ano, quando o jatinho Cessna Citation 560XL que transportava o candidato a presidente caiu em Santos, no litoral paulista. A tragédia ceifou a vida do ex-governador. Pouco tempo depois, veio à tona uma pergunta que começou a tisnar a imagem de Campos e do partido: de quem era, afinal, o avião usado pelo candidato a presidente? Após quase três anos de investigação da Polícia Federal, um delator resolveu pôr um ponto-final no mistério: o proprietário oculto era Aldo Guedes Álvaro, amigo, braço-direito e ex-assessor de Eduardo Campos.

Homem da mais absoluta confiança do ex-governador, Aldo Guedes era sócio de Eduardo Campos numa fazenda e numa empresa agropecuária localizadas em Brejão, no interior de Pernambuco. Em 2004, quando Campos assumiu o Ministério da Ciência e Tecnologia durante o primeiro governo Lula, Guedes ocupou um cargo estratégico na pasta. Em 2006, Campos foi eleito governador de Pernambuco. No ano seguinte, nomeou Guedes para o comando da Companhia Pernambucana de Gás (Copergás), onde passou a receber em seu gabinete empresários interessados em fazer negócios com o estado. A relação entre os dois velhos amigos incluía laços familiares — as esposas são parentes. Mas Aldo Guedes, segundo a investigação policial, era também o homem responsável pelo lado obscuro das ações do ex-­governador e do PSB.

João Carlos Lyra Pessoa de Melo Filho, o dono oficial do jato usado na campanha de Eduardo Campos, foi preso em junho do ano passado, na Operação Turbulência. A exemplo de quase todos os empresários envolvidos nos últimos escândalos de corrupção, João Lyra, como é conhecido, fechou um acordo de delação com a Justiça. Em depoimento ao Ministério Público Federal, revelou que o jato, avaliado em 8 milhões de dólares, tinha como sócio oculto Aldo Guedes. Lyra comprou a aero­nave, mas a maior parte do dinheiro saiu dos bolsos, ou melhor, dos cofres de empresas de fachada. O ex-governador teria escolhido inclusive o modelo da aeronave — porém isso tudo deveria ficar escondido. Ficou combinado que, apenas depois das eleições presidenciais, seria constituída uma empresa operadora de táxi aéreo para administrar o avião — e, enquanto isso não acontecesse, o PSB, para não chamar a atenção pública, bancaria oficialmente o aluguel do jatinho.

O avião não era o único negócio envolvendo o amigo de Campos. Havia mais: “Aldo Guedes era uma espécie de operador de Eduardo Campos”, disse o delator. Segundo ele, o ex-assessor era o coletor de dinheiro do e­­x-governador e do PSB, o verdadeiro homem da mala. Lyra disse que era apenas um intermediário. Revelou que recolhia propina para o esquema de Eduardo Campos e a repassava a Aldo Guedes de várias formas — em dinheiro vivo, em contas no exterior, em serviços simulados de escritórios de advocacia. Aldo era sempre o recebedor. Os contatos entre o delator e o amigo do ex-­governador eram realizados por meio de celulares pré-pagos cadastrados em nome de laranjas. Na chamada telefônica era combinado o local da entrega das malas de dinheiro. “Os repasses de valores ocorreram, na maior parte das vezes, na garagem do prédio residencial em que Aldo Guedes mora”, denunciou Lyra.

“O homem da mala” – Guedes: o amigo, dono oculto do jato e coletor de propina

“O homem da mala” – Guedes: o amigo, dono oculto do jato e coletor de propina (Bosco Lacerda/)

O amigo de Eduardo Campos também foi delatado por executivos da Odebrecht. Guedes foi acusado por um ex-diretor da empreiteira, Márcio Faria, de ter cobrado propinas, em nome do ex-governador, no valor de 90 milhões de reais para garantir dois contratos da Refinaria Abreu e Lima. O ex-assessor também foi alvo da delação da Camargo Corrêa. De acordo com o ex-presidente da empreiteira Dalton Avancini, o amigo do ex-governador recebeu 8,7 milhões de reais. No ano passado, soube-se que Guedes não operava só para Campos, mas para outros integrantes do PSB, como o senador Fernando Bezerra Coelho (PE). “O Aldo nega qualquer participação em operação de dinheiro. Em relação ao jato, realmente foi oferecido, mas ele não quis”, diz o advogado Ademar Rigueira Neto, que defende o amigo de Campos. É apenas mais um sintoma do empobrecimento da política brasileira descobrir que um partido que chegou a chamar atenção pela suposta lisura é, como se vê, igual a todos os outros quando o assunto é dinheiro sujo.

Publicado em VEJA de 26 de julho de 2017, edição nº 2540

Comentários

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  1. Ataíde Jorge de Oliveira

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