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“O diverso povo brasileiro”

Um extraordinário pacote visual para mostrar o que deve e o que não deve ser mantido

É raro que um ano produza frase tão simbólica de um tempo como a já imortal afirmação do presidente Temer captada por um gravador no escuro do Palácio do Jaburu:

— Tem que manter isso aí, viu?

Da boca de Temer, as palavras saíram com a espontaneidade própria das coisas corriqueiras. No gravador do bilionário Joesley Batista, viraram nitroglicerina. Temer dizia ao interlocutor que cuidasse de manter a mesada que pagava ao ex-deputado Eduardo Cunha em troca de seu silêncio. Tentou-se reler a frase, reinterpretá-la, desossá-la do seu significado mais duro, mas tudo resultou em vão — e a afirmação, encerrada por um singelo “viu?”, entrou para a antologia das barbaridades nacionais.

Nesta edição especial, VEJA tomou a frase de Temer como bússola, mas procurou examiná-la pelo seu avesso. Em vez de manter aquilo que o país sonha em eliminar, como o pagamento de propina para garantir uma ordem criminosa, VEJA buscou identificar o que, realmente, precisa ser mantido para o bem do Brasil. Com isso, cada uma das sete seções desta retrospectiva aborda temas que exigem a atenção nacional — da Lava-Jato às reformas, do respeito às mulheres à liberdade de expressão — e se inicia com uma ilustração de Beto Nejme, que se inspirou nos tradicionais lambe-lambes urbanos. Em cada um dos casos, Nejme buscou cartazes originais, fotografias e frases que, de fato, aparecem nas ruas e avenidas no Brasil e no mundo.

Para dar unidade ao conjunto, VEJA convidou o muralista paulistano Eduardo Kobra, ou simplesmente Kobra, para ilustrar a capa desta edição com sua visão do que deve ser mantido para o bem do Brasil. Kobra optou por retratar, com seu estilo e sua cor inconfundíveis, o elemento central de tudo: “o diverso povo brasileiro”, como ele diz. A força visual de sua ilustração é tal que VEJA decidiu expandi-la colocando-a na capa e na contracapa, o que reforça sua mensagem sobre a diversidade brasileira.

A costura final desse extraordinário material visual coube ao designer Daniel Marucci, há dezoito anos em VEJA, e sua equipe. O leitor pode deleitar-se com as 88 páginas seguintes, nas quais encontrará uma retrospectiva de 2017 e uma perspectiva para 2018, ano em que será preciso lutar não apenas por avanços, mas também contra retrocessos. Boa leitura.

Carta do presidente

Na noite da sexta-feira 22, o presidente Michel Temer enviou a VEJA a seguinte carta:

Prezado Senhor Redator Chefe,  

Tomo a liberdade de escrever-lhe tendo em vista a matéria publicada hoje na Revista Veja que se refere a uma frase que eu teria dito no encontro com o Senhor Joesley Baptista com o seguinte conteúdo: “tem que manter isso”. Mais adiante Vossas Senhorias dizem que eu estava dando aquela autorização tendo em vista que a frase anterior seria a de que ele estava entregando importância em dinheiro para o ex Deputado Cunha para comprar o seu silêncio. A afirmação é inteiramente falsa.  Peço a Vossa Senhoria que verifique o áudio para saber que a frase anterior a minha é a que diz assim: “estou de bem com ele”, ao que eu digo “mantenha isso”… Eu quero dizer a Vossa Senhoria que a matéria é, com a devida vênia, deliberadamente falsa. Tenho absoluta convicção  que Vossas Senhorias conhecem o áudio, sabem qual é o seu teor  e sabem que aquilo não é verdadeiro. Aliás, quando um dos veículos publicou essa matéria, este  o fez porque recebeu notícia verbal do Procurador da República dizendo que essa era a frase. Por isso acharam que ela era verdadeira e publicaram. Ora, a Folha de São Paulo replicou o que aquele veículo havia publicado. Mas, quatro ou cinco dias depois, quando teve acesso ao áudio, viu e constatou que aquela frase era mentirosa. A frase era outra, exatamente aquela que estou transmitindo aqui. E por isso, com a decência que tem que pautar o jornalismo brasileiro, e invocando seu manual de redação, a Folha publicou  notícia desmentindo a frase anterior. Desmentindo-a, para dizer que haviam se equivocado. Vieram a público para repor a verdade. Volto a dizer que a Veja têm absoluta consciência disso. Vejo, entretanto, que há uma campanha premeditada, falsa, equivocada para tentar desvalorizar este que vos escreve. Interessa-me muito o aspecto moral. Vossas Senhorias não entram para o embate de natureza política; querem entrar para o embate de natureza moral. E isso eu não admito. Estou escrevendo pessoalmente para revelar que   continuarei defendendo meu patrimônio moral contra  todas as inverdades que foram assacadas ao longo do tempo. Aliás, tudo isso foi desmascarado, tal como eu previra em pronunciamento que fiz logo quando estes fatos vieram à luz.  Os meus detratores estão todos desmascarados. Alguns estão presos e outros estão inteiramente desmoralizados, em face dos vários depoimentos destes últimos tempos. Por isso peço que publiquem imediatamente esta carta na Veja  “on line”, e depois na Revista, já que não dá para aguardar mais uma semana tendo em vista a deselegância com que se tratou a matéria na Revista que costuma ser  uma publicação séria. Tenho absoluta crença na imprensa brasileira. Peço, portanto, que reouçam o áudio para verificar que a frase  antecedente àquela   que colocaram na capa é precisamente outra que não a que  falsamente foi colocada como  verdadeira. Com a atenção modesta que me merecem.

Michel Temer