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O bote na cobra

Como presidente do Banco do Brasil, Bendine guardava dinheiro em casa. No comando da Petrobras, perfurou os cofres da Odebrecht e levou R$ 3 mi em propina

Fiel escudeiro do PT, Aldemir Bendine, conhecido como Dida, passou quase quarenta anos no Banco do Brasil. De estagiário nos anos 1970, chegou à presidência do então maior banco da América Latina em 2009, pelas mãos do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de quem se dizia amigo do peito. No governo de Dilma Rousseff, trocou o posto pela presidência da Petrobras, exatamente quando a Lava-Jato começava a mergulhar no poço mais profundo da corrupção. Apresentado como um executivo competente e talentoso para lidar com situações de crise, tinha como missão oficial estancar a corrupção e melhorar a imagem da estatal. Por baixo dos panos, sua tarefa aparentemente era outra. O executivo estava na mira desde março passado, quando funcionários da Odebrecht revelaram ter pago propina a ele para que protegesse os interesses da empreiteira. Na planilha de autoridades que recebiam subornos da Odebrecht, Bendine tinha o apelido de Cobra, o mesmo nome da operação policial que o prendeu na quinta-feira da semana passada.

A relação promíscua entre Aldemir Bendine e a maior construtora do país, segundo as investigações, começou quando ele ainda era presidente do Banco do Brasil. Em junho de 2014, a Odebrecht estava em processo de negociação de uma dívida bilionária. Na época, o publicitário André Gustavo Vieira da Silva, amigo de Bendine, procurou um diretor da empreiteira e cobrou 17 milhões de reais para fechar o negócio. Informado, Marcelo Odebrecht, o presidente da empresa, recusou-se a pagar. Em janeiro de 2015, o executivo voltou à carga. Tão logo foi escolhido por Dilma para chefiar a Petrobras, Bendine marcou uma reunião com Marcelo Odebrecht para tratar dos poderes que teria em seu novo cargo. O executivo, outra vez por intermédio de André Gustavo, também é suspeito de ter repassado informações privilegiadas da estatal à Odebrecht. Veio então a incursão definitiva: em um encontro em Brasília, Bendine deu o bote certeiro em Odebrecht. O presidente da Petrobras receberia 3 milhões de reais para favorecer a empreiteira.

INVESTIGADOS – O ex-ministro Guido Mantega, Lula e Dilma: corrupção vertical

INVESTIGADOS – O ex-ministro Guido Mantega, Lula e Dilma: corrupção vertical (Domingos Tadeu/PR)

Em plena Lava-Jato, a propina foi paga em três parcelas de 1 milhão de reais, entre junho e julho de 2015, em dinheiro vivo, repassado a André Gustavo, que também foi preso na semana passada. “Aldemir Bendine teve a audácia de solicitar vantagens indevidas de Marcelo Odebrecht, integrante do núcleo econômico da organização criminosa, em momento no qual o país já estava escandalizado pela profunda e grave corrupção revelada à sociedade”, escreveu o Ministério Público. Quando comandava o Banco do Brasil, Bendine se envolveu em outros episódios controversos. Descobriu-se, por exemplo, que, mesmo presidindo o então maior banco da América Latina, ele guardava 200 000 reais debaixo do colchão. A Receita Federal chegou a multá-lo depois de constatar que seu patrimônio havia crescido além de seus ganhos. A proximidade com Lula, Dilma e, principalmente, com o ex-ministro Guido Mantega sempre deixou o executivo na posição de figura intocável dentro do governo petista. Sabe-se agora por quê.

Entre outras coisas, Mantega já foi apontado como arrecadador de propina de Lula e Dilma. O advogado Pierpaolo Bottini, que defende o ex-­presidente da Petrobras, disse que a prisão do seu cliente foi desnecessária, porque ele sempre se pôs à disposição das autoridades. Investigadores da Lava-Jato esperam que Bendine siga os passos de outros ex-diretores da Petrobras e ajude a desvendar mais essa vertente na maior investigação de corrupção da história.


Operação Bolso Cheio

SALÁRIO – Procuradores: aumento em tempos de crise

SALÁRIO – Procuradores: aumento em tempos de crise (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Protagonista da Operação Lava-­Jato, o Ministério Público Federal tem um dos maiores holerites do funcionalismo público. E merece, sem dúvida. Um procurador da República em início de carreira ganha 28 947 reais. O procurador-geral, 33 763 reais — o teto legal do funcionalismo. Oitenta por cento da categoria ainda recebe auxílio-moradia, que pode acrescentar até 4 377 reais mensais, inclusive acima do teto. Mas, na semana passada, apesar dos bons salários, apesar da crescente escassez de dinheiro nos cofres públicos, apesar da crise econômica, apesar de tudo isso, o Conselho Superior do Ministério Público achou por bem aprovar um reajuste de 16,38% para a categoria, uma despesa anual de 116 milhões de reais. A decisão, tomada nesse contexto, espantou os brasileiros que pagam seus impostos. Há procuradores que consideram que quem se opõe ao aumento é contra a Lava-Jato. Engano: os brasileiros são a favor da Lava-Jato. Só não gostam de deboche.

Publicado em VEJA de 2 de agosto de 2017, edição nº 2541