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O artista da brutalidade

A violência de seu novo filme levou espectadores a deixar a sala de exibição. Mas Lars von Trier diz que deseja ir sempre “o mais longe possível” 

Lars von Trier bebe uma cerveja enquanto recebe jornalistas em uma tarde de sol em Cannes. Tempos atrás, o cineasta dinamarquês, de 62 anos, prometera parar de beber, mas agora diz que a sobriedade minou sua força criativa. A bebida também o ajuda a encarar entrevistas, que o deixam nervoso. Afinal, foi em uma coletiva de imprensa, há sete anos, quando apresentava o filme Melancolia, que o diretor fez as piadas infames sobre Hitler e o nazismo que levaram o Festival de Cannes a bani-lo. De volta ao evento para apresentar, fora de competição, The House that Jack Built — sobre um assassino psicopata, interpretado por Matt Dillon —, Von Trier formula cada resposta com cuidado, as mãos trêmulas traindo a ansiedade que ele combate com medicamentos. Mas ainda é o provocador de sempre: na entrevista a VEJA, declarou-se contente porque espectadores abandonaram a sessão de seu filme.

Muitos deixaram a exibição de The House that Jack Built na metade, transtornados pelas cenas de sadismo. O que pensa disso? Acho ótimo. Não se pode deixar o cinema sem sentir que se perdeu um pouco, que é preciso pensar sobre o que se viu. E às vezes acontece de sairmos pensando: “Isso é demais para mim, não aguento ver. Filmes como este não deveriam ser feitos”.

O objetivo, então, é transtornar o público? Ou provocar? Uma reação ou outra, está tudo nas mãos do público. A ideia é que seja perturbador. Afinal, se um homem mata uma criança, como acontece no filme, é uma cena que deve perturbar. Se não ficar abalado, você é um cínico. As imagens que não gostamos de ver — de um assassinato, por exemplo — existem no mundo real. Acreditar que esse tipo de coisa não existe se ninguém mostra essas cenas, isso, sim, é absurdo.

O senhor tem algum limite pessoal ou artístico na realização de seus filmes? Meu objetivo é sempre ir o mais longe possível. Pois seria desonesto e covarde não fazer isso. O espectador é quem decide se fecha os olhos, se fica na sala, se encara a cena. Tudo o que eu filmo tem reflexos da vida real. Essas coisas existem. Assassinos em série existem. E, para mim, se algo existe, merece ser filmado.

Extremos - Matt Dillon em ‘The House that Jack Built’: “É o espectador que decide se fecha os olhos”, diz Von Trier

Extremos - Matt Dillon em ‘The House that Jack Built’: “É o espectador que decide se fecha os olhos”, diz Von Trier (FOX Pictures/Divulgação)

Na última vez em que esteve em Cannes, o senhor disse que “compreendia Hitler” e isso lhe custou sete anos de banimento. Como enxerga o episódio hoje? Foi muito doloroso encarar uma acusação de apologia do nazismo, que poderia até render prisão. Eu me senti ridículo. Não sou bom com entrevistas e coletivas de imprensa. Se eu tivesse feito aquele comentário na Dinamarca, meu país, teriam entendido a piada. Foi estranho visitar outro país e descobrir que o humor que você tem em casa não pode ser usado em outras localidades. Claro, fui ingênuo. A França tem uma ferida aberta da II Guerra e do jeito com que os judeus foram tratados aqui. Fui apedrejado e poucos me escutavam. Todos diziam que eu era culpado. Mas ninguém falava a verdade: o Lars é um louco, um imbecil, fala sem pensar, mas não é nazista. Isso resolveria todo o problema.

Na época, o senhor refutou as acusações em entrevista a VEJA. Também falou de outra crítica persistente a seus filmes — a de que eles seriam machistas. Disse então que seus personagens femininos são reflexos seus. Isso vale também para The House that Jack Built?Uso a minha pessoa em todos os personagens. Desta vez, isso vale especialmente para Jack, o psicopata protagonista. Ele acredita que as atrocidades que comete são arte. E eu também gosto de pensar que sou um artista. Enfim, acho que poderia me tornar um grande assassino em série. Ainda bem que sou controlado o suficiente para não deixar minha carreira seguir nessa direção.
O novo filme inclui uma seção com trechos de seus filmes anteriores. O senhor sentiu a necessidade de explicar a própria obra? Não. Estava procurando exemplos visuais de artes extremas. Foi meio esnobe da minha parte escolher minha própria arte como uma metáfora da vida real. Mas esta é minha vida. O que eu sei fazer são esses filmes, por mais perturbadores e extremos que sejam.

Uma parte importante do filme se passa no inferno. Por quê? Meu inferno é uma combinação de diferentes fontes e referências, de mitos cristãos e gregos. Pessoalmente, não acredito no inferno. Mas acabei de ler algumas coisas do Stephen Hawking. Acredito que existem vários universos. Um deles pode ser um inferno. Essa ideia faz com que nós, humanos, nos tornemos ainda menores.

E o universo em que vivemos não é o inferno para o senhor? Não. Para mim, o inferno são a ansiedade e a depressão constantes.

Publicado em VEJA de 23 de maio de 2018, edição nº 2583