O abismo peruano
Acusado de receber quase 5 milhões de dólares da Odebrecht, o presidente do Peru, eleito em 2016, enfrenta um pedido de impeachment no Congresso
O economista Pedro Pablo Kuczynski, ou PPK, foi celebrado ao ser eleito presidente do Peru, em 2016, por defender a abertura econômica e evitar a volta do fujimorismo, movimento dos seguidores do ditador Alberto Fujimori, que governou o país entre 1990 e 2000 e está preso por violação dos direitos humanos e corrupção. Na quinta-feira 21, com o governo de PPK completando pouco mais de um ano, o Congresso se reuniu para votar seu impeachment. O motivo: entre 2004 e 2014, durante e depois de PPK ocupar os cargos de ministro da Economia e presidente do conselho de ministros, a Odebrecht, velha de guerra das propinas, pagou quase 5 milhões de dólares a duas consultorias vinculadas a ele. Ou seja: na esfera privada, PPK recebeu dinheiro da empreiteira e, na pública, tomou decisões que a favoreceram.
Como todo impeachment, o pano de fundo não é puramente jurídico, mas essencialmente político. PPK governou com um Congresso de maioria oposicionista. Das 130 cadeiras, 73 estão nas mãos de seus adversários. “O ocaso de Kuczynski começou a ser gestado quando ele tomou posse. Ele nunca conversou com a oposição, que só esperava um pretexto para tirá-lo de lá”, diz o constitucionalista peruano Aníbal Quiroga, em Lima. Seu impeachment — que não havia sido votado até o fechamento desta edição — requer o apoio de pelo menos 87 deputados para ser aprovado. “O que está em jogo é a democracia, que tanto custou ao Peru recuperar”, disse PPK em sua defesa no Congresso. Num sinal do abismo político no país, os fujimoristas não aceitam que o vice assuma e pedem eleições em caso de destituição de PPK. À frente do movimento está Keiko Fujimori, filha do ditador e também enrolada com a Odebrecht, de quem recebeu recursos não declarados na campanha de 2011.
Publicado em VEJA de 27 de dezembro de 2017, edição nº 2562
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