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Ninguém quer o líder

Desafio de Bolsonaro é manter dianteira na disputa presidencial sem coligações, sem estrutura partidária e com 7 segundos diários de propaganda eleitoral

Por Gabriel Castro - 20 jul 2018, 06h00

A imagem ao lado foi captada pouco antes das 14 horas da última quarta-feira, a exatos 82 dias das eleições. O deputado Jair Bolsonaro, líder nas pesquisas de intenção de voto, dorme durante o voo 3928 da ponte aérea de São Paulo para o Rio de Janeiro. A presença de um político conhecido num avião lotado sempre provoca algum tipo de burburinho. Os passageiros, no entanto, pareciam indiferentes. Na fila do embarque, em Congonhas, o deputado foi abordado por um casal formado por um homem negro e uma mulher loura que pediu para tirar uma foto. “Na minha época, meus amigos eram conhecidos como ‘Alemão’, ‘Negão’, e ninguém era chamado de racista”, disse o candidato, já introduzindo seu velho patuá racial. Todos riram. Bolsonaro continuou: “O mesmo ocorre com os gays. Os caras pegam no meu pé só porque eu…”. O homem interrompe: “Isso dá até cadeia!”. Mais risadas. No desembarque, no Santos Dumont, Bolsonaro caminhou sozinho até a saída do aeroporto para encontrar um assessor. Um pequeno grupo chegou a ensaiar uma vaia, mas a coisa não ganhou tração.

A serenidade do deputado durante a viagem, no entanto, é enganosa. Na véspera, ele recebera duas más notícias. A primeira: o senador Magno Malta — e estamos falando de um nome do baixo clero parlamentar — recusou-se a assumir o posto de candidato a vice de Bolsonaro, decisão que sepultou a possibilidade de uma estratégica aliança do PSL com o PR. A segunda má notícia veio em seguida. Com a negativa de Magno Malta, Bolsonaro anunciou que convidara para o posto o general Augusto Heleno (PRP), ex-comandante das tropas brasileiras no Haiti, que aceitou de pronto. Mas o PRP, que não é bobo nem nada, não quis.

RESERVA – Janaina Paschoal, coautora do pedido de impeachment de Dilma: principal opção de vice Edilson Rodrigues/Agência Senado

Rejeitado pelos partidos, Bolsonaro, pelo menos até este momento, chegará inteiramente isolado à convenção do PSL que vai formalizar sua candidatura, neste domingo. É um paradoxo. Se as eleições fossem hoje, projeções mostram que o deputado só teria menos votos que o ex-presidente Lula. Chegaria perto de 30 milhões de eleitores. Sem Lula, ele lidera as pesquisas em praticamente todos os estados, à exceção do Ceará e de Pernambuco. Dependendo do cenário, poderia vencer até no primeiro turno.

Para quem nunca disputou uma eleição presidencial e nunca fez parte da elite política, ainda que seja um velho político com carreira de três décadas, não é pouca coisa. Pelo manual tradicional do candidato, Bolsonaro faz quase tudo errado: não tem marqueteiro, exerce aquela liberdade zombeteira de dizer o que lhe vem à cabeça, visita regiões com potencial irrisório de votos e tem obsessão por temas tão candentes como a exploração de nióbio. Pior: se levado em conta o tripé considerado por muitos especialistas como essencial para que uma campanha eleitoral seja competitiva — tempo de televisão, dinheiro e alianças partidárias —, Bolsonaro já poderia ser considerado carta fora do baralho. Seu tempo de propaganda na TV se limitará a sete segundos diários, divididos em dois programas de três segundos e meio cada um. É o suficiente para dizer “Meu nome é Enéas”, ou melhor, “Meu nome é Jair” (veja a entrevista abaixo). O segundo ponto fraco da campanha será a escassez de recursos. O próprio candidato admite que quer arrecadar o mínimo. Bobagem.

PROMESSA – Campanha de Bolsonaro nas ruas: ele diz que vai gastar 1 milhão de reais Nacho Doce/Reuters

Qualquer candidato arrecada o máximo que pode, mas Bolsonaro faz questão de estimar que gastará apenas 1 milhão de reais em toda a campanha. Só para se ter uma ideia da desproporção, a presidente Dilma Rousseff, em 2014, declarou gastos de 318 milhões de reais. Se considerado o que a Lava-Jato descobriu depois, a campanha custou mais de 1 bilhão. O deputado já anunciou que não usará o Fundo Eleitoral, que dá cerca de 9 milhões de reais para o PSL. “É melhor assim. Se entrar muito recurso, como o partido não tem muita estrutura, a gente fica suscetível a problemas”, afirma. A principal fonte de arrecadação de Bolsonaro deve ser a vaquinha virtual, mas ele desconfia do mecanismo. Teme que seja uma brecha para irregularidades.

A terceira parte do tripé também não se mostra favorável a Bolsonaro. Filiado a um partido nanico, ele vetou alianças com siglas de esquerda, mas liberou coligações com tudo quanto é tipo de legenda, desde que à direita. O discurso radical não animou as agremiações mais conservadoras e afastou aqueles partidos considerados de centro (veja o gráfico abaixo)). Com isso, o deputado terá poucas figuras de peso defendendo seu nome nos estados, o que o deixa em especial desvantagem perante os principais adversários. Na quinta-feira 19, três dias antes da convenção, o PSL não sabia ainda quem seria o candidato a vice. A preferência era dada à advogada Janaina Paschoal, coautora do pedido de impeachment que derrubou Dilma Rousseff. “Tudo ainda pode acontecer”, afirmou Bolsonaro. O improviso revela mais duas características de sua campanha: a imprevisibilidade e o amadorismo, sinais que alimentam as teorias de que a força política do candidato do PSL já bateu no teto.

Para contornar a falta de palanques, Bolsonaro vai insistir na estratégia de se comunicar pelas redes sociais, território em que ele é um candidato especialmente popular. Ali, ele reina soberano. São 5,4 milhões de seguidores no Facebook, contra 2,2 milhões de Marina Silva, 910 000 de Geraldo Alckmin e 298 000 de Ciro Gomes. O WhatsApp, segundo ele, vai compensar o minúsculo tempo de televisão. Centenas de grupos de apoiadores compartilham informações (falsas e verdadeiras) sobre o parlamentar. Do próprio celular, Bolsonaro costuma disparar mensagens quase diárias para um grupo selecionado de 600 apoiadores que, de imediato, replicam o conteúdo para seus contatos. Por esse meio, ele divulga notícias favoráveis (principalmente as pesquisas que o situam em boa posição) e vídeos de respostas ao que ele considera “ataques” da imprensa e de opositores.

O fato de o candidato líder nas pesquisas ter um tempo irrisório de TV, carecer de aliados e manter uma estrutura de campanha mambembe chama atenção. Para o cientista político Carlos Pereira, da Fundação Getulio Vargas (FGV), essa aparente contradição entre o isolamento político de Bolsonaro e o bom desempenho nas pesquisas eleitorais é perfeitamente compreensível. Bolsonaro não se apresenta como um político convencional, embora esteja no mercado há décadas, e, em sua pré-campanha, não se mostrou empenhado em seguir o manual do candidato tradicional. Isso atraiu eleitores decepcionados com a política. “Não existem ainda estudos científicos que confirmem de forma robusta, por exemplo, que a mídia social é mais importante do que a mídia tradicional numa eleição”, ressalta o cientista político. “O apelo que a imagem do Bolsonaro gera, principalmente no que diz respeito à corrupção e ao combate à violência, é fácil e simplista. Sobretudo porque ele transmite opiniões de uma forma bastante maniqueísta, que as pessoas captam facilmente”, acrescenta Ricardo Sennes, cientista político da consultoria Prospectiva. Ou seja: o que hoje é trunfo de Bolsonaro pode se revelar à frente sua maior fraqueza.

O espaço na propaganda eleitoral e os recursos do Fundo Eleitoral levam em conta o tamanho das bancadas na C��mara. Em tese, os partidos com mais estrutura tendem a ser os que possuem mais apoio popular. Os bons resultados da pré-campanha de Bolsonaro inverteram essa lógica, até agora. Na opinião de Gerson Moraes, professor de filosofia política da Universidade Mackenzie, o fenômeno é uma “contradição do sistema” e um sinal de que a credibilidade das instituições políticas atingiu níveis perigosamente baixos. “Talvez tenhamos chegado ao fundo do poço para reconstruir a credibilidade dos políticos. É possível que estejamos vivendo um novo momento que se inicia por um voto de protesto. O eleitor de Bolsonaro diz não a tudo o que tem aí, não importa se é bom ou ruim”, afirma. O professor alerta para o fato de que, nesse contexto, a eleição do deputado poderia representar uma aventura perigosa. Diz ele: “Talvez até seja possível se eleger sem as instituições, mas não é possível governar sem elas”.

Com reportagem de Marcela Mattos e Edoardo Ghirotto


“Meu nome é Jair”

Em entrevista a VEJA, Jair Bolsonaro explica o que pretende fazer para se manter no topo da disputa à Presidência, compensar a falta de dinheiro e o tempo irrisório de TV.

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O que dá para fazer em um programa de três segundos? Dá para dizer “Meu nome é Jair Bolsonaro, PSL, 17”. Quem sabe um “Tamo junto” no final. Não dá pra ir mais além. Acho que “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” não cabe. Meu tempo de TV é menos da metade do que tinha o Enéas (ex-candidato nanico a presidente nos anos 90 que ficou conhecido por falar como uma metralhadora para driblar a escassez de tempo na TV).

Qual tem sido a dificuldade em formar alianças? Aliança tem de ser um negócio aberto, algo que não me traga dor de cabeça e que não me constranja. Eu prefiro não chegar devendo.

O senhor se queixa de que as pesquisas eleitorais subestimam o seu potencial. Por quê? Alguns especialistas dizem que eu tenho o que eles chamam de voto envergonhado. Há pesquisas mostrando que mais ou menos 80% dos que votam em mim não mudam o voto. Mais do que isso: esse pessoal é um feroz defensor meu, e isso vai fazer a diferença na reta final.

O segundo turno já é uma certeza? Se não acontecer nada de anormal contra mim, a gente vai para o segundo turno. E, escreve aí, existe uma possibilidade de nem haver segundo turno.

O senhor tem dito que sua campanha custará 1 milhão de reais. Isso é possível? Se dividir 1 milhão por 45, dá 22 000 reais por dia de campanha. A partir do registro da minha candidatura, a Polícia Federal vai ter pelo menos vinte pessoas à minha disposição. Não vou pagar nada de segurança. Fui agora a Registro (SP) e dormi na casa de uma irmã minha. A gente faz isso. Quanto à comida, para mim um ovo e uma lagosta são a mesma coisa. Vão ocupar o mesmo espaço no estômago.

E de onde virá esse 1 milhão de reais? Quando eu abrir a plataforma de arrecadação na internet, acho que a gente vai arrecadar no mínimo 10 milhões rapidamente. Há muita gente com recurso que quer doar. A minha ideia é jogar a maior parte para os candidatos a deputado federal.

O senhor não vai ter marqueteiro? Não vou. Por que eu vou querer marqueteiro para sete segundos de TV? Minha campanha será nas redes sociais.

Qual será o tamanho de sua equipe de campanha? O mesmo da torcida do America do Rio (risos). Umas vinte pessoas. Todas voluntárias.

E não vai mesmo voar de jatinho? Não. Outro dia um cara falou para mim: “Eu tenho um avião em que cabem vinte pessoas”. Eu disse: “No meu cabem 200”.

 

Publicado em VEJA de 25 de julho de 2018, edição nº 2592

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