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Náufragos no planeta família

Em nova versão produzida pela Netflix, 'Perdidos no Espaço', produção dos anos 60, ganha um banho de loja e dá uma guinada rumo ao sinistro e ao conflituoso

Por Isabela Boscov - 7 abr 2018, 06h00

O Robô agitava seus braços de tubo de aspirador de pó e avisava, em timbre metálico: “Perigo! Perigo!” — ao que o pusilânime e afetado Dr. Smith, interpretado com gosto pelo ator Jonathan Harris (e, no Brasil, magnificamente dublado por Borges de Barros), se irritava e tartamudeava contra aquela “lata de sardinha enferrujada”. Com três temporadas lançadas entre 1965 e 1968 nos Estados Unidos e exibidas mundo afora por anos a fio, Perdidos no Espaço deixou lembranças fundas na geração que foi entretida, em casa, por uma oferta maciça de seriados de ficção científica de segunda linha mas diversão de primeira — boa parte deles com a assinatura de um Midas do período, o produtor Irwin Allen, que criou também Túnel do Tempo, Viagem ao Fundo do Mar e Terra de Gigantes (além de filmes como Inferno na Torre e O Destino do Poseidon). Para Perdidos no Espaço, Allen tomou uma ideia simples e brilhante: transferir para os confins da galáxia as aventuras dos mais alegres náufragos da literatura — a família Robinson, do clássico publicado em 1812 pelo suíço Johann David Wyss. Extraviados a caminho de uma colônia sideral, o casal, suas duas filhas e o caçula Will Robinson, mais o Robô, enfrentavam novos e absurdos perigos a cada semana, terminando cada episódio ainda mais unidos e otimistas. Um clássico B. Ou seja, é inimitável, mas seu visual tosco e baratinho em nada seduz o público atual. Daí ser compreensível, e mesmo oportuna, a refeitura disponível na Netflix (que a produz) a partir da sexta-feira 13.

Clássico B - A série original: ingenuidade e diversão de primeira
Clássico B - A série original: ingenuidade e diversão de primeira 20TH Century Fox / Netflix/Divulgação

Na nova versão, Perdidos no Espaço ganhou um banho de loja: tem locações (digitais) impressionantes, tecnologia convincente e enredo um tantinho menos estapafúrdio. O número de personagens é bem maior (uma colônia de uma família só trazia implicações que escapavam às mentes ingênuas dos anos 60, mas hoje seriam óbvias). O elenco também subiu um degrau ou dois, e o Dr. Smith virou Dra. Smith — a ex-musa do cinema independente Parker Posey, em uma atuação eficaz e por vezes realmente enervante. A alteração mais substantiva, porém, está no tom conflituoso e quase sinistro, que corteja o público que se rendeu a Stranger Things. O casal Robinson (Molly Parker e Toby Stephens) está à beira do divórcio; as duas irmãs mal se aguentam — a mais velha, Judy (Taylor Russell), é intensa e espinhosa como a mãe; e o adorável e inseguro Will (Maxwell Jenkins) se apega sobremaneira ao Robô, uma máquina assustadora e enigmática cuja presença está ligada ao naufrágio dos colonizadores e constitui o mistério central da primeira temporada. Lançados em costas distantes, os Robinson se mostram bem mais apreensivos que em suas encarnações anteriores: nada como alguns anos-luz de viagem para constatar que não existe planeta mais estranho que a família.

Publicado em VEJA de 11 de abril de 2018, edição nº 2577

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