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Maestro-espetáculo

Concertos celebram o centenário do americano Leonard Bernstein, regente de gestos teatrais — e um dos maiores compositores do século passado

Por Sérgio Martins - Atualizado em 30 jul 2020, 20h23 - Publicado em 7 abr 2018, 06h00

Insatisfeito com o que ouve no ensaio, o maestro diz aos músicos que “não haverá Mahler nenhum” se eles não se esforçarem mais. A Filarmônica de Viena fez fama tanto pela excelência quanto pela capacidade de destroçar maestros. Mas os vienenses obedeceram aos ditames do americano insolente — cuja autoridade em Gustav Mahler era incontestável: à frente da Filarmônica de Nova York, nos anos 60, já havia feito uma gravação histórica das sinfonias do compositor austríaco. Leonard Bernstein, cujo centenário é comemorado neste ano, era uma figura tão especial e carismática que conseguia dobrar o mais ranzinza dos instrumentistas. Foi ainda um compositor prolífero e inquieto. “O maior nome da música americana do século XX”, diz Roberto Minczuk, regente titular do Teatro Municipal de São Paulo, que dedicará a Bernstein dois momentos de sua temporada: agora, nos dias 6, 7 e 8, será apresentada, pela primeira vez no Brasil, a Missa, homenagem ao presidente John F. Kennedy composta por encomenda da viúva, Jacqueline, para a inauguração do Kennedy Center, em Washington, em 1971; em agosto, mês do nascimento do compositor, uma noite de gala incluirá os Salmos Chichester, entre outras peças célebres. No Rio, em setembro, o Teatro Municipal fará récitas de West Side Story, o melhor musical de Bernstein, com direito à coreografia original de Jerome Robbins e direção da dupla Charles Möeller e Claudio Botelho. A maior das homenagens, é evidente, será em Nova York, cidade que Bernstein retratou em seus musicais e onde morreu, em 1990. O ano Bernstein do Carnegie Hall teve início em outubro de 2017 e continua nesta semana com as orquestras da Filadélfia e de Boston tocando os Salmos Chichester e a Segunda Sinfonia, entre outras obras.

Gangues de Nova York – West Side Story, filme de 1961 sobre o musical de Bernstein: vibração popular Everett Collection/Grupo Keystone/.

Leonard Bernstein foi vários talentos num só. O primeiro, é claro, foi o musicista. Filho de imigrantes ucranianos, ele era um rapazote quando começou a dedilhar notas no piano de uma tia. Em poucos meses de prática, superava seu professor, e, na adolescência, conseguia solar a exigente Rhapsody in Blue, de George Gershwin. O talento na regência despontou durante seus estudos na Universidade Harvard, onde impressionou os maestros Dmitri Mitropoulos (a quem anos mais tarde sucederia na Filarmônica de Nova York) e Serge Koussevitzky. Foi ali também que conheceu o compositor Aaron Copland, de quem se tornaria grande amigo e incentivador. Nativo do Estado de Massachusetts, Bernstein radicou-se em Nova York em 1942, aos 24 anos. Ganharia notoriedade ao substituir Bruno Walter, da Filarmônica de Nova York, num concerto no Carnegie Hall — episódio que marcou o início do relacionamento de Bernstein com a orquestra, cuja direção artística assumiria em 1958. O Bernstein compositor aflorou nesse mesmo período em que lutava por reconhecimento como regente. Criou sua Primeira Sinfonia (também conhecida como Jeremiah) e o musical On the Town.

A produção de Lenny, como gostava de ser chamado, é abrangente: vai de musicais da Broadway a peças eruditas, e mesmo nestas ele incluía elementos da música popular de seu tempo — no caso, o jazz e o rock. Sua Missa, por exemplo, tem letras de Stephen Schwartz (compositor de musicais como Godspell e Wicked) e um trecho de Paul Simon. Seu cavalo de batalha, no entanto, é West Side Story, um Romeu e Julieta passado em Nova York, que põe em confronto gangues de americanos e porto-­riquenhos. Fracasso de bilheteria quando estreou na Broadway, em 1957, o musical tem alguns dos temas mais vibrantes de Bernstein, como o swing da abertura, e canções que se tornaram standards do pop e do jazz — a vibrante America e a delicada balada Somewhere, com letras do então iniciante Stephen Sondheim. Virou filme em 1961.

Radical chique – Com a mulher, Felicia, e Don Cox, dos Panteras Negras New York Post/.

Um dia depois de deixar o posto de diretor artístico da Filarmônica de Nova York, em 1969, Bernstein foi a um show de Jimi Hendrix. Gostava de rock — e os roqueiros gostavam dele: “Ele parecia um astro do rock, usando capas vistosas e flanando pela Quinta Avenida”, disse Mick Jagger a VEJA, em 2003. Como era de esperar de um expoente dos círculos progressistas de Nova York, Bernstein enfronhou-se na cultura política daqueles anos. Posicionou-se contra a Guerra do Vietnã. Em uma festa famosa de 1970, recebeu em seu apartamento membros dos Panteras Negras, movimento negro revolucionário — e foi para esse evento político-social que o ferino jornalista Tom Wolfe cunhou a expressão “radical chique”.

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Pop star da batuta, Bernstein tinha propensão a certa intensidade dramática quando comandava uma orquestra. Seu estilo de regência era “maior que a vida”, diz Clive Gillinson, diretor artístico do Carnegie Hall — que, em seus tempos como violoncelista da Sinfônica de Londres, foi regido por Bernstein. Seus gestos eram às vezes espalhafatosos, mas ele sabia bem o que cada peça exigia. “Sempre respeitou o compositor. Nunca quis ser maior do que a obra”, diz Gillinson. Marin Alsop, da Osesp, que foi aluna de Bernstein, lembra que ele também sabia ser contido: “Eu o vi reger Sagração da Primavera sem maneirismos”. Bernstein tinha a ambição de encarnar o compositor que homenageava. “Se eu não virar Brahms ou Stravinsky quando rejo Brahms e Stravinsky, não terá sido um bom concerto”, dizia. Ele soube sempre encarnar Leonard Bernstein, um dos compositores mais geniais do século XX.

Publicado em VEJA de 11 de abril de 2018, edição nº 2577

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