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Já está tudo combinado

Não há segredo na escolha do sucessor de Raúl Castro em Cuba. Salvo uma grande reviravolta, será Miguel Díaz-Canel, que fará tudo para não mudar nada

As eleições são o principal símbolo das democracias. Para as ditaduras, porém, elas também têm um valor inestimável. Permitem dar a aparência de que determinado regime goza de apoio popular e ainda provocam a sensação de que algo está mudando, embora tudo continue como sempre foi. No dia 11 de março, Cuba realiza eleições para a nova Assembleia, que só se reúne duas vezes por ano. Seus membros não têm atribuições legislativas. Sua única função prática é referendar as políticas do regime, mas a próxima legislatura terá uma missão extra: apontar o substituto do presidente Raúl Castro. O novo ditador vai ser o engenheiro Miguel Díaz-Canel, de 57 anos. Atual vice-presidente, ele tomará posse em 19 de abril. Será o primeiro nascido depois da revolução de 1959 a assumir o posto.

Díaz-Canel tem a simpatia de todas as alas do Partido Comunista Cubano. O fato de não trazer um Castro no sobrenome desidrata a suspeita de que a família transformou a ilha em uma ditadura hereditária. Político, ele não fez parte de nenhuma fileira militar. Em tese, teria mais liberdade para incorporar, sob ordens do Comitê Central, medidas que seriam motivo de excomunhão sob os irmãos Fidel e Raúl Castro.

Dificilmente, porém, Díaz-Canel será uma versão caribenha de Mikhail Gorbachev, que assumiu a União Soviética desacreditado e promoveu as reformas que levaram ao fim do bloco comunista, em 1991. Entre os seus pares, Díaz-Canel é visto como um homem leal ao chefe Raúl. Não há possibilidade alguma de vir a governar sozinho. Sua escolha está condicionada à ascensão de dois nomes que Raúl Castro e o Partido Comunista definiram como fiadores da estabilidade revolucionária. Um deles é Alejandro Castro Espín, filho de Raúl e chefe da inteligência. O outro é Luis Alberto Rodríguez López-Callejas, genro de Raúl, oficial das Forças Armadas, que controlam a Gaesa, empresa detentora de 40% das atividades econômicas de Cuba. Raúl, aos 86 anos, continuará como primeiro-secretário do Partido Comunista. Ele precisará ser consultado nas decisões mais importantes e terá poder de veto. Seguirá, assim, dando as cartas no país, como fez seu irmão Fidel até a morte, em 2016.

Com as doações de petróleo venezuelano minguando e o presidente americano Donald Trump ameaçando cortar as receitas do turismo, Cuba precisa atrair investimentos do resto do mundo. Para tanto, tem de mostrar que está em transformação, abrindo a economia e flertando com o capitalismo. Um presidente jovem e civil é uma estampa conveniente, enquanto Alejandro Castro e Luis Alberto Rodríguez cuidarão para que as reformas aconteçam sem afetar os valores históricos dos comunistas.

Um estudo publicado em novembro pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) dá as dimensões do fracasso das reformas empreendidas em Cuba desde os anos 1990. Ao reavaliar os números da economia da ilha e corrigir as distorções provocadas pela dupla cotação de dólar, chegou-se à conclusão de que o PIB cubano cresceu abaixo da média de um conjunto de dez países com características populacionais e tamanho da economia semelhantes. Em 2014, o PIB per capita foi 35% menor que o medido em 1985, quando Cuba ainda gozava da ajuda financeira da então União Soviética.

O maior feito de Díaz-Canel até o momento foi ter sobrevivido politicamente por anos para ser o herdeiro dos Castro. Os possíveis sucessores antes dele foram banidos do mapa político cubano. Em 2002, o então ministro das Relações Exteriores, Roberto Robaina, foi expulso do partido por traição. Fidel acusou-o de se autopromover em demasia como o seu sucessor. Na rua da amargura, Robaina atualmente vive como pintor de paredes. Sete anos depois, já sob o governo de Raúl, Carlos Lage, então vice-presidente e espécie de primeiro-ministro, foi banido. Flagrado em um vídeo fazendo críticas aos gerontocratas, Lage passou a viver como médico com salário mensal de 30 dólares. “Todos foram com muita sede ao pote e enfrentaram a fúria dos irmãos Castro. Díaz-Canel ascendeu na hierarquia do partido sem virar um alvo”, diz o economista e analista político cubano Fernando Menéndez. Se a submissão e a lealdade de Díaz-Canel a Raúl Castro não forem postas em ques­tão nos próximos dias, será ele o fiador da continuidade da ditadura cubana.

Publicado em VEJA de 14 de março de 2018, edição nº 2573