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A internet é uma ilusão

Hugo Gloss, o “influenciador digital” mais cortejado pelas celebridades fala sobre truques usados por quem tenta parecer importante nas redes sociais

Bruno Rocha Fonseca, brasiliense de 32 anos, é um fenômeno na internet. Seus 12,2 milhões de seguidores no Instagram superam a marca de famosos como a pop star Madonna (11,5 milhões). Mais conhecido como Hugo Gloss (uma brincadeira com o nome do estilista alemão Hugo Boss), ele chamou atenção com tiradas engraçadas no Twitter, há cerca de dez anos. Acabou contratado como redator do programa Caldeirão do Huck, da Rede Globo, emprego no qual passou seis anos, enquanto se consolidava como o influenciador digital — pessoa que dita tendências de consumo e comportamento na web — mais badalado pelas celebridades. Hoje, Hugo Gloss produz um site com notas sobre famosos e tem mais de 20 milhões de fãs, somando-se todas as redes sociais, nas quais a atração principal, com frequência, é ele próprio, em viagens, festas e cenas de bastidores ao lado de nomes que vão de Ivete Sangalo a Katy Perry.

Quanto custa um post no seu Instagram? A partir de 35 000 reais. Tem todo tipo de proposta: gente que quer se promover, sex shop, saco de lixo. Trabalho, no entanto, para que meu site seja mais forte que qualquer rede social. Quem depende do Instagram ou do Facebook está à mercê dos algoritmos, que fazem com que os posts apareçam para um número restrito de pessoas que seguem você. Seguidor não é sinônimo de dinheiro.

Nem milhões de seguidores? A internet não é a vida real, é uma edição da realidade, filtrada como cada um bem entende. Não é à toa que o Stories (recurso do Instagram no qual vídeos e fotos publicados desaparecem depois de 24 horas) tem esse nome, porque ali você é autor da própria narrativa, que pode tanto ser fiel como ficcional. Há agências que contratam posts para eu inserir no Stories e exigem aprovação prévia. Isso significa que, ao contrário do que parece, os vídeos não são necessariamente do momento. É preciso entender que existe um abismo entre conquistar muitos seguidores e conseguir viver apenas do seu trabalho nas redes. Desde 2008, quando comecei no Twitter, eu tinha números altos, mas só pude sair do emprego na Globo e me dedicar exclusivamente a ser Hugo Gloss oito anos depois. Vale ainda dizer que muita gente compra seguidores e curtidas das tais fazendas de perfis falsos.

Como isso funciona? Existem empresas cujo negócio é criar e administrar perfis falsos, para vender curtidas, fazer algo parecer muito maior, seja de um político, seja de um artista. Nunca comprei nem me envolvi, mas sei que são adquiridos aos milhares. Há cantores que inflam números de curtidas e visualizações no YouTube utilizando esse recurso. As pessoas acham que a música está estourada, ficam curiosas, e aquilo acaba eventualmente decolando de fato.

“Tem gente que viaja por dois dias ao exterior, tira fotos com roupas diferentes para que os seguidores achem que ficou mais tempo. Ou se hospeda por um dia no Hotel Fasano e faz o mesmo”

Que outros truques são usados nas redes? É muito comum gente que viaja por dois dias ao exterior, tira fotos com roupas diferentes para montar um arquivo e os seguidores acham que a pessoa ficou muito mais tempo fora. Ou se hospeda por um dia no Hotel Fasano do Rio e faz a mesma coisa. Tem gente que se hospeda, chama um amigo e posa com sungas e biquínis variados para parecer habitué.

No seu site você não fala de outros influenciadores. Por quê? Porque prefiro falar dos famosos de verdade. O Brasil é gigante, e virar uma pessoa famosa requer passar pela televisão ou pelo rádio, que chegam a áreas do país onde ainda não há internet. Influenciador, então, não é celebridade. Por outro lado, a maioria dos atores e atrizes não sabe ser influenciadora, fica presa ao arquétipo do galã ou da mocinha, e isso não cola. Quem está com o celular na mão o tempo inteiro olhando para você se sente cada vez mais seu amigo. Assim, ou o artista se desconstrói ou fica naquele marasmo de entrar ali para falar da nova peça, do novo trabalho. Quem cruzou essa fronteira muito bem foi a (atriz e apresentadora da Rede Globo) Fernanda Souza, que deu uma humanizada na imagem. Ela é um sucesso.

Que tipo de post as pessoas nem sonham que pode ser pago e no entanto é? Outro dia chegou uma proposta para noticiar que o ex-jogador Ronaldo estava com uma camisa da seleção da Argentina. Depois seria revelado que era, na verdade, uma campanha de uma marca de chocolate. Recusei. Faço questão de sinalizar sempre o que é anúncio.

No começo você era mais ácido ao falar de famosos. O que mudou? Hoje em dia, antes de postar, penso em 1 000 interpretações que um tuíte pode ter. Minha equipe é orientada para o seguinte: na dúvida, fale bem ou não fale nada. Quando surgiu o Twitter, o que se dizia morria ali. Hoje o que era piada virou declaração.

De quais celebridades você é amigo? Bruno Gagliasso, Giovanna Ewbank, Fê Paes Leme, Ivete Sangalo, Claudia Leitte, Preta Gil, Luciano Huck e Angélica, Carolina Dieckmann. Temos grupos de WhatsApp e nos falamos o tempo todo.

Em 2010, a atriz Lilia Cabral tirou satisfação com você no Projac por ter falado dela no Twitter. O que aconteceu? Sou grato por esse episódio, porque virou uma chavinha na minha cabeça. Fazia dois meses que eu tinha sido contratado para trabalhar como redator no programa Caldeirão do Huck e, enquanto almoçava, vi o elenco da novela Viver a Vida numa mesa próxima. Contei isso no Twitter, alguém avisou a Adriana Birolli, que fazia uma filha da Lilia na novela, e vieram gritando comigo. Ali, entendi que tudo tem hora e lugar. Foi uma fase complicada, e o Luciano Huck me segurou na empresa, porque a Lilia Cabral pediu minha cabeça à direção. Hoje em dia, tenho muita informação e penso: o que é mais importante? A notícia ou minha ligação com aquela pessoa? Sempre privilegio o relacionamento.

Tem gente que o acha antipático. Talvez em alguns dias eu seja mesmo. Não me sinto na obrigação de ser simpático a todo momento, apesar de as pessoas cobrarem isso. Lamento. Sempre haverá alguém com opinião ruim sobre você. Então não me ponho nesse lugar de ter de ser querido o tempo inteiro. Seria me desumanizar.

O ônus de ficar tão conhecido é começar a receber todo tipo de comentário? Já me xingaram de tudo o que você possa imaginar. Teve gente que me mandou não desmunhecar no Oscar (quando foi comentarista da premiação para canais a cabo), outro que postou foto minha num tapete vermelho e disse que eu era a faxineira do evento. No começo é difícil, mas você se acostuma a levar pedrada. Além de gay, sou negro e sempre fui gordo. O combo do bullying. Na escola, era mais combativo, comprava briga e me impunha.

Seu visual mudou muito depois que ficou conhecido. Perder peso foi exigência do mercado? Emagreci por mim, não pelos outros.

Como emagreceu? Coloquei um balão no estômago durante um ano, mas também cortei açúcar e carboidratos, que são meu maior ponto fraco e válvula de escape da ansiedade. Durante um tempo, fiquei sem beber. Perdi 50 quilos. Eu me lembro de ir ao endocrinologista desde pequeno, já tomei todo tipo de remédio: sibutramina, anfepramona. Acho que minha luta com a balança será eterna, mas hoje entendi que não existe alternativa além de exercícios físicos e alimentação regrada.

Em que seu sucesso modificou a forma como os famosos o tratam? Dá para fazer vários “antes e depois”. Tem gente que não olhava na minha cara e agora me aborda com um sorriso de orelha a orelha. Não me incomodo. Conquistei esse respeito com meu trabalho, e eu trabalho muito. Não tem hora nem local. Hoje uma equipe de vinte pessoas tem como fonte de renda a minha empresa, e eu preciso manter essa roda girando.

Estar no Oscar é tão glamouroso quanto parece? Não, nem mesmo para as celebridades. De cara, elas já deparam com uma muralha de uns 500 repórteres e dizem as mesmas respostas incontáveis vezes. Estive lá em duas ocasiões. Na primeira, em 2016, tinha de ficar em cima de um caixote. Assim, não há como abordar os famosos. Então, restou-me confiar no carisma e improvisar, como se estivesse numa transmissão ao vivo de rede social. A premiação começa às 17 horas, mas é preciso chegar ao meio-dia e não se pode comer nem beber nada, para não ter de ir ao banheiro e perder o lugar.

As roupas que você usa no tapete vermelho são emprestadas ou compradas? O que não me emprestam, eu compro. No Oscar usei Dior e paguei com meu dinheiro. Cerca de 1 600 dólares. Considero que foi um investimento. Imagine quanto custaria um ingresso para o Oscar… E várias vezes meu visual é uma forma de me destacar diante dos famosos. Nicole Kidman foi uma que me elogiou. Ela é maravilhosa, lindíssima. Parece mais jovem nos filmes. Já a Charlize Theron consegue ser ainda mais deslumbrante pessoalmente do que no cinema.

Em que mais você gasta dinheiro? Em viagens. Não faço loucuras de compras. Em 2013, fiquei no cheque especial pela última vez e, desde então, tento gastar apenas 20% do que ganho. Pago aluguel até hoje, porque fiz as contas e vi que era melhor investir do que adquirir imóvel. Comprei uma casa para minha mãe em Brasília, que continua sendo minha raiz. Meus avós saíram da Paraíba e da Bahia em pau de arara para trabalhar na construção de Brasília.

“Lembro de, aos 5 anos, ver meu pai apontar uma arma para a cabeça da minha mãe. Ele morreu em 2007, mas, mais que isso, na memória deixou de existir. Daria um bom vilão de novela”

Você sempre fala muito de sua mãe e nunca de seu pai. Por quê? Conviver com ele não foi uma experiência positiva. Eu me lembro de, aos 5 anos, ver meu pai apontar uma arma para a cabeça da minha mãe. Era a clássica história de dependência alcoólica, violência doméstica, delegacias e boletins de ocorrência. Não sofri tanto com ele por ser gay porque meu irmão também é. Meu irmão, sim, sofreu, apanhou, foi expulso de casa. Minha mãe um dia fugiu com a gente. Dormíamos nós três e minha irmã numa quitinete com colchões no chão. Meu pai morreu em 2007, mas, mais que isso, é uma pessoa que na memória deixou de existir. Daria um bom vilão de novela. Talvez um dia eu o coloque em uma, quando virar roteirista.

Você tem planos de ser autor de novelas? Não sei se de novelas, mas tenho vontade de escrever dramaturgia. Cinco anos antes de eu pisar no Oscar, fiz uma entrevista de emprego e disse que meu sonho era estar em Hollywood. Quando penso no futuro, quero ainda estar lá, mas talvez com uma série ou programa de entrevistas na Netflix. E com filhos.

Você tem namorado? Namoro há dois anos. Ele é advogado e quase ninguém o conhece, porque não o exponho nas minhas redes. Precisei encontrar alguém que anda comigo quando pode e que entende quando não pode. Realmente, não posso reclamar de como vivo hoje. Mas ainda quero muito mais.

Publicado em VEJA de 15 de agosto de 2018, edição nº 2595