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Está rindo de quê?

Sucesso da novelinha 'As Aventuras de Poliana', do SBT, celebra o otimismo a toda prova — ainda que não esteja fácil enxergar o mundo com lentes cor-de-rosa

Por Marcelo Marthe 1 jun 2018, 06h00

Durante a greve dos caminhoneiros, a visão de ruas desertas e postos de gasolina fechados provocou melancolia nos cidadãos das metrópoles do país. Daí a dizer que a população sentiu saudade dos congestionamentos, contudo, vai um caminhão de distância. Se os brasileiros fossem como a mocinha do novo folhetim juvenil do SBT, essas distinções seriam indiferentes. Haja trânsito, greve ou tsunami, a protagonista de As Aventuras de Poliana sempre vê um lado róseo nas desgraças da vida.

Filha de artistas itinerantes, Poliana (Sophia Valverde) fica órfã de mãe e de pai numa sequência de tragédias. Ainda assim, mantém um sorriso luminoso. Despachada de ônibus do Ceará para São Paulo, terá de viver com uma tia rabugenta, que nem se dá ao trabalho de pegá-la na rodoviária após 45 horas de viagem. Choro e ranger de dentes? Nada disso. A heroína de 11 anos enxerga beleza até no engarrafamento que é o corolário de seu azar: “Quando a gente está parado, dá para ver os detalhes da cidade”.

Poliana era sinônimo de otimismo inabalável bem antes de virar novelinha do SBT. A trama escrita pela equipe de Iris Abravanel — mulher do patrão Silvio Santos — se inspira num clássico infantojuvenil com mais de um século de idade. Lançado a princípio em capítulos, num jornal de Boston, Pollyanna, de Eleanor H. Porter, virou best-seller logo que publicado em livro, em 1913, e ganhou uma sequência, Pollyanna Moça, dois anos depois. Ao longo das décadas, vieram várias continuações feitas por outros autores e adaptações para o cinema — a mais famosa é a da Disney, de 1960.

A personagem é um gigante da literatura motivacional, e seu nome ganhou certo sentido pejorativo. A chamada síndrome de Poliana refere-se à exibição de um otimismo tão exacerbado que não encontra amparo na realidade. Ser uma Poliana é ser ingênuo, cego ou escapista. Mas, para a senhora Silvio Santos, a personagem ensina lições à nação em crise. “O brasileiro poderá perder a alegria e a esperança se olhar só as circunstâncias. Mas quantas possibilidades incríveis este país tem? Felizmente, nosso povo não perdeu o senso de humor e está mais atento”, diz Iris. No teste ao lado — concebido com o senso de humor de que fala a noveleira —, o leitor verá se é cético ou Poliana.

A empolgação do SBT com sua nova trama não configura otimismo vazio. Depois de vários sucessos reciclados da TV mexicana (Carrossel) ou argentina (Chiquititas), As Aventuras de Poliana é a primeira investida juvenil com propriedade intelectual 100% da emissora (o livro é de domínio público). Graças a seus números musicais sem fim, à fofura da protagonista e à presença da estrelinha Larissa Manoela (que faz uma vilãzinha light, Mirela), vem se revelando um belo acerto: exibe médias diárias de até 16 pontos no Ibope desde que entrou no ar, há duas semanas.

Sua trama, em linhas gerais, é a mesma do livro. A órfã mal-amada mantém-se impávida na trilha da alegria com o auxílio de uma arma inusitada: o Jogo do Contente, desafio que consiste em buscar um ângulo positivo mesmo nas piores tragédias — e que parece produzir efeitos neuronais prodigiosos. “Aos 12 anos, aprendi a jogar o Jogo do Contente. Sem saber verdadeiramente o que significava, estava criando novas conexões em meu cérebro”, diz Iris. Para a noveleira, a história de Poliana tem poder transformador: “Ouvimos más notícias e vemos muitas coisas desagradáveis durante o dia. Se não fizermos uma faxina mental diária, vamos acumulando lixo tóxico em nossa mente”. Se os brasileiros pudessem ver o mundo com as mesmas lentes cor-de-rosa de Poliana, quem aí reclamaria de ficar sem combustível ou batatas?

Publicado em VEJA de 6 de junho de 2018, edição nº 2585

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