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Elas vão substituir você

Até 2030, as máquinas devem acabar com metade dos trabalhos existentes hoje. É um cenário que trará desemprego e nos forçará a ser mais produtivos

Quando, em 1956, o cientista da computação americano John McCarthy (1927-2011) cunhou o termo “inteligência artificial”, durante uma conferência na universidade de Dartmouth, nos Estados Unidos, a intenção já era desenvolver máquinas capazes de livrar os seres humanos de tarefas de alguma complexidade porém largamente enfadonhas. “A proposta é usar todo o nosso conhecimento para construir um programa de computador que saiba e, também, conheça”, resumiu McCarthy, expressando uma ambição que vem de muito antes de ele proferir tais palavras. Uma narrativa mitológica judaica, por exemplo, já apresentava, milênios atrás, a ideia de um ser artificial pensante, o Golem, feito de barro, e que serviria os humanos. Na Idade Média, alquimistas chegaram a sonhar em dar vida à criatura por eles batizada de Homunculus. Era apenas um devaneio que o tempo e a ciência se encarregaram de trazer para o plano das realidades.

E a inteligência artificial (IA) de hoje em dia, tal como foi formulada por McCarthy, é a concretização dessa aspiração que se confunde com a história. No entanto, no momento em que a humanidade parece estar perto de construir um robô capaz de substituir o homem em um sem-número de atividades — o Golem do século XXI —, o que poderia ser motivo de unânime comemoração arrasta consigo o pavor de que tais softwares deixem milhões de seres humanos desempregados. A preocupação é tamanha que o tema ganhou lugar de destaque na agenda do Fórum Econômico Mundial — evento anual que reúne líderes políticos e empresariais —, que teve início na terça-feira 23 em Davos, na Suíça. Segundo levantamento feito pela organização do fórum, a soma de empregos perdidos para a IA será de 5 milhões nos próximos dois anos. No estudo — que propôs um esforço global, em especial por parte dos governos, para amenizar os impactos da tecnologia —, as áreas de negócios mais afetadas serão as administrativas e as industriais. “O único fator com chance de limitar esse avanço é a vontade dos líderes, que poderão optar por investir na reconfiguração do mercado, promovendo a recolocação dos trabalhadores em oportunidades que surgirão”, disse o economista alemão Klaus Schwab, fundador e presidente do evento.

Uma loja física recém-inaugurada pela Amazon na cidade de Seattle, nos Estados Unidos, na segunda-feira 22, é um exemplo lapidar do tremendo impacto que se dará com a, digamos assim, invasão dos robôs no trabalho. Nela não há atendentes. Quando o cliente escolhe um item nas gôndolas, um software conectado a milhares de câmeras de rastreamento adiciona automa­ticamente o produto a uma conta on-line. Caso ele mude de ideia, e devolva a mercadoria, esta é retirada da cesta de compras virtual. Na hora de pagar, não há fila: o valor é debitado da conta do cliente, que teve de se cadastrar antes de entrar no estabelecimento. Para tanto, bastou que passasse o celular, sincronizado com um aplicativo bancário, em um scanner postado na entrada da loja.

Nesse admirável — e temido — mundo novo apresentado pela Amazon, mesmo nos bastidores da lida quase não há funcionários de carne e osso: o estoque é coordenado por IA. Aos humanos, restaram apenas umas poucas vagas de monitoramento — para checar, por exemplo, se ninguém com menos de 21 anos estaria adquirindo produtos alcoólicos, o que é ilegal nos Estados Unidos. Ou seja, o que essa empreitada indica é que no futuro não haverá mais entregadores, carregadores nem caixas nos supermercados. Só nessa última categoria existem 3,5 milhões de empregados nos EUA.

Um estudo publicado em novembro pela consultoria americana McKin­sey avalia que em torno de 50% das atividades tidas como repetitivas serão automatizadas na próxima década. Nesse período, no Brasil, 15,7 milhões de trabalhadores serão afetados pela automação. Em outras palavras, caso seu emprego não exija muito de criatividade ou de habilidades lúdicas, é enorme a probabilidade de que venha a ser ocupado por alguma máquina. Em todo o mundo, o legado da mecanização avançada será de até 800 milhões de pessoas à procura de oportunidades de trabalho. Desse total, boa parte terá de se readaptar, mas 375 milhões deverão aprender competências inteiramente novas para não cair no desemprego. Nos países ricos, aonde a tecnologia chega primeiro, o impacto deve ser maior. Nos EUA e na Alemanha, um terço da força de trabalho terá de se reinventar. No Japão pode ser pior: metade das pessoas será substituída pela IA. “Do colarinho-branco ao chão de fábrica, teremos substituições”, disse a VEJA o economista zimbabuano James Manyika, diretor da McKinsey, responsável pelo levantamento.

Em 2013, os economistas Carl Benedikt e Michael Osborne, ambos da Universidade de Oxford, na Inglaterra, publicaram um estudo no qual indicavam a probabilidade de uma série de carreiras ser extinta pela ascensão dos computadores-trabalhadores. Segundo seus cálculos, presentes na publicação The Future of Employment (O Futuro do Emprego), é muito próxima de 100% a probabilidade de profissões facilmente automatizáveis, como a de operador de telemarketing, sumirem do mapa de empregos ainda nos próximos dez anos. Por outro lado, há atividades que quase não serão afetadas. São aquelas que exigem capacidades humanas, demasiado humanas — como a criação artística, a psicanálise e as que requerem sensibilidade e perspectiva histórica sobre os acontecimentos (não por acaso, é de 0,7% a chance de arqueólogos serem destronados por robôs, de acordo com o levantamento inglês).

Pouco antes de deixar o cargo de presidente dos EUA, em janeiro de 2017, Barack Obama afirmou, em entrevista, que “os empregos estão acabando por causa da automação”. Ele também ressaltou que um dos exemplos disso seria “o Uber sem motorista” e que “as mudanças ocorrerão nos escritórios de todo o país”. A preocupação de Obama é que os governos não consigam acompanhar o ritmo das mudanças. Por isso, ele previu que nos próximos 25 anos as economias desenvolvidas terão de enfrentar uma escassez de vagas.

Nem todos, contudo, são tão pessimistas assim. Os economistas ingleses Richard e Daniel Susskind (pai e filho, respectivamente), ambos professores de Oxford, defendem, no livro The Future of Professions (O Futuro das Profissões), a ideia de que quando atribuições são extintas, ou modificadas, os seres humanos se transformam no mesmo ritmo. “O benefício é que os profissionais farão mais, em menos tempo”, escreveram. Para eles, a bonança tecnológica levará à criação de novos tipos de emprego. A tese também é defendida pelo engenheiro de automação Arthur Igreja, da Fundação Getulio Vargas do Rio: “No futuro, assumiremos funções ligadas aos nossos interesses. Serão trabalhos com valores de produção diferentes dos que temos hoje”. Como em tecnologia o futuro não dura muito tempo, é prudente “humanizar-se” cada vez mais profissionalmente.


Há vagas para robôs

Segundo estudos da consultoria americana McKinsey e da universidade inglesa Oxford, a inteligência artificial (IA) nos substituirá em 50% de nossas atividades, aquelas ligadas a tarefas mecânicas e repetitivas; contudo, ainda nos destacaremos nos empregos baseados em habilidades criativas e lúdicas. Saiba qual a probabilidade de, em cerca de uma década, carreiras serem extintas ou passarem a ser executadas numa parceria entre pessoas e máquina — e quais surgirão justamente devido às novidades tecnológicas.


As profissões que deixarão de existir em uma década

 (Caio Borges/VEJA)

Operador de telemarketing

Acredita-se que daqui para a frente não serão abertas novas vagas nesse setor. As empresas têm substituído os funcionários por softwares que compreendem a linguagem humana e respondem adequadamente

Probabilidade de extinção: 96%

 (Caio Borges/VEJA)

Recepcionista

Responder a perguntas e indicar caminhos para visitantes são atividades repetitivas que podem ser facilmente feitas por robôs. A profissão está na lista das que sumirão, dando lugar a totens de atendimento

Probabilidade de extinção: 96%

 (Caio Borges/VEJA)

Contador

Auditorias e contabilidade, ou mesmo conselhos sobre investimentos e cortes de orçamento, poderão ser feitas facilmente pela IA, mais capaz de realizar contas, previsões e, em especial, cruzar informações baseadas no levantamento de grandes quantidades de dados — o big data, na expressão em inglês

Probabilidade de extinção: 94%

 (Caio Borges/VEJA)

Motorista

Em 2017, os carros autônomos atingiram o nível 4 na escala de 1 a 5 que mede a IA de veículos autodirigidos, o que significa que ela já é tão boa quanto nós ao volante. Ao chegarem ao esperado nível 5 — o que pode ocorrer na próxima década —, esses carros ultrapassarão a capacidade humana

Probabilidade de extinção: 89%


As profissões que serão exercidas por robôs e humanos…

 (Caio Borges/VEJA)

Advogado

Assistentes virtuais cuidarão de tarefas rotineiras como pesquisar leis, mediar negociações e escrever contratos. Contudo, um ser humano ainda será essencial para representações em tribunais ou para guiar os casos, agora com base em sugestões passadas pelas máquinas

Probabilidade de ganhar um colega robô: 70%

 (Caio Borges/VEJA)

Médico

Sistemas de IA analisarão dados para criar relatórios com possíveis diagnósticos e também acompanharão o dia a dia do paciente, por meio de softwares que compilam informações médicas

Probabilidade de ganhar um colega robô: 80%


…E as novas, só para humanos

 (Caio Borges/VEJA)

Arquiteto de realidade virtual

Haverá demanda de profissionais capacitados para desenhar objetos em mundos digitais, como os de realidade virtual. O Facebook, por exemplo, já tem recrutado funcionários para o projeto Spaces, que propõe a criação de ambientes a ser explorados por meio da rede social

Probabilidade de existência: 100%

 (Caio Borges/VEJA)

Treinador de assistente pessoal

Em algumas áreas, como atendimento ao cliente ou arquitetura, existem expressões e jargões específicos que os robôs precisarão aprender — e os professores serão desenvolvedores responsáveis por programar esses softwares

Probabilidade de existência: 100%

Publicado em VEJA de 31 de janeiro de 2018, edição nº 2567

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Comentários

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  1. Luiz Chevelle

    Restauração de carros antigos. Não pode ser substituída por robôs.

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