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Ela não me reconheceu

O político Mario Covas Neto conta como encara a bipolaridade e a suspeita de Alzheimer de sua mãe, Lila, de 85 anos

Na semana retrasada, um dia depois de anunciar minha saída do PSDB, partido que o meu pai, Mario Covas, ajudou a fundar, fui visitar a minha mãe, Lila. Ela vive desde julho em uma clínica médica destinada a idosos. Naquela manhã, pela primeira vez, ela não me reconheceu. Perguntou a mim mesmo quem eu era, teve dificuldades de entender o que acontecia. Só retomou a memória quando pronunciei o meu apelido de infância, Zuzinha. Foi um estalo, como se uma luz se acendesse na memória dela. As pessoas têm carinho pela minha mãe. Ela ficou ao lado do meu pai ao longo da vida pública e do enfrentamento dos problemas de saúde dele (Covas morreu em 2001, em decorrência de câncer). Hoje, ela vive um processo de confusão mental. Não quero que sejam feitos exames para diagnosticar se é Alzheimer. O que mudaria no seu quadro de saúde? Ela perdeu um irmão para a doença há dois anos, e uma irmã passa pelo mesmo processo de esquecimento. Dos sete filhos dos meus avós maternos, três tiveram esse problema.

Mas o caso da minha mãe vai além, e prova que a genética pode falar alto. Mesmo antes de o meu pai morrer, ela tomava remédio para combater a bipolaridade. Minha avó também tinha essa doença, com uma agravante: o tratamento no passado consistia em receber choques elétricos. Minha mãe não foi submetida a choques elétricos, mas sempre viveu numa montanha-rus­sa. Uma hora ela se sentia estável, na outra, eufórica. E depois vinham desconforto e tristeza com tudo. Esse ciclo durava noventa dias cravados. Quando em depressão, ela se enfiava em casa e não queria falar com ninguém. Na fase de euforia, fazia 500 coisas ao mesmo tempo. Cozinhava tarde da noite, ficava mão-aberta com dinheiro e depois se arrependia. Vivia em um eterno conflito interno. Com o passar dos anos, o looping se tornou mais curto. Ela experimentava todas essas sensações antagônicas em questão de poucas horas. Hoje em dia, quando está agitada, fica agressiva com todos ao redor.

Depois de ser cuidada por anos pela minha irmã Renata, em Santos, minha mãe morou comigo entre 2012 e julho de 2017, em São Paulo. Embora ela recebesse ajuda de enfermeira 24 horas por dia, não dispúnhamos da estrutura adequada. A cada problema, tínhamos de correr para o hospital, onde minha mãe foi internada três vezes por infecção urinária. A deterioração do quadro de saúde pedia uma atitude. A perda de autonomia foi contínua. Tomar banho, usar o banheiro, andar… nada mais pode ser feito sem a ajuda de alguém.

Apesar de saber que a clínica seria o melhor lugar para ela, foi um momento muito doloroso não tê-la ao meu lado. Como filho, pensei que poderia não estar lhe dando o máximo de conforto. Fiquei em conflito por mandar para longe a pessoa que cuidou de mim a vida toda. Os médicos com quem conversei, no entanto, foram unânimes em afirmar que eu estava fazendo o melhor. Como minha mãe não se alimenta direito, ela tem agora um tubo no estômago, uma sonda gástrica, por onde recebe um complexo de vitaminas. Por ser vaidosa, pede que lhe passem esmalte nas unhas das mãos quando se sente bem. Também adora batom. Eu e minha irmã vamos vi­sitá-la toda semana. A minha filha caçula, a Manu, de 3 anos, faz uma festa quando está com a vovó.

Minha mãe não tem mais nenhuma atividade, por isso não participou da missa de dezessete anos de morte do meu pai, na terça passada, dia 6. A seu modo, ainda bem, ela escapa das brigas familiares e das complicações políticas, que acabam se misturando. João Doria e Bruno Covas, meu sobrinho e vice-prefeito de São Paulo, ameaçam tirar meu mandato de vereador porque saí do PSDB. Alegam que o cargo pertence à legenda. Minha mãe não faz ideia do que está acontecendo. Em outros tempos, ela entenderia, pois acompanhou toda a vida pública do meu pai. Mas não é mais assim.

Publicado em VEJA de 14 de março de 2018, edição nº 2573