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“É proibido proibir”

Consagrado há meio século pelos universitários de Paris, o lema que correu o mundo continua atual diante de uma das ameaças do século XXI — a intolerância

Por Rinaldo Gama Atualizado em 31 jan 2018, 15h15 - Publicado em 29 dez 2017, 06h00

Eles eram jovens. Mas é de duvidar que aquele tenha sido o melhor ano de sua vida. Afinal, não há nada de minimamente prazeroso em respirar gás lacrimogêneo, obrigar-se a atirar pedras nos inimigos e viver correndo da polícia — nem sempre com sucesso. Em 1968, mais exatamente no mês de maio de 1968, mais precisamente ainda no mês de maio de 1968 em Paris, os dias eram assim. Havia, de um lado, as passeatas dos universitários, que tinham começado o ano com reivindicações próprias da, chamemos deste modo, “categoria”, e agora já mobilizavam outros tantos descontentamentos. Havia, no polo contrário, as forças policiais, a postos para conter quaisquer excessos. Com isso, o confronto passou a ser inevitável. Em pouco tempo, o movimento dos estudantes desencadeou uma crise de autoridade. Os muros da cidade escancaravam o que estava acontecendo. Por toda parte era possível ler grafites de contestação da ordem vigente. Il est interdit d’interdire — “É proibido proibir” —, bradava o mais célebre deles. “É proibido proibir, lei de 10 de maio de 1968”, especificava uma de suas versões de maior carga provocativa, numa alusão ao aviso oficial “É proibido colar cartazes, lei de 29 de julho de 1881”. Eles eram jovens — e, como se costumou assinalar, amavam tanto a revolução. Cinquenta anos depois, todos envelheceram, é claro. Uma pergunta, no entanto, se impõe: esse envelhecimento teria ocorrido também com a rebeldia embutida em seu slogan máximo, com o “não ao não” que Caetano Veloso cantou, apenas quatro meses após os distúrbios do maio francês, em uma música intitulada justamente É Proibido Proibir?

O cenário de guerra começou a se armar, na verdade, em janeiro de 1968. No dia 8 do primeiro mês daquele ano simultaneamente mirabilis e horribilis, como frisou o colunista Roberto Pompeu de Toledo na edição passada de VEJA, o ministro da Juventude, François Missoffe, dirigiu-se até a Universidade de Nanterre para inaugurar uma piscina olímpica. Lá, Missoffe, que em 1967 havia escrito no Livro Branco da Juventude, publicação oficial da pasta, que o jovem francês “se interessava por todos os grandes problemas do momento, todavia não pretende entrar tão cedo na política”, viu sua tese ruir de maneira espetacular. Atravessou-lhe o caminho um estudante de sociologia de 22 anos, algo troncudo e de cabelos ruivos, que, depois de pedir-lhe que acendesse o cigarro, disparou: “Li o seu dossiê. São 600 páginas de inépcias. Vocês nem sequer tocam na questão sexual dos jovens”. Missoffe respondeu: “Com a cabeça que você tem, deve conhecer certamente problemas dessa ordem. Eu só poderia lhe aconselhar um mergulho na piscina”. Ao que Daniel Cohn-Bendit, o ruivo, sem hesitação, retrucou: “Eis uma resposta digna das juventudes hitleristas”. Despontava, ali, Dany, le Rouge (Dany, o Vermelho), que se tornaria uma espécie de sinônimo do Maio de 1968 — embora o movimento procurasse evitar a individualização de lideranças, preferindo destacar a inexistência de um comando centralizador, o que daria à coisa um caráter mais propriamente coletivo. Cohn-Bendit estaria à frente do histórico 22 de março — quando os alunos tomaram o prédio da administração de Nanterre, enfurecidos com a prisão de um colega que pertencia a um comitê contrário à Guerra do Vietnã — e das ruidosas batalhas de maio, na capital francesa, especialmente a do dia 13, apesar de sua ordem inicial ter sido “ocupar o Quartier Latin sem enfrentamento com a polícia”. Nascido na França, Dany, o Vermelho, tinha a nacionalidade dos pais, judeus-alemães. Chegou a ser ameaçado de expulsão da universidade, contudo a reação dos estudantes impediu que o reitor de Nanterre levasse a decisão adiante. Atônitos, o governo do presidente Charles de Gaulle, as autoridades universitárias, a imprensa, a opinião pública, o establishment, como um todo, não sabiam como encarar a revolta. “A barricada fecha a rua, porém abre o caminho”, registrou alguém num muro qualquer da capital da França.

Foi o ator, humorista, escritor, diretor e cantor parisiense Jean Yanne, pseudônimo de Jean Gouyé (1933-2003) — que trabalhou com Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e Maurice Pialat —, quem cunhou o lema inexcedível: “É proibido proibir”. Se a expressão foi dita ou não em tom de boutade, não importa. O fato é que a juventude a levou a sério. “A frase ganhou a conotação de luta antiautoritária, exprimindo o desejo do jovem de pensar por si mesmo, à distância dos conformismos dos partidos organizados e sua lógica de tomada do poder”, explica Olgária Chain Feres Matos, professora titular do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP) e autora do introdutório Paris 1968: as Barricadas do Desejo (1981). “O slogan pôde se universalizar porque estavam então em vigor muitas ditaduras, tanto na América Latina como na Europa. Num ano por excelência antiautoritário, a máxima universalizou a crítica aos valores impostos do consumo, da técnica, dos lazeres alienados, da indústria cultural, da civilização do automóvel, da vida burocratizada e administrada”, observa Olgária.

“Aquele era, indiscutivelmente, um aviso, um basta que a juventude estava dando ao discurso dos poderosos: ‘Você não vai mais dizer o que eu devo ser’. Esse era o seu lado positivo. O lado negativo é que se tratava, ainda, de um discurso do confronto”, diz o psicanalista e psiquiatra Jorge Forbes. “Para Jacques Lacan, aquele que denuncia o tirano por meio do confronto ‘melhora’ a tirania. Ele defendia uma outra proposta: um discurso capaz de gerar a vergonha, o ridículo, mais do que o temor.” De qualquer forma, Lacan (1901-1981) chegou a se encontrar com Cohn-Bendit no auge dos entreveros de 1968, conforme relata Elisabeth Roudinesco em sua biografia do analista francês, editada em 1993. No dia seguinte ao da reunião, ele comentaria em seu seminário na École Normale Supérieure: “Venho me matando em dizer que os psicanalistas deveriam esperar alguma coisa da insurreição; há os que retrucam: o que a insurreição poderia esperar de nós? A insurreição res­pon­de-lhes: o que esperamos de vocês, no caso, é que nos ajudem a lançar paralelepípedos”.

Ao que se sabe, embora Lacan tenha colocado sua assinatura em um manifesto de apoio aos rebelados, e a famosa foto de Dany, o Vermelho, encarando um policial tenha ido parar na capa do póstumo O Seminário — Livro 17: o Avesso da Psicanálise (1991), que cobre o período das aulas que deu entre 1969 e 1970, o psicanalista jamais saiu às ruas para arrancar paralelepípedos e atirá-los nos soldados. Já os filósofos franceses Jean-Paul Sartre e Michel Foucault foram às passeatas de maio de 1968. Com uma diferença: enquanto Foucault atribuía aos acontecimentos do período o início de seu interesse pela reflexão sobre o poder, Sartre confessaria, em 1970, que ainda estava pensando no que havia acontecido dois anos antes e “não tinha compreendido muito bem: não pude entender o que aqueles jovens queriam”.

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A busca de certa legitimidade para o movimento a partir do aval de mestres como Lacan, Sartre e Foucault não deixa de ser uma curiosa contradição por parte de quem se situava na contramão da sociedade estabelecida, e, nas palavras de Forbes, entre os pioneiros “de uma nova ordem mundial, pós-moderna, com a perda de importância da autoridade vertical do Estado, da Igreja, do Pai etc.”. Seja como for, não foi essa tentativa de encontrar apoio na intelligentsia ao propósito de “abrir uma brecha” que animava o movimento, segundo o próprio Cohn-Bendit, que fez com que os universitários não alcançassem seus objetivos. Os contestadores cumpriram o seu papel, entretanto não foram capazes, naquele momento, de mudar, de transformar a ordem em vigor. “Hoje estamos mais próximos do que representou Maio de 68 do que em 1969”, acreditava Dany, o Vermelho, já na década de 80. “Em 1968 se dizia: os velhos esquemas não funcionam mais. Em 1969 se produziu a reaparição de tais esquemas”, avaliou ele.

No Brasil, o recrudescimento de um regime que, por definição, já era duro não esperou nem mesmo 1969. Vaiado ininterruptamente, Caetano Veloso nem sequer conseguiria cantar É Proibido Proibir — uma encomenda do produtor Guilherme Araújo (1936-2007), que se empolgara ao ver fotos de um muro grafitado com a frase — numa etapa do III Festival Internacional da Canção realizada no Tuca, o Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? (…) Vocês não estão entendendo nada, nada, nada!”, esbravejou o baiano, num irado discurso em que pediu para ser desclassificado na competição. O ataque maior contra a proposta de que era proibido proibir viria em 13 de dezembro, com a decretação do AI-5, que, sem o menor constrangimento, sentenciou: estava tudo proibido.

Ao menos por aqui, o ideal libertário de 1968 passaria mais de duas décadas ensurdecido. Não por acaso, em maio de 1984, mesmo após toda a campanha das diretas, uma reportagem de capa de VEJA trazia o resultado de uma pesquisa feita com jovens que mostrava que os contestadores representavam apenas 5% de quem tinha entre 15 e 24 anos, enquanto a soma de conservadores e integrados às diretrizes vigentes alcançava 53%. Em outubro de 1990, em nova reportagem sobre o tema baseada em pesquisa, VEJA revelava que os filhos dos rebeldes da década de 60 viviam acomodados, sem nenhuma intenção de derrubar coisa alguma. O ardor transformacionista só voltaria a ser forte em 1992, com os caras-pintadas, que foram às ruas para exigir o impeachment de Fernando Collor de Mello. No movimento daqueles estudantes que pintavam o rosto de verde e amarelo podia se notar, para além da juventude, uma outra característica que os aproximava do Maio de 1968. Diferentemente dos comícios das diretas, protagonizados por líderes políticos de peso — só na Praça da Sé, em 25 de janeiro de 1984, estavam dois nomes que seriam eleitos presidente da República: Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva —, os personagens principais das passeatas de 1992 eram moças e rapazes anônimos. A ideia de uma mobilização marcada pela ausência de lideranças específicas voltaria com as já históricas jornadas de junho de 2013 — que começaram no Rio de Janeiro e em São Paulo sob o pretexto de repudiar um aumento nas tarifas de ônibus, no entanto logo deixaram claro que se tratava de um protesto contra “tudo isso que está aí”. Organizadas à margem de políticos, sindicatos e afins, as jornadas eram um claro sintoma do que veio a ser chamado de “partidofobia”. A mesma “partidofobia” que se verificaria nas manifestações de 2016 em favor do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff — que puseram nas ruas a exacerbação dos ânimos inflamada pela internet.

Cristãos mortos pelo Estado Islâmico no Egito
O HORROR, O HORROR – Cena de vídeo postado no YouTube em 2015 pelo Estado Islâmico: não é aceitável que as redes sociais, em que todos dizem o que querem, sem proibição, sejam usadas para difundir o discurso do ódio, o antônimo da tolerância //Reuters

Com seu ar de indomáveis, as redes sociais poderiam passar a mensagem de que seriam as mais legítimas representantes do ideal que há por trás da máxima “é proibido proibir” — nelas, todos falam o que bem entendem. “O Maio de 1968 negava o discurso de ódio oficial. O ‘é proibido proibir’ queria quebrar as diferenças de sexo, de raça etc. O que se vê nas redes é o contrário disso: são ‘tribunais especiais de justiça’, que julgam, condenam e até matam”, aponta Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “O que temos é a utilização das técnicas mais modernas no exercício das práticas mais antigas”, prossegue ele. Para Romano, o legado de 1968 foi “muito rapidamente vencido pelo movimento da própria sociedade”, porém “deixou algumas sementes, como a da defesa ambiental do planeta”.

A questão atual do “é proibido proibir”, sobretudo em decorrência da internet, é quanto ela poderia servir de lição para estancar a onda de intolerância que ameaça o século XXI — desde o bullying nas escolas até a difusão do terror pelo Estado Islâmico. O limite da tolerância é a intolerância: não se pode aceitar que o espaço democrático instaurado pela era digital na ágora virtual seja posto a serviço de hordas de perseguição que, se vitoriosas, tomariam como primeira providência exatamente a supressão do tal espaço democrático. Dito de outro modo: é proibido proibir porque é proibido proibir.

Publicado em VEJA de 3 de janeiro de 2018, edição nº 2563

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