Clique e assine a partir de 9,90/mês

…E Graham Bell virou outra coisa

Uma década após o lançamento do iPhone, os smartphones tornaram-se onipresentes — e telefonar é só uma das funções do telefone

Por Mariana Amaro - 13 jul 2018, 06h00

É possível que você esteja lendo esta reportagem em um smartphone. E, se não for esse o caso, é provável que ele se encontre ao alcance de sua mão. Nada a estranhar: quem se separa desses aparelhos hoje em dia? Nem à noite: é para o celular que um número cada vez mais espantoso de pessoas — já são 5,4 bilhões de linhas no planeta — dirige sua atenção antes de dormir; e é também para ele que elas olham primeiro quando acordam. Aliás, existem aplicativos que ajudam a pegar no sono e outros que despertam qualquer um — como o alarme que só pode ser desabilitado se o dono der alguns passos.

Não há notícia de nenhum gadget que tenha se tornado tão onipresente (e onipotente). É um recorde de popularidade. Com o aparelho que quase todo mundo carrega consigo, é possível realizar uma série de atividades que antes exigiriam tempo, deslocamento e dinheiro. “De vez em quando aparece um produto revolucionário que muda tudo”, disse Steve Jobs (1955-2011) no lançamento do iPhone, em 9 de janeiro de 2007 — data que pode ser considerada um desses extraordinários “de vez em quando”. Na apresentação, ele enfatizou que estava “revolucionando o telefone” (embora já existissem smartphones, como os da BlackBerry). Isso porque num mesmo dispositivo seria possível ouvir músicas, usar a internet e “até” fazer uma ligação. Sim, definitivamente “telefonar” passava a ser apenas “mais uma” função do telefone — e o iPhone logo se transformou em sinônimo dessa nova fase do aparelho criado por Graham Bell.

Enquanto o público presente à performance de Jobs se extasiava, por exemplo, com a tela do aparelho, sensível ao toque, capaz de aumentar ou diminuir uma foto bastando aproximar ou distanciar o indicador do polegar, as ações da Apple disparavam. Apesar do alto custo da novidade — 499 dólares por um aparelho com 4 GB de memória —, Steve Jobs apostava que, com ela, a empresa poderia conquistar 1% do mercado global de smart­phones (o que renderia 1 bilhão de dólares). Felizmente para a companhia, ele não poderia estar mais errado: em 2017, 15% dos celulares vendidos na Terra eram da Apple.

Na ponta da Língua – As assistentes pessoais Sony Xperia Ear (acima), Google Home (abaixo) e Alexa, produzida pela Amazon (ao lado): mudanças na maneira como os usuários interagem com os aparelhos, ao consagrarem o comando de voz //Divulgação

Mas aquele aparelhinho mágico de 115 x 61 milímetros que Jobs exibiu com orgulho em 2007 não foi o único avanço da empresa que ele comandava rumo a um lugar de ponta. “Foi o lançamento da loja de aplicativos, em 2008, que fez o iPhone virar um canivete suíço tecnológico”, acredita Robert Atkinson, presidente da americana ­Information Technology and Innovation Foundation. É verdade. A App Store permitiu que desenvolvedores independentes criassem os próprios aplicativos, e teve 10 milhões de downloads já na semana em que surgiu. Nove anos mais tarde, em 2017, foram impressionantes 175 bilhões — e a projeção para 2021 é que salte para 353 bilhões de downloads, de acordo com os cálculos da consultoria americana App Annie. Também para 2021, ela prevê que esse mercado terá uma receita de 139 bilhões de dólares, mais do que o dobro da obtida em 2016.

O formidável êxito dos smartphones tem provocado uma queda brusca em outros segmentos da telefonia. Tome-se o caso dos telefones públicos, os chamados “orelhões”. Há hoje no Brasil 840 000 aparelhos desse tipo — em 2001 eram 1,3 milhão — e 30% deles não são utilizados nunca (para não falar que parecem sempre sujos, surdos, mudos). Enquanto isso, o telefone fixo vai despencando de sua antiga nobreza. Esquecido em algum canto da casa, quando existe, ele já não tem mais aquela mesinha especial — onde repousava soberano —, com direito a cadeira ao lado, para tornar mais confortáveis as longas conversas. “Uma linha custava tão caro que era declarada no imposto de renda, como um bem”, lembra Eduardo Tude, presidente da Teleco, empresa de consultoria. A cada doze meses, mais de 1 milhão de linhas de telefonia fixa são desligadas no mundo.

Continua após a publicidade

É preciso reconhecer, no entanto, que as linhas móveis já viveram épocas de maior exuberância. Em 1997, elas eram 4,6 milhões; chegaram a 284 milhões em 2015, porém começaram a cair a partir dali, capotando para 242 milhões no ano passado. Isso não significa que existam menos pessoas em posse de um celular — ainda há no Brasil mais chip do que gente. Tal queda, registrada nos últimos três anos, é atribuída à redução ou eliminação das tarifas de interconexão — aquele valor extra que se pagava para falar com clientes de outras operadoras. Assim, acabou a necessidade de ter vários chips, e portanto várias linhas, para economizar nas chamadas.

Se o número de linhas móveis está diminuindo, o de smartphones vendidos não para de crescer — principalmente entre usuários acima de 65 anos. A onipresença desses aparelhos vem mudando a forma como as pessoas se comunicam. Segundo a consultoria americana NPD Group, 52% dos que têm menos de 38 anos usam o celular para fazer chamadas gratuitas de vídeo, pelo WhatsApp — acionadíssimo também para ligações comuns e envio de mensagens de texto —, Skype e Hangouts. “Quando eu era criança, podia falar por dez minutos no telefone com os meus colegas. Hoje, minha filha de 11 anos faz videoconferência todos os dias com a melhor amiga, que está morando na Malásia”, diz Robert Atkinson, que vive com a filha nos Estados Unidos. Todas as grandes redes sociais também oferecem o recurso da transmissão ao vivo.

Por falar nelas, mais de 56% dos usuários do Facebook acessam a rede via celular. No Twitter, são 80%. De acordo com a empresa de segurança móvel americana MobileIron, 56% dos usuários acessam as redes e enviam mensagens pessoais durante o horário de trabalho. E o contrário também ocorre: 47% abrem seu e-mail profissional e 38% mandam mensagens a chefes e colegas no período de descanso. A chegada das assistentes pessoais — como Sony Xperia Ear; Google Home; Alexa, da Amazon; e Siri, da Apple — também está alterando o modo de interação com os aparelhos, consagrando, cada vez mais, o comando de voz.

Todas essas revoluções na comunicação têm um ponto em comum: o registro. “O ser humano é um animal social. Ele sempre teve a necessidade de se comunicar e de deixar isso registrado”, analisa Willian Rochadel, especialista em gestão do conhecimento da Universidade Federal de Santa Catarina. “Os aplicativos como Whats­App e mesmo as redes sociais permitem que você revisite conversas e reavalie o que foi falado ali”, observa Rochadel.

A era dos smartphones trouxe consigo uma preocupação: o risco da dependência. Uma pesquisa realizada pela Universidade da Coreia, em Seul, revelou que a nomofobia — esse é o termo empregado para se referir ao problema — pode ser caracterizada como vício. E por um motivo simples: o uso excessivo do celular produz alterações químicas no cérebro que levam a reações que, em muitos aspectos, se assemelham às que acometem os dependentes de drogas. Assim, a sugestão quanto ao smart­phone é incontornável: use com moderação. Você pode, por exemplo, dormir sem ele.

Publicado em VEJA de 18 de julho de 2018, edição nº 2591

Continua após a publicidade
Publicidade