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“É fantástico. É incrível”

Equipe internacional localiza, com vida e boa saúde, meninos perdidos em caverna. O maior desafio será tirá-los de lá antes que as águas voltem a subir

Quando o mergulhador inglês John Volanthen emergiu das águas lamacentas dentro de uma caverna e avistou os vultos de alguns garotos, pediu, em inglês, para que eles levantassem as mãos. Na escuridão, um deles, chorando, disse: “Thank you”. Aos poucos, outras sombras mirradas se aproximaram, iluminadas pela lanterna. Volanthen perguntou: “Quantos vocês são?”. Ao ouvir a resposta, disse, empolgado: “Treze? Brilhante!”. Todos os desaparecidos havia nove dias estavam, portanto, vivos e sãos. A cena foi gravada com uma câmera de capacete na segunda 2 de julho e colocada em seguida no Facebook pela Marinha da Tailândia. Em dois dias, o vídeo teve 22 milhões de visualizações. Parentes dos meninos comemoraram do lado de fora. “É fantástico. É incrível”, extasiou-se o voluntário belga Ben Reymenants, proprietário de uma escola de mergulho em Phuket, uma praia paradisíaca da Tailândia.

A mobilização para salvar os garotos reuniu 1 000 pessoas de todo o mundo. Os chineses enviaram seis socorristas com um robô aquático. Os Estados Unidos mandaram especialistas em resgate da Força Aérea, que ficam sediados numa base na ilha japonesa de Okinawa. Austrália, Mianmar e Laos também enviaram equipes para se juntar aos fuzileiros tailandeses. Horas depois do encontro inicial, os meninos foram assistidos por sete mergulhadores, incluindo um médico e uma enfermeira. Os garotos tiveram feridas curadas, receberam mantas térmicas e foram alimentados com gel de carboidrato.

Uma operação internacional assim, montada em tão pouco tempo, só pode acontecer em um mundo interconectado. A história de que os garotos tinham ficado presos com a elevação dos cursos de água por causa da chuva (leia o quadro na página seguinte) despertou empatia mundial. É o que a psicologia chama de “efeito da vítima identificável”. Os seres humanos são muito mais propensos a ficar sensibilizados quando conhecem o rosto e o nome de alguém que precisa de ajuda. No caso, os doze garotos, com idade entre 11 e 16 anos, que tinham ido treinar futebol. Todos eram membros do mesmo time, o Javali Selvagem. O técnico deles, de 25 anos, tinha o costume de levá-los para alguns passeios. Os treze estacionaram suas bicicletas à porta do complexo de cavernas e entraram. A notícia de que não conseguiram sair correu o planeta quando o mundo já assistia à Copa da Rússia. Ao serem encontrados, nove dias depois, os garotos vestiam camisas de uniforme vermelhas e azuis.

O encontro com os meninos não é o fim da história. Agora, é preciso tirá-los da caverna, onde estão ilhados pelas águas. A primeira opção é aguardar até outubro, quando acaba a temporada de monções e as águas baixam. Eles já receberam alimentos para aguentar por quatro meses. “Se as demais necessidades forem atendidas, o único problema que eles terão ao final será psicológico, por causa do confinamento prolongado”, diz o espeleólogo Marcelo Rasteiro, da Sociedade Brasileira de Espeleologia. A segunda é ensiná-los a mergulhar para que possam sair nadando e submergir nos trechos de águas subterrâneas. Essa opção traz inúmeros riscos. A água é turva, sem visibilidade alguma. Em vários pontos, seria impossível subir para a superfície em caso de pânico. “Decididamente, não é uma ideia atraente treinar pessoas que nunca fizeram um mergulho para que saiam de um lugar inundado, com diversos espaços estreitos”, diz o geólogo americano Andy Armstrong, membro da Comissão Nacional de Resgate em Cavernas, nos Estados Unidos. Uma terceira alternativa seria retirá-los por alguma fenda, por cima. Os garotos relataram ter ouvido latidos de cães e galos cantando, mas nenhuma abertura foi encontrada. A questão é que a pior alternativa pode se tornar a única. “Os socorristas precisam trabalhar rápido porque uma tempestade deve chegar na sexta 6. Se começar a chover, a caverna ficará toda inundada”, disse Ruengrit Changkwanyuen, coordenador dos mergulhadores, ao jornal The Guardian. “Se isso acontecer, ficará quase impossível mandar suprimentos ou manter contato com eles.”

Com reportagem de Thais Navarro

 

Publicado em VEJA de 11 de julho de 2018, edição nº 2590