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Dizer “não” é fácil

Danuza Leão diz que não sabia o que era assédio quando escreveu um texto sobre o tema. Mas sustenta que a mulher quase sempre pode controlar essas situações

As atrizes que foram de preto à cerimônia de premiação do Globo de Ouro para protestar contra o assédio sexual em Hollywood não conquistaram a simpatia de Danuza Leão. “Aquilo era coisa de americano. Americano não entende nada de sexo”, diz a jornalista, escritora e ex-modelo brasileira. Em sua coluna no jornal O Globo, Danuza fez um perigoso elogio ao assédio, que naturalmente suscitou críticas inflamadas: “Toda mulher deveria ser assediada pelo menos três vezes por semana para ser feliz”. Em entrevista a VEJA — a primeira em que comenta a repercussão de seu artigo —, ela admite que, quando escreveu isso, não tinha noção muito precisa do que constituía assédio sexual. Mas não recua de opiniões que são talvez mais radicais do que aquelas promovidas pelas intelectuais francesas que, em manifesto no jornal Le Monde, afirmaram que importunar e assediar uma mulher são coisas diferentes. “As mulheres não são umas pobres coitadas, não são débeis mentais, não são tontas, burras e fracas. São perfeitamente capazes de dizer ‘não’ quando um homem chega assediando”, dispara Danuza. Aos 84 anos, com dez livros publicados, e depois de três casamentos — teve três filhos (um deles já falecido) com o jornalista Samuel Wainer, e hoje conta com sete netos e cinco bisnetos —, Danuza Leão se permite opiniões que muitos terão como sexistas, antiquadas ou reacionárias, mas que são destemidamente próprias. A seguir, sua entrevista.

A senhora começou sua coluna sobre o movimento das atrizes americanas no Globo de Ouro dizendo que não sabia o que era assédio. Descobriu o que é? Soube que eu estava errada depois que escrevi. Pensava que assédio fosse apenas uma insistência — por exemplo, quando alguém quer vender algo que você não quer e persiste até conseguir a venda. Não é isso. Assédio é crime. Tanto no plano sexual quanto em qualquer outro.

Por que escrever sobre assédio se a senhora não sabia do que se tratava? Me ligaram e pediram para eu falar sobre o que estava acontecendo na premiação do Globo de Ouro. Vi que aquilo estava parecendo um velório. Eu achava que todas aquelas mulheres de preto voltariam sozinhas para casa, que não haveria um homem para paquerá-las. Mas uma coisa engraçada é que na minha primeira coluna para a revista do jornal O Globo, em 10 de dezembro, eu falava sobre a mesma coisa. Parecia que eu estava sentindo cheiro de alguma coisa no ar.

A senhora já sofreu assédio? Não. Estou com 84 anos e já rodei por este mundo. Frequentei todas as festas, trabalhei em discotecas. Nunca sofri um assédio, nunca estive perto de um estupro, porque, quando eu sinto que a coisa pode virar, eu já me coloco.

Como assim “se coloca”? Quantas vezes na minha vida — inúmeras! — um homem me convidou para ir à casa dele tomar um drinque ou ouvir um disco. Eu sei o que ele está querendo. Se eu também quero, vou. Caso contrário, é simples: digo não. Se estiver indecisa e não souber o que fazer, igualmente eu digo não. Não corro riscos. A sexualidade masculina é violenta e forte, completamente diferente da feminina. Então, se você bobear com um homem, será levada a situações desagradáveis.

Mas nem sempre basta dizer não, certo? Não estou generalizando. Existe o estupro. Quando uma mulher passa por uma rua escura e três homens a agarram, não tem escapatória. Agora, quando uma moça vai para a casa de um rapaz, é outra situação. Dizem que a mulher pode subir para o quarto, estar nua em cima da cama, mas, se disser não, é não. Não é assim. O que estão fazendo agora dá a entender que a mulher é uma babaca, idiota, que não sabe de nada. Mas mulher sabe das coisas: ela precisa agir para que certas coisas não aconteçam.

Um manifesto de intelectuais francesas, com a adesão da atriz Catherine Deneuve, diz que não podemos confundir uma paquera desajeitada com assédio sexual. Quais seriam os limites entre paquera e assédio? Esse campo de mulher, homem, sexo, sentimento, paquera e assédio é uma coisa muito sutil. É muito difícil você colocar regras e leis fixas para isso. Não dá para ser o Corão. Às vezes, uma palavra dita por uma pessoa de uma maneira e dita por outra pessoa em outro tom vira uma coisa totalmente diferente. Por exemplo, tenho um amigo que dizia sempre a mesma coisa às mulheres por quem se interessava: “Eu ainda vou me casar com você”. A mulher ria e a coisa ia fluindo. Ou podia não ir para a frente. Agora, se ele dissesse isso em um tom agressivo, era só a mulher falar: “Você está louco”. E virar as costas e ir embora. Não precisa ter uma inteligência rara para fazer isso. Dizer “não” é simples.

A senhora afirmou que a “moda de denúncia contra o assédio” ainda não havia chegado ao Brasil. Estava esquecendo dos episódios em transportes públicos e do caso do ator José Mayer? Se o homem se masturba dentro do ônibus, do metrô, nas costas de uma mulher, ele precisa ir para um hospital psiquiátrico. Não é assédio, é doença mental. Agora, a história do José Mayer: segundo eu li nos jornais, a mulher e ele tinham um caso fazia oito meses. Com oito meses a mulher já não podia ter acabado com isso? Pelo amor de Deus! Eu não sei se eles eram amantes porque não conhecia nenhum dos dois, mas levar oito meses com um homem atrás de você e só depois denunciar?

A senhora acredita mesmo que mulheres gostam de passar em frente a prédios em construção para ouvir cantadas de operário? Essa de mulher ter de passar na frente da obra para ser paquerada era uma brincadeira que todo mundo fazia antigamente. A mulher falava: “Ah, eu estou me sentindo péssima, gorda, feia. Meu cabelo está ruim”. A outra pessoa virava e respondia: “Passa na frente de uma obra na hora do almoço que seu moral vai ficar lá em cima de tanto assobio que você vai ouvir”. Era só uma brincadeira que a gente fazia. Nunca ninguém passou nem quis passar na frente da obra para isso.

Afinal, pode ou não pode assobiar para uma mulher na rua? Que história é essa de não poder assobiar para mulher? Para o Rio de Janeiro voltar a ser mais alegre, mais divertido, vamos fazer o seguinte: coloque as mulheres depois da praia em um botequim, tomando chope. Quando passar um homem bacana de sunguinha, elas todas baterão palmas. Quero ver se eles não vão gostar. Homem e mulher são completamente diferentes, mas, por outro lado, são completamente iguais, e com todos os seus direitos iguais.

A acadêmica Heloísa Buarque de Hollanda disse que as mulheres que gostam do “fiu-fiu” são “pessoas com o ponto de vista do privilégio, que têm carro blindado, guarda-costas, não conhecem a realidade barra-pesada da maioria das mulheres”. A senhora se encaixa nessa descrição? Ah, é? Vai no Carnaval ou na Central do Brasil, senta por ali, espera uma bonitinha descer do trem do subúrbio e faz um “fiu-fiu”. Vamos ver se ela não vai gostar. É claro que vai, quem não gosta? Ela vai sair de lá se achando e se sentindo maravilhosa. Agora, tem essa história de carro blindado e não blindado, de ricos e pobres. Ficam fazendo distinção de classe. Estamos falando de mulher, de sexo feminino. Se ela é pobre ou rica, isso é outro assunto.

A senhora acredita que a relação entre os sexos já foi mais simples? Houve um tempo em que os homens tinham mais ou menos a obrigação de cantar as mulheres. Eles não podiam ficar de amizade. Era como se isso fizesse parte da masculinidade. Eu já fui promoter de casa noturna, com as pessoas bebendo. Você pode imaginar quanto de paquera já passou pela minha frente. E não tem nada mais simples no mundo do que você dizer não. É só dizer não. É ótimo um homem paquerar a gente, porque a gente se sente linda, maravilhosa, poderosa. Sem a paquera, não há nada, ficam os homens conversando de política e as mulheres, sobre dieta do outro lado. A economia mundial acabaria se não houvesse essa insistência dos homens. Por que uma mulher vai ao cabeleireiro? Por que ela faz ginástica? Para quem ela compra um biquíni? Para os homens. Se não tiver paquera, elas não precisam de mais nada disso.

Há quem diga que as mulheres se arrumam para as outras mulheres. Eu vou fingir que acreditei nisso. Faz o seguinte, coloca uma burca e pronto, sem problemas. Sem paquera, não tem transa. Sem transa, não tem filhos. Sem filhos, diminui a população. Eu acho que um mundo onde todas as pessoas paqueram é muito mais agradável. As pessoas são mais sorridentes, estão dando mais de si, mostrando o seu lado mais gentil, estão tentando seduzir umas às outras. A sedução não pode acabar no mundo, porque é uma coisa maravilhosa. Quando vejo uma criança ou um cachorro na rua, eu quero seduzi-los. “Vem cá no meu colo”, eu falo. Quando eu agrado uma criança para ela ficar minha amiga, é sedução. Tem de ter sedução no mundo. Esse mundo que estão querendo vai ficar muito chato.

A senhora antecipou a repercussão do seu artigo? Claro que não. Eu escrevo o que quero, e algumas coisas dão um escândalo do qual me foge o motivo. Teve um texto que eu escrevi sobre viagens. Disse que não tem nada melhor na vida do que ir para um lugar exclusivo e voltar dizendo que você foi aonde ninguém mais foi — e que hoje em dia ir para Nova York não é tão legal porque até o porteiro do seu prédio você encontra lá. Ou seja, eu estava dizendo que todo mundo já foi a Nova York. Era nesse ponto, mas realmente eu devo ter redigido mal, e deu a maior confusão. Eu deveria ter escrito que tinha encontrado minha colega da ginástica em Nova York. Seria a mesma coisa, teria o mesmo sentido. Mas, por um acaso, eu acabei colocando o porteiro do prédio e me ferrei. O problema é essa luta de classes.

Dois netos seus publicaram em suas redes sociais a seguinte frase: “Minha avó está maluca”. O que achou disso? Achei que a mãe deles educou ambos muito mal. Isso é uma grande falta de educação. Depois disso, eu não tive contato com eles, nem pretendo ter tão cedo. Vou ter contato com os outros netos, que me acham o máximo. Com esses dois, nenhum. Eles estão fazendo marketing com a turma deles, e é um direito que eles têm. O que eu acho engraçado é que eles têm o direito de fazer isso, mas não me dão o direito de achar o que eu acho ou de escrever o que eu quero. Não tenho o direito de escrever que mulher gosta de fiu-fiu? Posso sim, posso dizer o que eu quiser. Ou nós voltamos para a ditadura?

Publicado em VEJA de 24 de janeiro de 2018, edição nº 2566