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Diagnóstico precoce

Um teste coordenado por pesquisadores americanos, ainda em fase de estudo, permitirá a identificação do câncer por meio de simples exames de sangue

A precocidade na identificação de um câncer, qualquer tipo de câncer, é uma ferramenta decisiva para o tratamento da doença. “O tempo decorrido desde a proliferação das células cancerígenas é fundamental”, resume o oncologista brasileiro Marcelo Cruz, da Universidade Northwestern, em Chicago, centro de reputação internacional em diagnósticos. Na semana passada, a ciência deu um extraordinário passo nessa direção. Pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, desenvolveram uma técnica que poderá detectar tumores malignos cerca de um ano antes dos métodos convencionais, por meio de exames de imagem. Ainda em fase experimental, mas com resultados promissores, o novo teste funciona como um exame de sangue comum que consegue identificar minúsculos fragmentos de DNA de um tumor circulando na corrente sanguínea. Os resultados do estudo, publicados na revista Science, foram recebidos com grande entusiasmo pela comunidade científica.

Atualmente, os exames de imagem, como a mamografia, a ressonância magnética e a tomografia, rastreiam tumores com 1 centímetro, ou um pouco mais que isso, e que já contêm milhões de células cancerígenas. O CancerSeek (algo como “buscador de câncer”, em inglês), também chamado “biópsia líquida”, identificou diversas modalidades de câncer com medidas microscópicas e de maneira muito precisa. O exame sanguíneo foi avaliado em 1 005 pacientes e para oito tipos de tumor de elevada incidência: ovário, fígado, estômago, pâncreas, esôfago, intestino, pulmão e mama. Com pequenas amostras de sangue, chegou-se à acurácia média de 70%, índice extremamente alto. Ou seja, em cada dez casos de câncer, o exame identificou sete — e com rapidez até então inimaginável.

 (//VEJA)

O pulo do gato do CancerSeek foi localizar fragmentos ínfimos do DNA alterado no sangue. O câncer é uma doença complexa e multifatorial, causada por alterações genéticas que controlam a forma como as células funcionam, especialmente como crescem e se dividem. Ao se multiplicarem de maneira anormal e desordenada, as células tumorais liberam na circulação sanguínea pequenos fragmentos de DNA “carimbados” pela doença. Esses pedaços de material genético foram localizados graças a marcadores criados pelos cientistas americanos: dezesseis tipos de gene alterados e oito proteínas associadas aos tumores.

O impacto nos tratamentos oncológicos deverá ser imenso. Não apenas pela precocidade no diagnóstico, mas também pela simplicidade do exame. Um dos grandes obstáculos na detecção da doença em fase inicial é muitas vezes o incômodo do próprio paciente, que reluta em se submeter a exames invasivos, quase sempre demorados. Tome-se como exemplo o que ocorre com o câncer de ovário, um dos mais comuns entre as mulheres — são 6 150 novos casos por ano no Brasil, com 3 200 mortes. Sua alta letalidade se deve sobretudo ao diagnóstico tardio, já que a maioria das pacientes só procura o médico quando a doença apresenta sintomas, como dores pélvicas e problemas gastrointestinais — o que ocorre quando o tumor já se alastrou para outros órgãos. Se diagnosticado precocemente, em estágio inicial, a taxa de cura chega a 94% dos casos. Na prática, isso significa que nove em cada dez pacientes estarão vivas cinco anos depois do diagnóstico. No entanto, hoje apenas cerca de 20% desse tipo de câncer é descoberto no início.

A estratégia de estudar o câncer pelo sangue não é exatamente inédita. Desde o início dos anos 2000, o método da biópsia líquida é pesquisado por universidades, médicos e pela indústria farmacêutica dos Estados Unidos e da Europa. No cotidiano de consultórios, hospitais e laboratórios de análises clínicas, o exame de sangue é usado para identificar se o câncer voltou em um paciente já previamente tratado, e também para entender com minúcia as características de um determinado câncer já identificado e, então, indicar o tratamento adequado. Nesse caso, buscam-se mutações específicas e a prescrição de remédios que vão direto ao alvo. A novidade, agora, é um exame de sangue que detecta um câncer antes indetectável.

O câncer de próstata, por exemplo, pode ser rastreado com exame de sangue, mas o método é totalmente diferente. O PSA identificado na análise sanguínea para esse tipo de doença não é o tumor, mas uma proteína liberada pelas células da próstata. Ou seja, o PSA pode estar associado tanto à doença quanto à célula saudável. Como se sabe, portanto, se há malignidade? As células do câncer produzem uma quantidade de PSA maior do que o normal. Por isso, a sensibilidade do método é questionada: há muitos falso-positivos e falso-negativos.

Até o fim de 2023, o CancerSeek deverá ter passado para a segunda fase de estudos, a etapa da pesquisa clínica que avalia a eficácia em um número grande de pessoas. Ao longo de cinco anos, 10 000 voluntários serão acompanhados. Segundo estimativa dos cientistas, não será um exame particularmente caro. Hoje, ele não custaria mais que 500 dólares, o equivalente a 1 600 reais. Em dez anos, data em que deverá ser lançado, certamente custará menos.

Publicado em VEJA de 31 de janeiro de 2018, edição nº 2567