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Decadência sem elegância

O filósofo francês Michel Onfray faz sucesso com uma ideia incômoda: a de que a civilização judaico-cristã, esta na qual vivemos, tem seus dias contados

Estereótipos são sempre preconceituosos, imprecisos e reducionistas — enganam e, ardilosamente, colam-se à imagem de uma pessoa, de um lugar, de um momento. Há o galanteador italiano, embora evidentemente nem todos o sejam. O argentino arrogante. O lorde inglês. O brasileiro esperto. Ah, e o intelectual francês, essa figura típica que, apesar dos clichês, ajuda a desenhar a cara de seu país. Trata-se de ideia preconcebida, mas decisiva e celebrada na construção de uma cultura afeita ao esporte de pensar. Há linhas de todo tipo, para todos os gostos: de esquerda, de direita, estruturalista, existencialista, construcionista, desconstrucionista — a variedade de igrejinhas é imensa. Os mais celebrados intelectuais são tratados como estrelas do horário nobre, e não têm medo de se comportar como pop stars numa sociedade que transforma debates de literatura em programas de auditório — embora, sejamos honestos, já se ponha até Neymar na primeira página de um jornal vetusto como o Le Monde.

Na França, a busca por um intelectual que sirva de consciência da nação é incessante. O nome incontornável, hoje, é Michel Onfray (lê-se Onfré), de 58 anos. Aos 28, ele infartou e, no leito de recuperação, escreveu o primeiro de seus mais de oitenta livros. O Ventre dos Filósofos — A Crítica da Razão Dietética é um divertido passeio pela cabeça de grandes pensadores a partir do que levaram à boca. Ficou famoso e não parou mais (é figura carimbada nas TVs, nas rádios, no YouTube, no Instagram, no Twitter etc.). Autointitula-se hedonista, materialista e ateísta. É um tantinho de esquerda, portanto não é marxista clássico. Seu mais recente petardo — tem 650 páginas, do tamanho de sua ambição —, o segundo volume de uma trilogia chamada de “breve enciclopédia do mundo”, é Décadence (Decadência), com mais de 120 000 exemplares vendidos na França (leia resenha). A tese central é simples: a civilização judaico-cristã, esta na qual vivemos, está perto do fim, vai acabar como acabaram outras civilizações transformadas em escombros de cartões-­postais, como o Coliseu do Império Romano.

E vai terminar, segundo Onfray, porque foi erguida sobre areia movediça. Nas palavras do pensador: “A civilização judaico-cristã se constrói sobre uma ficção: a de um Jesus que não terá jamais tido outra existência senão alegórica, metafórica, simbólica, mitológica. Não existe desse personagem nenhuma prova tangível no seu tempo: com efeito, não se conhece nenhum retrato físico dele, nem na história da arte que lhe seria contemporânea, nem nos textos dos Evangelhos, nos quais não se encontra descrição alguma do personagem. (…) Essa ausência de corpo físico real parece prejudicar um exercício racional conduzido de forma correta. No entanto, é com base nesse puro delírio que se construirá o pensamento ocidental judaico-cristão”. Onfray vai ainda um pouco mais longe: “Uma civilização não produz uma religião, é a religião que produz a civilização”.

A desconstrução da “fábula” de Jesus levou Onfray a virar tema quente nas mesas dos bistrôs — “como assim, Jesus nunca existiu?” —, e nesse bate-­boca ele se diverte, sempre muito à vontade com as provocações. Não bastasse essa conclusão explosiva, a do fim de nossa civilização, a da decadência sem elegância, com um lobão à espreita, ele ainda nomeou o grupo político, ideológico e religioso que muito provavelmente sucederá ao atual: o Islã. Os muçulmanos serão os vencedores porque, escreve Onfray, “as bombas atômicas do Ocidente nada podem contra um jovem jihadista decidido a morrer”. É tese incômoda, e por isso mesmo contagiosa, que pôs Onfray como o mestre de um movimento que, agora neste ano, pela primeira vez entrou no dicionário Larousse na forma de substantivo até então inexistente: o declinismo, ou déclinisme, em francês, termo pejorativo que designa uma corrente de ideias para a qual a França está em declínio inexorável. O declinismo é o sentimento da moda na França, e Onfray o seu mentor. Instado a comentar seu campo de raciocínio, evitando ser líder de qualquer coisa, ele se defende: “Décadence não é otimista nem pessimista — mas trágico porque, agora, não se trata de rir ou chorar, mas de compreender.

Publicado em VEJA de 23 de agosto de 2017, edição nº 2544

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Comentários

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  1. Adelson Paulo de Araujo

    O Islã já percebeu isto claramente, e está travando uma nova ofensiva, em todas as frentes, para aumentar seu poder e influência no coração da Europa. Para isso, conta com a fraqueza moral e intelectual dos atuais dirigentes políticos do Ocidente, prisioneiros do politicamente correto e incapazes, como o “filósofo”, de entender o que significa o cristianismo.

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