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De cúmplices a rivais

Na corrida pela delação, Eduardo Cunha está atrás do doleiro Lúcio Funaro, seu antigo parceiro de negociatas

O ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e o doleiro Lúcio Funaro mantinham uma notória relação de simbiose. A missão de Cunha, o chefe, era galgar degraus na hierarquia do poder, ganhar prestígio e conquistar o direito de indicar afilhados para cargos na administração. Funaro, seu operador, era encarregado de azeitar a engrenagem de cobrança de propina de empresários interessados em recursos públicos. Durante quase duas décadas, a parceria foi um sucesso. Cunha e Funaro embolsaram dinheiro sujo desviado de fontes diversas, da Caixa Econômica Federal à Petrobras. Foi assim até a Operação Lava-Jato. Presos desde o ano passado, chefe e operador se distanciaram e, agora, duelam pelo direito de fechar um acordo de delação. Nas negociações com a Procuradoria-Geral da República (PGR), os dois prometem coisas parecidas, como acusar o presidente Michel Temer de comandar a coleta de propina feita por peemedebistas. Até por isso, os procuradores trabalham com a perspectiva de selar acordo com apenas um deles, e não com os dois.

Nessa corrida, o doleiro encontra­-se em vantagem. “Funaro já está com a cabeça de delator, enquanto Cunha apresentou temas interessantes, mas insuficientes para o avanço das investigações”, afirma um integrante da Lava-Jato. Antes de ser preso, Funaro dizia que ele e Cunha eram capazes de derrubar Temer “em cinco minutos”. Funaro trabalhou para a JBS, cujos donos declararam ter repassado milhões de reais em propina a próceres do PMDB — entre eles, pessoas da confiança de Temer. Ele também é considerado peça-chave na investigação que tenta descobrir a identidade dos beneficiários finais dos 10 milhões de reais dados pela Odebrecht a peemedebistas a pedido do presidente da República. Na última semana, ao deixar uma audiência, o doleiro fez pressão pelo fechamento da delação ao afirmar que ainda tem o que entregar sobre Temer.

Em entrevista a VEJA, em março de 2017, Funaro declarou ter se reunido pessoalmente com o presidente, que nega conhecê-lo. Com a delação, essa história poderá ser esclarecida. Funaro demonstra disposição para fulminar ainda figurões do PMDB como o ex­-ministro Geddel Vieira Lima e o ministro Moreira Franco. Na semana passada, Geddel, que chefiava a Secretaria de Governo de Temer, foi denunciado pela PGR por tentar impedir a delação do doleiro. Diante do avanço das tratativas com Funaro, investigadores resolveram emparedar Cunha, declarando suspensa a negociação de seu acordo. Para recuperar terreno, ele apresentou novos capítulos sobre esquemas de corrupção e ofereceu-se para se reunir com os procuradores e relatar de viva voz as revelações que pretende fazer. O que o prejudica é sua fama de mentiroso contumaz.

Nos últimos anos, Cunha atuou como arrecadador informal do PMDB. Disse ter obtido doações da Odebrecht para a campanha de Gabriel Chalita à prefeitura de São Paulo e a de Henrique Alves, hoje preso, ao governo do Rio Grande do Norte. Ambas tinham como padrinho o presidente Temer. Cunha e Funaro correm contra o tempo. Rodrigo Janot não quer encerrar seu mandato na PGR, em setembro, sem antes denunciar Temer por obstrução de Justiça e organização criminosa.

Publicado em VEJA de 23 de agosto de 2017, edição nº 2544