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Carta ao Leitor: Um apelo à razão

É espantoso constatar que, em um cenário de pandemia, com o novo coronavírus ceifando milhares de vidas, ainda seja preciso sair em defesa da ciência

Por Da Redação - Atualizado em 27 mar 2020, 12h17 - Publicado em 27 mar 2020, 06h00

Há apenas seis meses, falando a VEJA para uma reportagem de capa sobre o que a revista chamou de “Nova Idade das Trevas” — a onda de obscurantismo que assombrava o planeta —, o filósofo e historiador israelense Yuval Noah Harari foi assertivo: “A ciência está sob ataque”. Entre os motivos que detectava para tal fenômeno, ele destacou o menosprezo às enormes conquistas científicas, responsáveis pelo próprio fato de milhões de pessoas estarem vivas hoje, e a ascensão de líderes populistas, que veem a ciência como ameaça “porque ela expõe verdades que vão contra seus comandos”. Por isso, sublinhou, “devemos rejeitar com todas as nossas forças” que posturas políticas, e preconceitos de ordem religiosa, se sobreponham à razão, que norteia o conhecimento científico.

Assim, é espantoso constatar que, em um cenário de pandemia, com o novo coronavírus assolando o globo e ceifando milhares de vidas — de brasileiros, inclusive —, ainda seja preciso sair em defesa da ciência. Mas essa necessidade existe, e é urgente. Sobretudo diante de posturas como a do presidente Jair Bolsonaro, que na terça-feira 24 se dirigiu à nação com mais uma coleção de leviandades a respeito da doença, criticando o fechamento de escolas e do comércio devido à propagação da Covid-19 e acusando a imprensa de espalhar o pânico.

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Ora, o distanciamento social, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, é exatamente uma das principais armas de que se dispõe neste momento para tentar evitar que o surto siga sua avassaladora trajetória. Só essa providência, além de “testes, testes e testes”, como frisou o diretor-geral da entidade, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus, é capaz de oferecer alguma segurança a populações inteiras, enquanto não se chega a uma vacina ou à prova irrefutável de que certos medicamentos, como a cloroquina, possam derrotar a Covid-19 (tema da reportagem que começa na página 66). Foi precisamente a esses expedientes que recorreram países como a China — onde se registrou o primeiro caso de infecção, já controlada — e a Alemanha, que manteve índices de letalidade muito inferiores aos de outras nações, como Itália, Espanha e Estados Unidos. Expedientes, ressalte-se, de natureza científica.

Por menor que seja ainda o tempo de duração da pandemia, suas consequências já se fazem notar em todos os campos, da política à cultura, da economia ao comportamento, como evidencia um conjunto de reportagens da presente edição. Não é hora para politicagem, jogo de palavras, mentiras ou confrontos com inimigos imaginários. Afinal de contas, o desafio que se coloca é gigantesco, talvez o maior das últimas décadas. O Brasil precisa encontrar soluções rápidas para que as pessoas não percam a vida nem o emprego. Para chegar lá, será necessária neste grave momento uma poderosa combinação de ciência, equilíbrio, liderança, união e agilidade. Só assim reduziremos os prejuízos sociais e econômicos trazidos pelo coronavírus.

Publicado em VEJA de 1 de abril de 2020, edição nº 2680

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