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Carta ao Leitor: Biografia de cifrões

A foto dos 51 milhões de reais de Geddel permanecerá firme no imaginário nacional sobre os deslimites da corrupção.

Por Da Redação - 15 set 2017, 06h00

A crônica dos escândalos nacionais habituou o brasileiro à imagem de dinheiro vivo em mochilas, cuecas, calcinhas, malas — mas nada preparou o país para a fotografia dos 51 milhões de reais, guardados em um apartamento-cofre, que levaram o ex-ministro Geddel Vieira Lima de volta à prisão. É possível que, amanhã ou depois, apareça uma imagem ainda mais superlativa para ilustrar os desvãos da roubalheira, mas, até que isso aconteça, a foto dos 51 milhões de reais de Geddel permanecerá firme no imaginário nacional sobre os deslimites da corrupção.

Desde o primeiro instante em que a Polícia Federal divulgou a dinheirama, VEJA interessou-se por conhecer a biografia daqueles cifrões. De início, diante de tanto dinheiro, duas conclusões quase unânimes se produziram: aquilo não poderia ser obra de um único ladrão, muito menos saldo de roubo recente. Com certeza, haveria dezenas de envolvidos em crimes diversos e a dinheirama toda seria produto de alguns anos de militância criminal.

VEJA destacou o repórter Ullisses Campbell para seguir o rastro do dinheiro em Salvador. Seu trabalho constatou que nenhuma das duas conclusões, que pareciam tão óbvias, corresponde inteiramente à realidade: tudo indica que o dinheiro todo era mesmo coisa de Geddel e asseclas, e não de quadrilhas diferentes, e a polícia estima que a soma tenha sido acumulada ao longo de apenas um ano. Só não se sabe, ainda, se o dinheiro vinha sendo roubado havia um ano ou se estava apenas sendo transferido para o apartamento em Salvador nos últimos doze meses.

A apuração de Campbell mostra que, como suspeita a polícia, o apartamento fazia as vezes de um “banco clandestino”. O repórter entrevistou quinze pessoas — entre vizinhos, entregadores e policiais — para reconstituir parte da história. Conta ele: “Diversos moradores do prédio estavam assustados com o risco que acreditavam haver corrido por terem dormido ao lado daquela fortuna”. Agora, estão aliviados. O prédio, aliás, virou ponto de selfies entre os moradores da vizinhança.

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Publicado em VEJA de 20 de setembro de 2017, edição nº 2548

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