Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Carta ao Leitor: A nova hegemonia

A julgar pela mais recente pesquisa VEJA/FSB, o ex-presidente Lula é única ameaça à supremacia da direita nas eleições presidenciais de 2022

Durante o período pós-ditadura militar, entre os anos 1980 e 2010, declarar-se de direita no Brasil era um ato de coragem. As manchas deixadas pelo governo militar na história nacional, que incluíam graves episódios de tortura e bagunça econômica, inibiam e desestimulavam o crescimento de uma faixa de eleitores mais afinados com essa orientação ideológica. Confessar-se de direita era praticamente sinônimo de adesão ao autoritarismo dos tempos do general Emílio Médici, algo inaceitável por diferentes aspectos. Entre os políticos mais jovens, uma das raríssimas exceções era o ex-presidente da Câmara Luís Eduardo Magalhães (1955-1998), filho do ex-senador baiano Antonio Carlos, o ACM. Quando questionado sobre seu posicionamento, ele repetia: “Sou de direita — e não vejo problema nenhum nisso”. Mas sua postura defensiva dá uma medida de como tal opção era (mal)vista por vários de seus pares e pela maioria do eleitorado.

De lá para cá, o pêndulo da política se movimentou drasticamente. A esquerda chegou ao poder, saiu de lá pelo colapso administrativo e ético que causou ao país, e o Brasil viu sair do armário uma nova direita, com forte orientação conservadora e defensora de uma pauta retrógrada nos costumes. No ano passado, um representante dessa corrente venceu as eleições: o até então deputado do baixo clero Jair Bolsonaro consagrou-se presidente da República, com mais de 57 milhões de votos. É importante ressaltar que sua candidatura foi bem-sucedida porque soube atrair também eleitores que apoiam uma economia aberta, favoráveis à livre-iniciativa, mas que não compartilham de todas as ideias da esfera bolsonarista. Muitos votaram no ex-capitão porque o mal maior — na visão desse grupo, o PT — não poderia voltar ao poder.

Nesta edição, em parceria com o instituto FSB, VEJA publica mais uma rodada da pesquisa com cenários eleitorais para 2022. Embora ainda faltem três anos para as eleições, não é exagero dizer que o jogo já começou. O presidente, por exemplo, açodadamente admitiu a intenção de reeleger-se e faz campanha (nas redes e no cargo) quase todos os dias. Nomes como o apresentador Luciano Huck e o governador de São Paulo, João Doria, não assumem abertamente, mas se movimentam com um olho no agora e o outro no próximo pleito presidencial. Mesmo o ministro Sergio Moro, que, em entrevista a VEJA, negou qualquer pretensão à cadeira de Bolsonaro, sabe que não pode desprezar essa opção diante dos seus índices de popularidade.

Talvez seja cedo, mas, a julgar pelos dados do levantamento, a disputa em 2022 provavelmente se dará entre os representantes do lado direito do espectro ideológico. Todos os nomes com os mais altos porcentuais seguem, em maior ou menor grau, essa orientação. Em paralelo, os nomes posicionados à esquerda não conseguem bom desempenho. A única exceção é o ex-presidente Lula, preso em Curitiba. Num confronto com Bolsonaro no segundo turno, Lula alcançaria 38% dos votos, em comparação com 46% do atual ocupante do Palácio do Planalto — resultado nada desprezível para um condenado em duas instâncias por corrupção e sem contato com as ruas. Como há uma possibilidade real de que ele saia da prisão nos próximos meses, e até mesmo tenha sua situação eleitoral regularizada, a depender dos julgamentos do STF, a sombra do líder petista paira hoje como a única ameaça à atual supremacia da direita no país. O fator Lula e o impacto de sua possível libertação no cenário político é justamente o tema da reportagem desta edição.

Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2019, edição nº 2657