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Cada vez menor

Crise prolongada, real desvalorizado, efeitos colaterais da Lava-Jato e burocracia histórica abatem o mercado de luxo, que em dois anos perdeu R$ 6 bilhões

Inaugurada 23 anos atrás no endereço mais chique do Brasil, a Rua Oscar Freire, em São Paulo, a loja da grife Montblanc fechou as portas há pouco menos de um mês. A marca alemã de canetas, joias e acessórios era a última internacional de luxo ainda sobrevivente naquela ilha paulistana. Antes dela, deram adeus Louis Vuitton, Dior, Cartier, Armani, Zegna, Diesel e Lacoste. A falta de segurança foi a razão alegada para a debandada — muitas empresas mantiveram suas atividades exclusivamente dentro de shoppings. Mas não é bem assim.

No mês passado, a francesa Chanel encerrou as atividades no Shopping Cidade Jardim, também em São Paulo, onde tinha uma loja de 330 metros quadrados. Em junho, a italiana Dolce&Gabbana fechou a unidade de 200 metros quadrados no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro. Montblanc, Chanel e Dolce&Gabbana conservam unidades no Brasil, porém a curva é descendente. A fuga não se restringe ao alto luxo. Gigante britânico dos cosméticos, a Lush deixou o país em junho. Fechou a fábrica e cinco lojas. Há uma freada internacional, sim, mas o mercado brasileiro é como uma jabuticaba — só dá por aqui.

Segundo a consultoria Euromonitor, o segmento de luxo no Brasil perdeu 6 bilhões de reais em faturamento em 2016 e 2017, numa retração de 23%, e não se vê crescimento no horizonte. A crise econômica, mais longa que o previsto, alimentada pelo vácuo político, desafiou as metas de planejamento de empresas regiamente controladas pelos planos de negócios das matrizes globais, que não perdoam. “Os cálculos de faturamento foram feitos quando o Brasil crescia 7% ao ano”, diz Carlos Ferreirinha, consultor do mercado de luxo. “Como não é mais assim, muitas delas quebraram a cara.” A debandada foi acelerada por outro componente, inevitável: o preço dos aluguéis continua altíssimo. A loja de 54 metros quadrados onde a Montblanc operava está sendo oferecida por 70 000 reais mensais mais luvas de 2 milhões. É dinheiro demais, sobretudo porque os consumidores têm sumido.

Durante os períodos de recessão, há fuga de clientes, mesmo os mais abonados. Todo produto de luxo só sai das prateleiras atrelado à compra de caráter emocional, e não por necessidade. No atual ambiente brasileiro, é quase ofensivo ostentar. Não é vital comprar uma bolsa Birkin, da Hermès, por 200 000 reais ou um elegante salto alto Louboutin por 7 000. Além disso, com a desvalorização do real, os preços ficaram, em média, 20% mais elevados que os praticados em 2015.

Somem-se, no jabuticabal destas bandas de cá, a histórica burocracia e a corrupção atávica. Há roupas e acessórios que desembarcam no Porto de Santos e só seis meses depois chegam às vitrines — quando a coleção já está desatualizada. “A alfândega quer propina para liberar as peças com agilidade”, diz a diretora de uma grife italiana, que pede anonimato. O avanço da Operação Lava-Jato também teve impacto, sobretudo no Rio. Clientes sumiram ao saber que personagens centrais do escândalo, como o ex-governador Sérgio Cabral, faziam farra com o butim. Além das joias para a mulher, Adriana Ancelmo, Cabral desembolsava 150 000 reais em dinheiro vivo por ternos Ermenegildo Zegna. Ficou feio, e, diante de tanta feiura, o último que apague a luz.

Publicado em VEJA de 22 de agosto de 2018, edição nº 2596