Clique e assine a partir de 8,90/mês

A vida como ela será. Em breve

Em poucas décadas, os seres humanos descobrirão se as máquinas vão apenas servi-los, se elas se voltarão contra eles — ou se farão parte de seu corpo

Por Carol Castro - 17 ago 2018, 07h00

Como vai ser a rotina de um cidadão comum no futuro próximo, bem próximo? Talvez algo como a descrição a seguir. Pouco antes de a pessoa acordar, as janelas de seu quarto já começarão a se abrir, automaticamente, para deixar entrar os primeiros raios solares. Ao soar o despertador, o indivíduo verá projetados na parede dados compilados por uma assistente virtual, guiada por inteligência artificial (IA), responsável pelo gerenciamento da vida do dono da casa. Na tal projeção haverá informações como uma análise dos batimentos cardíacos do sujeito durante a noite, uma avaliação da qualidade de seu sono e uma agenda com os compromissos do dia, incluindo o cálculo de quanto tempo ele levará para chegar a cada local. No banheiro, o papel de parede será digitalizado e personalizado de acordo com o humor de quem entrar ali (segundo a avaliação da IA). Logo um grupo de sensores espalhados pela ducha, pela privada e pela pia analisará o estado de saúde da pessoa e atestará se ela precisa procurar um médico. Num espelho inteligente, além de admirar o próprio reflexo, o indivíduo poderá acessar as redes sociais, enviar e-mails etc. por meio de comandos de voz. Quando ele entrar na cozinha, a IA já terá preparado o café da manhã. Seu carro autônomo sairá sozinho da garagem e estacionará na entrada da casa, à espera do dono, a quem perguntará: “Aonde vamos?”.

As características desse cotidiano na casa do futuro não estão no mero campo da especulação. A previsão foi assim delineada por pesquisadores patrocinados pela Tesla — a fabricante americana de veículos semiautônomos e elétricos de propriedade do megaempreendedor sul-africano Elon Musk — e exibida, por meio de simulações (as imagens desta reportagem mostram algumas delas), em uma feira tecnológica realizada na Austrália em 2017. Para chegar a tal prognóstico, a equipe da Tesla consultou cientistas de diversas áreas e efetuou pesquisas sobre inovações em teste ou em desenvolvimento em laboratórios e empresas de todo o planeta. Pela estimativa dos pesquisadores, em 2040 já haverá humanos vivendo em uma residência desse tipo.

De acordo com as projeções, a maior parte dos objetos de nosso dia a dia será do gênero smart, como são hoje os smartphones. Além de apresentarem múltiplas funções possíveis pela conexão constante com a internet, geladeiras, duchas, tablets, casas, carros se comunicarão — isso mesmo! — entre si. A expectativa, segundo dados da consultoria IHS Markit, é que em 2030 existirão em torno de 125 bilhões desses aparelhos interconectados. “Vamos interagir com esses itens futuristas de forma natural, como se conversássemos com outros humanos”, aposta o engenheiro Fábio Scopeta, líder da área de desenvolvimento de IA da Microsoft na América Latina. Já na próxima década, todos esses aparelhos smart com os quais falaremos deverão espalhar 10 quintilhões de bytes de informações a cada dia.

Nem todos, no entanto, enxergam só benefícios nessas comodidades do futuro. “A inteligência artificial é muito pior do que as armas nucleares”, ressaltou certa vez ninguém menos que o próprio Musk. Há o receio clássico de que os robôs possam adquirir consciência de sua existência e, então, voltar-se contra a humanidade. Um cenário assim foi descrito pelo neurocientista americano Sam Harris em uma palestra: “Imagine que consigamos chegar ao design de uma IA sem preocupação alguma com questões de segurança. Essa máquina poderá desenhar outras máquinas, também capazes de se multiplicar”. Como esse exército de “seres” com chips no lugar de cérebro vai encarar os humanos? Eis uma pergunta cuja resposta só será conhecida nas próximas décadas.

Se esse quadro parece apocalíptico demais, outros, descritos por Harris, soam mais prováveis. Diz ele: “Como russos e chineses reagiriam se soubessem que algumas empresas do Vale do Silício estariam prestes a lançar essa máquina superinteligente?”. O risco, segundo Harris, é que as nações entrem em guerra para coibir, ou dominar, o desenvolvimento de uma tecnologia tão poderosa. “Precisamos de algo como o Projeto Manhattan (que norteou a fabricação das primeiras bombas atômicas) para a IA. Não para construí-la, pois inevitavelmente faremos isso, mas para entender como poderemos evitar uma corrida armamentista”, conclui ele.

A proliferação de seres mecânicos inteligentes ainda terá outras prováveis consequências drásticas. Na China, que já identifica seus cidadãos por meio de milhões de câmeras, o ímpeto de monitoramento poderá se expandir. Tecnologias atualmente em desenvolvimento podem ser capazes de acompanhar as atitudes de um aluno em sala de aula ou os hábitos de compra de alguém na web. Fora das fronteiras autocráticas, o sinal de alerta também está aceso. Financiada por bilionários como Bill Gates, o criador da Microsoft, a empresa EarthNow pretende pôr em órbita dezenas de satélites com um objetivo mais ou menos tenebroso: filmar o que qualquer habitante da Terra está fazendo. Se hoje a preocupação é com a invasão da privacidade nas redes sociais, no futuro pode ser que o próprio conceito de privacidade tenha se evaporado.

Para além dessa dualidade de vertentes que hoje se digladiam em relação ao avanço das tecnologias — as que acreditam apenas em seus benefícios e as que insistem em considerá-las inimigas —, há um terceiro ponto de vista, cujo mentor é o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor do best-seller Homo Deus. No livro, ele apresenta a ideia de que poderemos nos aprimorar pela fusão de nosso corpo e mente com as novas tecnologias (por meio de implantes, nanorrobôs e afins). Isso criaria o que ele chama exatamente de Homo deus, uma espécie superior de humanos. O risco, contudo, estaria em um eventual conflito entre o Homo deus e o Homo sapiens. Um confronto humano, demasiado humano — porém não menos aterrorizante para a rotina de qualquer um.

Publicado em VEJA de 22 de agosto de 2018, edição nº 2596

Continua após a publicidade
Publicidade