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A última fronteira

A tatuagem chegou ao rosto, Para alívio dos pais, essa escalada, ao menos por ora, está restrita a artistas “transgressores”

Por Maria Clara Vieira Atualizado em 30 jul 2020, 20h11 - Publicado em 24 ago 2018, 07h00

Tão antiga quanto a humanidade, a tatuagem, fora de alguns grupos tribais, permaneceu durante séculos como uma prática extravagante de gente pouco respeitável. Na virada para o século XXI, porém, esse estado de coisas já havia mudado. Meninos e meninas passaram a exibir com orgulho a pele estampada com uma rosa aqui, um ideograma japonês ali, uma estrela acolá — e de repente, para espanto dos pais mais tradicionais, a tinta estava liberada. David Beckham, o ex-jogador inglês que dita modas, ampliou as fronteiras da pintura na pele ao aparecer com os dois braços inteiramente cobertos, um extremismo que está ganhando adeptos — “fechar o braço”, como se diz, já é comum entre atletas e artistas e vem se espalhando pelo público em geral. Quando se pensava que a tatuagem, digamos, social havia atingido o apogeu, eis que a tinta alcança um novo território: o rosto.

No Brasil, o expoente da pintura facial é MC Guimê, funkeiro paulista de 25 anos que tem mais da metade do corpo coberta de frases e desenhos. No rosto são sete, entre eles a pioneira music (música), acima da sobrancelha esquerda, que ele fez em um “momento de libertação”, e good vibes (boas vibrações), nas pálpebras. “Assumi os desenhos como uma identidade visual e quis estender isso ao meu rosto”, explicou a VEJA. “Os fãs imitam. Só meu diamante da garganta, já vi uns oito”, comemora. Estrela do rap americano, ganhador do prêmio de melhor música no VMA 2018, Post Malone é outro adepto famoso: tem stay away (fique longe) escrito na testa e always (sempre) e tired (cansado) abaixo dos olhos. Por quê? “Porque faço qualquer coisa para irritar minha mãe”, responde o músico, de 23 anos.

Raridade - Kat e suas estrelinhas: poucas mulheres aderiram //Divulgação

O enfeite, por assim dizer, é incomum entre mulheres, sendo a tatuadora e modelo Kat von D um dos raros exemplos, com seu arco de estrelinhas. Kat, aliás, é egressa de um reality show de tatuadores, prova de que, se no rosto ainda é para poucos, no resto do corpo a tatuagem saiu definitivamente do gueto. “Ela virou obra de arte”, afirma o tatuador Victor Montaghini, de São Paulo, que chega a cobrar pelo menos 5 000 reais por um projeto. Sylvio Freitas, do estúdio carioca King Seven, explica que a técnica do desenho no rosto não tem nada de diferente, mas a região requer mais cuidado por causa da exposição ao sol. A médica Tatiana Gabbi, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, alerta para o risco de entupimento de vasos sanguíneos durante o processo. “O rosto é uma área de circulação terminal. Bloquear algum vaso pode interromper o suprimento de sangue no local”, explica. Em outras palavras: se bater a vontade de tatuar a face, considere alternativas. Que tal “fechar” o braço?

Publicado em VEJA de 29 de agosto de 2018, edição nº 2597

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