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A tripulação sumiu

Noruegueses desenvolvem o primeiro navio elétrico e autônomo do mundo. A embarcação vai carregar até 120 contêineres e navegará sem marinheiros

Antes dos aviões, dos trens-bala e da internet, foram os navios que encurtaram as distâncias e fizeram deslanchar a primeira onda da globalização, há mais de cinco séculos, na era das grandes navegações. Mais recentemente, graças aos contêineres, uma invenção tão singela quanto revolucionária, o transporte marítimo passou por um novo salto evolutivo. A padronização propiciada pelos baús metálicos, usados a partir dos anos 1950, fez com que as cargas fossem facilmente transferidas de navios para trens e caminhões. Graças à queda nos custos, diferentes partes de um produto (carro ou celular) podem ser fabricadas em diversos países. A cada ano, 10 bilhões de toneladas de mercadorias são transportadas pelos oceanos. Agora, o transporte marítimo está prestes a embarcar em uma nova transformação. Vêm aí os navios autônomos: eles zarpam, navegam e atracam sem capitão nem marinheiros.

Diversas companhias disputam a liderança no desenvolvimento de carros autônomos. No mundo náutico, a primazia caberá aos noruegueses. A Yara International, fabricante de fertilizantes, e a Kongsberg, empresa de tecnologias náuticas, desenvolveram o Yara Birkeland, navio de carga movido a energia elétrica que dispensa a tripulação. A ideia de investir no barco, já apelidado de “Tesla dos mares”, em referência à fabricante de carros elétricos, surgiu a partir de um problema logístico da Yara. Cem caminhões carregados de fertilizantes saem, diariamente, de uma de suas maiores unidades de produção, em Porsgrunn, com destino aos portos de Brevik e Larvik. “São 40 000 viagens de caminhão por ano, cruzando cidades pequenas, gerando barulho e poluição. Além dos riscos operacionais, é um grande dano ambiental”, diz Lair Hanzen, presidente da Yara Brasil.

O investimento na construção do Yara Birkeland consumiu 25 milhões de dólares. Trata-se do triplo do valor de um navio convencional de porte semelhante. Com o tempo, o custo tende a diminuir, e, além disso, a empresa poupará outras despesas operacionais, pelo fato de a embarcação dispensar o trabalho da tripulação. O benefício ambiental, entretanto, será considerável: 700 toneladas de gás carbônico a menos, por ano, na atmosfera. A Noruega, país que enriqueceu pela exploração do petróleo, tem se notabilizado pelo incentivo ao fim dos motores a combustão. Os carros movidos a gasolina e diesel deverão ser banidos do país até 2025.

 (Arte/VEJA)

O Yara Birkeland foi modelado para fazer apenas um trajeto curto, de navegação de cabotagem. As operações estão programadas para começar no segundo semestre de 2018, com uma pequena tripulação a bordo, até o funcionamento completamente autônomo, em 2020. Outras empresas têm se dedicado a desenvolver a tecnologia necessária para dar início à era na navegação oceânica. A britânica Rolls-Royce planeja pôr navios operados remotamente em mar aberto em 2025. “A operação autônoma trará ganhos na segurança e na eficiência”, afirma Simon Kirby, gerente de comunicações da companhia. Segundo um relatório publicado pela seguradora Allianz em 2012, entre 75% e 96% dos acidentes marítimos são causados por erros humanos, muitas vezes pelo cansaço da tripulação.

A novidade deve demorar a chegar por aqui. “Os portos ainda apresentam falhas básicas, como pouca profundidade”, diz Décio Tarallo, sócio da Prosperity, consultoria de logística. A infraestrutura do Brasil não ajuda, mas o grande obstáculo para a navegação autônoma deve vir mesmo é dos sindicatos de estivadores, práticos e outros trabalhadores portuários — cujas profissões, como tantas outras, correm o risco de em breve ser substituídas pelos robôs.

Publicado em VEJA de 6 de setembro de 2017, edição nº 2546