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A tabelinha eletrônica

É aprovado o primeiro aplicativo antigravidez — seguro, mas com eficácia inferior à da pílula e do DIU

Por Natalia Cuminale - 17 ago 2018, 07h00

A tabelinha é um dos mais antigos recursos contraceptivos, usada por mulheres desde priscas eras. Por meio dela, estima-se o período de fertilidade com base nos dias do ciclo menstrual. Com eficácia avaliada em apenas 70%, foi naturalmente substituída, com o tempo, por métodos mais modernos e seguros, como a pílula e o DIU. Agora, a FDA, a agência americana de medicamentos, avalizou a comercialização de uma curiosa invenção que atrela a singela contagem cotidiana a um aplicativo para smartphone. O nome comercial do produto, desenvolvido com tecnologia sueca, é Natural Cycles (ciclos naturais).

Desenhado para celulares, o sistema é alimentado por duas informações básicas: o ciclo menstrual e a temperatura corporal. Ancorado num algoritmo, o programinha calcula em quais dias do mês a mulher está fértil, e pode, portanto, engravidar. O funcionamento é simples. Todas as manhãs, ao longo do mês, a mulher deve medir a própria temperatura, pela boca, com um termômetro ultrassensível, vendido no pacote. Depois, ela põe os dados no celular, e pronto — tudo é calculado automaticamente. A explicação é fisiológica. Durante a ovulação, o organismo feminino aumenta a produção do hormônio progesterona, o composto-chave da gravidez (o nome vem do latim progestare — ou a favor da gestação). A substância eleva em até 0,5 grau a temperatura do corpo — o que é imperceptível por medições comuns. Se o resultado for verde, a usuária não estará ovulando. Se for vermelho, será contraindicado ter relações sexuais sem proteção. A assinatura do aplicativo, já em uso em países escandinavos, custa 50 dólares por ano.

PRECISÃO –  O sistema é alimentado por dados do ciclo e temperatura do corpo //VEJA

O programa, no entanto, não representa segurança total: a natureza não é tão lógica quanto a inteligência artificial. O corpo humano segue um ritmo biológico que pode ser impactado por algumas variações ambientais, como o stress, o tipo de alimentação, o consumo de álcool e o uso de remédios. O ciclo pode sofrer alterações. O Natural Cycles, dada essa pequena margem de incerteza, tem 93% de eficácia — ou seja, de 100 mulheres que o utilizam, sete podem engravidar. A pílula é 98% certeira. O DIU hormonal chega a 99,8%. “O índice desse novo produto pode ser bom, mas as estratégias já consolidadas ainda são mais seguras para quem não quer engravidar”, diz o ginecologista Márcio Coslovsky, médico da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida.

Não há hormônios envolvidos no aplicativo, como na pílula anticoncepcional. E essa é uma boa vantagem. Diz Eduardo Zlotnik, ginecologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo: “Um número cada vez maior de mulheres busca métodos contraceptivos naturais e sem intervenções”. As pílulas modernas são seguras, mas raramente isentas de efeitos colaterais. Aumento de peso, espinhas, alterações de humor e trombose estão entre eles. Os hormônios das pílulas anticoncepcionais, no entanto, revolucionaram o mundo. Surgidas na década de 60, elas foram o estopim da revolução sexual, dando às mulheres a possibilidade de controlar a própria reprodução, de fazer sexo por prazer e não apenas para reproduzir. “Uma das sete maravilhas do mundo”, na definição de uma reportagem da revista inglesa The Economist.

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Publicado em VEJA de 22 de agosto de 2018, edição nº 2596

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