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A revanche humana

Investidor diz que o avanço da tecnologia vai valorizar profissionais com formação humanística, capazes de liderar e refletir — e não os técnicos em exatas

Por Marcelo Sakate 24 ago 2018, 07h00

Scott Hartley é um investidor de risco em startups, integrou o programa de inovação da Casa Branca no governo de Barack Obama e já trabalhou em duas das mais importantes empresas de tecnologia do mundo, o Google e o Facebook. Formado em ciência política pela Universidade Stanford, tradicional berço de empreendedores do Vale do Silício, Hartley, 34 anos, escreveu o livro O Fuzzy e o TechiePor que as Ciências Humanas Vão Dominar o Mundo Digital (Editora BEI), em que rebate o senso comum segundo o qual as disciplinas técnicas ficarão em primeiro plano. Fuzzy é como o graduado de humanas é conhecido no meio universitário americano, e techie, o de exatas. Para ele, a automação vai afetar empregos que envolvam processos repetitivos e valorizar aqueles que dependam de habilidades como capacidade de liderança, de interação e de fazer as perguntas certas para direcionar a inovação tecnológica. Hartley, que é americano, falou a VEJA por telefone.

Como o senhor se deu conta de que profissionais com formação em ciências humanas talvez não recebam o devido reconhecimento? Trabalhei no Vale do Silício, no Google e no Facebook. Estava em uma empresa de capital de risco que tinha como missão investir em novos empreendedores, quem sabe o próximo Mark Zuckerberg. E observei que muitos deles eram pessoas como eu, que não estudaram ciência da computação nem engenharia. Havia filósofos e advogados. No Google, equipes que desenvolvem produtos fazem pesquisa sobre a experiência do usuário. Isso é basicamente antropologia. Essa era uma narrativa sobre o Vale do Silício que ainda estava submersa. Também observei o que impulsionava a inovação. Nos anos 90, eram empresas de tecnologia que construíam a infraestrutura da internet. Mas isso hoje tem a ver com o estudo de como aplicar a tecnologia em diferentes áreas, do varejo à saúde. É preciso entender quais são as necessidades das pessoas. Muitos dos empreendedores que estão construindo as novas empresas, que conseguem atrair investidores, que são capazes de montar equipes e convencê-las de sua visão, são pessoas com habilidades das ciências humanas.

Qual o melhor exemplo que o senhor encontrou? Um dos meus casos favoritos é uma companhia chamada Stitch Fix. É a Netflix do comércio. Usa algoritmos e machine learning (aprendizagem automática das máquinas, uma das áreas da inteligência artificial) para descobrir a preferência do consumidor em roupas. Não há um carrinho virtual para compras. O consumidor não escolhe o que quer. Ele tem de responder a perguntas, e a partir delas o site seleciona o que vai lhe mandar. A fundadora do site, Katrina Lake, entende de varejo, mas não tem formação em tecnologia. É economista e cientista política. A Stitch Fix conta com cerca de oitenta profissionais que são cientistas de dados e outros 4 000 que classificam as informações e descobrem do que as pessoas gostam com base nas respostas, como se fossem estilistas. Então os cientistas de dados fazem a programação para os algoritmos de machine learning. Isso é interessante por dois aspectos. Primeiro, mostra que uma pessoa sem formação em tecnologia pode erguer uma companhia avaliada em 5 bilhões de dólares. Segundo, apesar do medo que as pessoas têm dos efeitos da automação, é possível fazer uso de machine learning e ainda assim empregar 4 000 pessoas que não são de tecnologia.

“Muitos dos empreendedores que estão construindo empresas, capazes de montar equipes e de convencê-las de sua visão, são pessoas com habilidades das ciências humanas”

Não seriam casos isolados? As empresas percebem cada vez mais os ganhos dessa parceria. Se analisarmos os carros autônomos, pensamos primeiro na questão tecnológica. Seria muito fácil pôr em funcionamento um carro autônomo se não houvesse ninguém na rua, ciclistas, crianças, animais. Mas a realidade é que existem elementos imprevisíveis, a maneira como as pessoas se comunicam com as ruas. As empresas de tecnologia percebem, muito mais que alguns anos atrás, que o modo como a tecnologia impacta as pessoas envolve questões políticas, sociológicas, filosóficas, éticas.

O senhor considera que as empresas de tecnologia superestimam o impacto de inovações como o big data e a inteligência artificial? Isso acontece com a inteligência artificial. Se você conversar com os engenheiros da DeepMind (empresa hoje pertencente ao Google), por exemplo, vai se convencer de que eles fizeram algo incrível: criaram um programa com tal capacidade de analisar o tabuleiro do go (um jogo chinês) e as probabilidades para fazer os movimentos que conseguiram derrotar o campeão mundial do jogo, que é um humano. Foi uma combinação de intuição e habilidade. Mas, ao mesmo tempo, essa inteligência artificial não vai sair do tabuleiro. Está confinada a um contexto específico.

O que o senhor acha da recomendação de alguns analistas de carreira de que os trabalhadores aprendam programação? Mais importante do que aprender a programar é ter conhecimentos básicos de tecnologia. Você não precisa ler todos os livros de literatura russa, mas saber um pouco de Tolstói e Dostoiévski. É importante que as pessoas não se sintam intimidadas com o avanço da tecnologia. Ela vai assumir algumas tarefas de nossa rotina de trabalho e, com isso, nos liberar para que nos concentremos na interação humana, na comunicação das ideias.

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As escolas e as faculdades preparam os alunos para que consigam equilibrar as habilidades relacionadas às ciências humanas e exatas? As universidades estão mais bem preparadas. Na Harvard, há uma professora de ciência da computação que tem como assistente uma Ph.D. em filosofia. Ou seja, não estou falando em incluir uma aula de filosofia ou de outra ciência humana para quem estuda engenharia, mas em integrar os currículos de alguma forma. O mesmo vale para um aluno de ciência política. Seria maravilhoso que ele aprendesse noções básicas de programação. Além disso, as empresas e o governo devem incentivar os empréstimos para que as pessoas façam cursos de curta duração. É muito mais fácil obter crédito para um mestrado de dois anos do que para um curso de dez semanas, ainda que o primeiro seja longo e caro demais.

As gerações mais novas substituem o contato humano pela comunicação via celular. Isso pode comprometer o desenvolvimento de habilidades que dependem do convívio social, como a capacidade de interação? É importante buscar o equilíbrio entre o uso de tecnologia e atividades como esporte, teatro ou outras que exijam habilidades como o trabalho em equipe. São elementos que adquirimos e desenvolvemos ao lidar com pessoas na vida real, cara a cara. Atualmente, há uma dependência muito grande da tecnologia. As pessoas se esquecem de que noções de ética são aprendidas no contato com as outras pessoas. Hoje, podemos apertar um botão no celular quando queremos “tocar” uma música. Mas aprender a tocar um violão, por exemplo, exige paciência, exige persistência. São habilidades que farão uma pessoa ser bem-sucedida.

Qual é a habilidade comportamental mais importante para os profissionais de exatas? Há um exemplo no meu livro de uma indiana cujo nome é Shivani Siroya. Ela fundou uma companhia, a Tala, e cresceu em uma pequena cidade da Índia antes de emigrar com a família para os Estados Unidos. Sua família é de uma religião chamada jainismo. Ela conta que aprendeu a arte de escutar com seus avós. O negócio de sua empresa é fazer empréstimos a pessoas que possuem pequenos negócios, e isso exige que Shivani tenha a capacidade de ouvir suas histórias, saber quem elas são. A Tala cresceu graças a essa habilidade de Shivani, que é comum a muitos líderes e presidentes de empresas.

“O avanço da tecnologia vai assumir algumas tarefas da rotina de trabalho, e isso vai nos liberar para que nos concentremos na interação humana, na comunicação das ideias”

O que é mais difícil: tornar uma pessoa de exatas um pouco mais humanista ou o contrário? É importante que ambas as pessoas tentem incorporar um pouco do outro lado. Acho que é algo desafiador para as duas. Para a de exatas, fazer um curso de filosofia ou de literatura não vai torná-la alguém de humanas. E vice-versa. Feita essa ressalva, acho que é mais fácil preparar uma pessoa de humanas para comandar um negócio na área de exatas porque a tecnologia está cada vez mais acessível. Cinco anos atrás, era preciso ter estudado ciência da computação para trabalhar com machine learning. Hoje, não mais. Por outro lado, um indivíduo com habilidades puramente tecnológicas terá mais dificuldade para convencer as pessoas a trabalhar com ele, a vender sua visão sobre o projeto. Tenho testemunhado isso em primeira mão como investidor de risco. Há uma empreendedora chamada Caitlin Gleeson, que estudou teatro e trabalhou na Broadway. Ela percebeu que era uma vendedora muito boa. Criou uma empresa na área de saúde que captou 25 milhões de dólares em investimentos. Hoje, Caitlin comanda um time com 100 engenheiros.

Estamos falando de empresas, mas a sociedade precisa também aprender a conciliar o avanço tecnológico com as virtudes das ciências humanas? Sim. Falo muito sobre a necessidade de humanizar a tecnologia, mas, da mesma forma, as pessoas precisam envolver-se com a tecnologia de maneira mais profunda. Não basta que elas tenham uma conta de e-mail, seria bom que entendessem como as coisas funcionam. No depoimento que Mark Zuckerberg deu ao Congresso americano por causa do uso de dados e da violação da privacidade de usuários, foi possível perceber que os políticos tinham pouca compreensão sobre a internet e a tecnologia.

Escândalos como o do Facebook poderiam ter sido evitados com uma abordagem mais humanista dentro da empresa? Algumas pessoas pensam que as ciências humanas estão obsoletas ou fora de moda e que se tornaram dispensáveis, mas a verdade é que são mais importantes do que nunca. É o caso da crise que envolve o Facebook e o vazamento de dados de usuários e as fake news, que exige que as pessoas reflitam sobre temas como ética e filosofia. O ethos do Facebook, quando a empresa teve início, estava escrito nas paredes e no chão da sede. Uma das frases dizia “1% feito”. Era uma mensagem que transmitia que o empreendimento estava só começando e que havia muito a ser entregue. Outra dizia “mova-se rapidamente e quebre coisas”. Acho que a intenção era positiva. Quando se é uma pequena startup, o objetivo é mudar as coisas para valer. Mas, quando essa companhia passa a empregar 1 000 ou 10 000 pessoas, a mentalidade precisa evoluir.

Publicado em VEJA de 29 de agosto de 2018, edição nº 2597

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