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No belo 'Gabriel e a Montanha', um diretor reconstitui não só a viagem de aventura e o desfecho trágico de um amigo, mas sobretudo as marcas que ele deixou

Por Isabela Boscov 3 nov 2017, 06h00

Doce e alegre, entre 2008 e 2009 o carioca Gabriel Buchmann tirou um ano para ir conhecer, na prática, as regiões de pobreza que em seguida seriam objeto de seu doutorado. Viajando quase sem dinheiro pela Ásia e depois pela África, hospedava-se na casa de locais, comia a mesma comida que eles — tinha aversão à ideia de ser um mero turista — e doava-lhes pequenas quantias. Passou seus últimos dois meses palmilhando o Quênia, a Tanzânia, a Zâmbia e o Malaui, usando uma canga colorida e as sandálias de pneu presenteadas por um amigo massai. Buchmann, porém, superestimou a sua assimilação. Tendo já subido o Monte Kilimanjaro (foi quase carregado na etapa final), dispensou o guia no Monte Mulanje, no Malaui, por considerá-­lo lerdo. Fez a trilha mal agasalhado e despreparado. Seu corpo foi encontrado dezenove dias depois, nas encostas do Mulanje: perdera-se e morrera de hipotermia. É tocante o retrato que emerge dele em Gabriel e a Montanha (Brasil, 2017; já em cartaz no país), dirigido pelo amigo Fellipe Barbosa, de Casa Grande: o de um jovem traído pela própria mistura de curiosidade e certeza, e de humildade e teimosia.

Buchmann e sua namorada, Cris, que fez com ele um trecho da viagem, são os únicos interpretados por atores (João Pedro Zappa e Caroline Abras). Em um trabalho cuidadoso de reconstituição não apenas factual, mas principalmente das impressões que Buchmann deixou por onde passou, Barbosa localizou seus guias, anfitriões, caroneiros e amigos, e pôs eles mesmos em cena. É  uma bela confluência de documento e ficção. Mais ainda por ser uma homenagem fiel ao personagem até na recusa a retoques lisonjeiros.

Publicado em VEJA de 8 de novembro de 2017, edição nº 2555

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