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A neve é a nova praia

Em pleno verão, os brasileiros estão invadindo as pistas de esqui da Europa e dos Estados Unidos, a ponto de já existir até instrutor que fala português

Por Isabela Izidro 8 dez 2017, 06h00

Turismo no verão traz à mente praia, sol, corpo bronzeado, roupas leves, chinelos de dedo. Ou não. Nos últimos anos, uma legião de brasileiros vem dando as costas a tudo isso e tomando o avião para o inverno na Europa e nos Estados Unidos com um propósito tão firme quanto propenso a hematomas: esquiar na neve. As agências de viagem contabilizam um aumento de 30% a 40% nas vendas de pacotes para essas estações de esqui só da temporada de 2016 para a deste ano (a alta temporada vai de novembro a abril). Não é de hoje que brasileiros viajam para esquiar, mas o volume de pacotes vendidos indica certa popularização de um hábito considerado de elite. Também representa um desvio, enfim, da rota estabelecida nos primórdios da massificação do turismo, que passa por Orlando, na Flórida, e pelos estrelados resorts à beira-mar.

A bola de neve do turismo gelado não rola agora nas montanhas da Argentina e do Chile, nevadas quando é inverno no Brasil e desde sempre o destino preferencial dos esquiadores brasileiros. Elas vêm sendo substituídas pelas pistas do Hemisfério Norte. Na ponta do lápis, a matemática pesa a favor. “Os pacotes para a América do Sul estão tão ou mais caros do que opções na Europa e nos Estados Unidos, locais em que as condições de neve são muito melhores e há passeios para todos os gostos”, explica Luis Fernando Pegado, dentista de Niterói que já viajou para esquiar mais de trinta vezes e hoje organiza grupos para turismo na neve.

Os destinos mais procurados são as estações em torno das cidades de Aspen e Vail, ambas no rochoso Estado do Colorado, nos Estados Unidos, e os dezenove resorts de neve na Itália, França e Alpes Suíços, todos sob a bandeira do Club Med, a maior rede de hospedagem para esquiar da Europa. Em todos eles, o Brasil ocupa lugar de destaque no pódio dos grandes mananciais de turistas, a ponto de vários oferecerem instrutores que falam português. No mercado americano, os brasileiros só perdem para a Austrália, em Aspen, e para o México, em Vail. “Desde 2010 o Brasil se mantém consistentemente, ano após ano, entre os principais mercados internacionais de esqui”, avalia Sarah Morden, representante da Vail Resorts. Na Europa, o país fica atrás de França, Reino Unido, Bélgica e Estados Unidos, onde os nativos esquiam desde criancinhas, mas é primeiríssimo se comparado a outros locais onde quase não há neve. “Os brasileiros estão entre os principais consumidores dos pacotes de esqui nos nossos resorts na Europa, e seu interesse não para de crescer”, comemora Janyck Daudet, CEO do Club Med na América do Sul.

Arte/VEJA

O frio atraiu o economista carioca Miguel Albano, de 56 anos, pela primeira vez em 2015, por influência da namorada, já veterana. Ele aprovou, voltou e tem nova viagem planejada. “Foi mais fácil do que eu esperava”, diz. Apaixonada pelo esporte, a bióloga paulistana Jaqueline Macedo, de 52 anos, esquia todo janeiro, sem exceção, na companhia do marido e das três filhas, as gêmeas Stephanie e Sofia, de 12 anos, e a caçula Vitória, de 11. “Começamos na América do Sul, quando as meninas tinham 3 e 4 anos. Depois passamos para os Estados Unidos e a Europa. Minhas filhas hoje esquiam muito melhor do que eu”, avalia Jaqueline. Sofia desliza com tanta habilidade que, no início do ano, venceu um torneio na estação francesa em que a família se hospedava e foi convidada a ficar e até a se profissionalizar. Mas não aceitou.

Quem começa a ver a neve como a melhor opção do verão, no entanto, deve ajustar os óculos de proteção com os olhos bem abertos. Primeiro: esquiar é caro. Nos Club Med europeus, o pacote de uma semana varia de 4  500 (baixa temporada) a 8 500 reais (alta temporada) por pessoa, sem contar a passagem e o equipamento, mas incluindo refeições, bebidas e aulas. Em Aspen, a hospedagem pura e simples pode chegar a 10 500 reais por pessoa por semana. “A principal diferença entre os dois destinos é que as estações europeias são menos preocupadas em mimar turistas, já que lá esquiar faz parte da cultura, ao passo que as americanas têm como foco esbanjar qualidade e garantir a volta dos hóspedes, que às vezes nem se arriscam nas pistas”, explica Sylvio Monti, de 60 anos, esquiador e proprietário da Snowtime, uma agência de viagens especializada nesse tipo de pacote.

Além do preço, é preciso ter em mente que esquiar não é para qualquer um. O esporte exige preparação e razoável condição física. Para iniciantes, é essencial prestar atenção a cuidados básicos: usar roupas demais, uma tentação frequente, pode ser uma fria, e a lentidão sobre esquis muitas vezes é sinônimo de queda (veja o quadro ao lado). “Felizmente, a curva de aprendizado é muito rápida. Os brasileiros costumam chegar com o pé atrás, mas logo vencem a barreira psicológica de quem estava acostumado a praia e calor e só via neve na novela”, garante Eduardo Gaz, proprietário da operadora Ski Brasil, que vendeu mais de 6 000 viagens na temporada de 2017. Superados os obstáculos, basta pôr um esqui em cada pé, segurar um bastão em cada mão e partir para a aventura na neve. Ou para o próximo tombo.

 

Publicado em VEJA de 13 de dezembro de 2017, edição nº 2560

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