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A mão segura de Tite

Sem surpresas nem grandes contestações, o treinador da seleção brasileira goza de prestígio inédito na história recente das campanhas em Mundiais

A gritaria da convocação da seleção brasileira para a Copa é uma certeza tão grande, mas tão grande, que o próprio técnico Tite, ao anunciar, na segunda-feira 14, os 23 jogadores que irão para a Rússia, se antecipou às críticas e soltou uma pequena provocação. “Falemos a verdade: vocês vão ali no cantinho dizer que a convocação foi boa, mas que eu poderia ter lembrado desse ou daquele.”

A alfinetada foi eficaz, pois logo depois da apresentação dos escolhidos (veja a lista ao lado) quase não se ouviram as trombetas da crônica esportiva ou das mesas de bar. Houve dúvidas e questionamentos aqui e ali, mas nada que se compare à ausência de Paulo Henrique Ganso e Neymar no escrete de Dunga, em 2010. Nada que chegue perto do espanto generalizado que Luiz Felipe Scolari provocou em 2002 ao deixar Romário em casa. E a falta de contestação é, na verdade, uma tradução do jeito Tite de ser: o treinador gaúcho não faz nada sem método. Se isso vai dar certo na Copa, obviamente nem Tite sabe.

 (Arte/VEJA)

A atual comissão técnica da seleção ressalta que nada passou despercebido a seu monitoramento. Em 641 dias de trabalho, o técnico da seleção e seus auxiliares assistiram a 251 partidas da beira do gramado — 112 delas aconteceram no exterior e as restantes foram realizadas no Brasil. Tanta observação resultou num dado interessante: na lista definitiva aparecem catorze nomes que constaram de sua primeira convocação, em agosto de 2016, o que representa um alto nível de certezas. No fim das contas, entre eliminatórias e amistosos, Tite é, de longe, o treinador que teve o melhor aproveitamento entre os últimos cinco que conduziram o Brasil à Copa. Ele conquistou 84% dos pontos que disputou (veja a tabela abaixo).

A preferência por jogadores que atuam no exterior (vinte dos 23 convocados) ressalta outra obviedade: é fora de nossos domínios que se joga o futebol mais competitivo atualmente. É nesse ponto que talvez tenha surgido a única divergência em relação às escolhas de Tite. Houve quem questionasse a convocação do atacante Taison, que atua pelo Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, em detrimento dos gremistas Luan e Arthur, destaques da campanha vitoriosa do time gaúcho na Copa Libertadores da América de 2017. “O Taison tem oitenta jogos, entre Liga dos Campeões e Liga Europa, além de ser campeão da Libertadores e da Sul-­Americana no Internacional comigo”, defendeu-se o treinador, apontando a larga rodagem de seu escolhido. Ou seja, a experiência foi um fator que pesou nessa decisão. A média de idade, de 28 anos, é razoavelmente alta. Colaborou para aumentá-­la a permanência de quatro jogadores que estiveram em campo no infame 7 a 1 contra a Alemanha, em 2014 (Fernandinho, Marcelo, Paulinho e Willian) — além de Neymar, que não jogou porque estava lesionado, e de Thiago Silva, que estava suspenso. “Se aprende ganhando, empatando ou perdendo”, disse Tite durante o anúncio da lista, ao lembrar a importância dos remanescentes. “Eles estão um passo à frente em relação a mim.”

Os jogadores se apresentarão à comissão técnica da CBF nesta segunda 21. Depois de dois períodos de treinamentos (um em Teresópolis, na região serrana do Rio, e o outro em Londres) e dois amistosos (contra a Croácia, no dia 3, e a Áustria, no dia 10, ambos na Europa), a seleção desembarcará em 11 de junho no balneário russo de Sochi, onde ficará concentrada na primeira fase do torneio. Ela estreia na competição em 17 de junho, um domingo, contra a Suíça. Tite fez tudo certo até agora. Mas só fará história se voltar com o hexacampeonato na bagagem.

 

Publicado em VEJA de 23 de maio de 2018, edição nº 2583

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