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A lição de Machado de Assis

O escritor opôs-se à cultura do improviso que ainda vitima o país

• Em seu primeiro romance, Ressurreição, publicado em 1872, Machado inventou a metáfora decisiva que condensa a lição que ainda hoje não queremos assimilar. No prefácio, apostou suas fichas numa equivalência pouco usual: “A crítica decidirá se a obra corresponde ao intuito, e sobretudo se o operário tem jeito para ela”.

• O autor-operário definiu uma autêntica poética da disciplina por meio de uma série de contos que insistimos em desentender.

• Na campanha presidencial surgiu uma novidade perturbadora: por que não resolver os problemas da educação pública simplesmente eliminando-a? Lógica por certo cínica, mas que sem dúvida conquistaria o Conselheiro Acácio fantasiado de pedagogo. Afinal, por que dar-­se ao trabalho de imaginar soluções complexas no universo lucrativo do improviso?

• Elisiário é o protagonista de Um Erradio, conto de 1894. Dono de vocação múltipla, prometia muito em áreas as mais diversas. Bastava dar-­lhe um mote: um verso inspirado era a resposta imediata. Se alguém sugeria uma situação: pronto, lá vinha esboçada uma cena perfeita. Ninguém contava um caso com sua verve. No entanto, incapaz de aplicar-se sistematicamente a coisa alguma, teve seu malogro traduzido pelo narrador: “Era também um talento de pouca dura; tinha de acabar, ainda que não acabasse”.

•O Habilidoso, conto saído em 1885, apresenta o curioso personagem João Maria. Desde muito jovem “pegou-lhe o sestro de copiar tudo o que lhe caía nas mãos”: desenhar era sua habilidade. Chegou a acalentar grandes expectativas — quem sabe um pintor de renome internacional um dia? Pelo contrário, apenas colecionou fracassos. Por quê? Outra vez, o narrador esclarece: “Toda arte tem uma técnica; ele aborrecia a técnica, era avesso à aprendizagem, aos rudimentos das coisas”.

• Xavier é o talento exuberante que domina O Anel de Polícrates, conto de 1882. Mestre da linguagem, frasista incomparável, sedutor nato, cérebro privilegiado: como sequer vislumbrar o futuro de Xavier? Porém… Nada: nunca publicou nem mesmo um artigo de jornal. Por quê? “Explica-se facilmente. (…) era impaciente, não sofria a gestação indispensável à obra escrita.”

• Ora, você já se deu conta: no avesso desses contos se define a poética machadiana da disciplina.

• Na campanha presidencial não parece ser obstáculo intransponível ufanar-­se de uma ignorância solidamente cultivada ao longo de décadas de atividade parlamentar incerta. Afinal, por que estudar com afinco no paraíso do espontaneísmo? Viva o autodidata do Nada!

• Tais anomalias não serão mais possíveis quando finalmente apreendermos a lição de Machado de Assis, que conjuga habilidade e esforço, inteligência e diligência. Isto é, somente lutando contra a própria destreza um artista se afirma.

• (O mesmo vale para um país — você já se deu conta.)

Publicado em VEJA de 5 de setembro de 2018, edição nº 2598