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A hora dos extremos

Com saída de Lula e a chegada de Haddad, disputa para definir quem será o adversário de Bolsonaro no 2º turno se afasta do centro e se aproxima da esquerda

Por Edoardo Ghirotto e Eduardo Gonçalves - 14 set 2018, 07h00

Entre as muitas dúvidas a pairar nestas eleições de contornos inéditos, há pelo menos duas certezas neste momento. A primeira é que o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, é o único com vaga assegurada no segundo turno. A outra é que o volume da campanha subiu de tom desde a saída de cena do ex-presidente e atual presidiário Luiz Inácio Lula da Silva. Antes de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negar o registro da candidatura do petista, o congestionamento de candidatos à Presidência da República se dava entre as vozes mais comedidas do espectro ideológico — o Datafolha de 22 de agosto mostrava Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede) empatados tecnicamente atrás de Bolsonaro e seguidos por Alvaro Dias (Podemos), Henrique Meirelles (MDB) e João Amoêdo (Novo), todos com desempenho de um dígito. Agora, o cenário passou a ser de polarização. Bolsonaro, Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT), donos dos discursos mais extremados da campanha, hoje acumulam juntos quase 50% das intenções de voto, o equivalente a 60% dos votos válidos. Já os cinco candidatos mais próximos do centro têm apenas 30% das intenções, ou 40% dos votos válidos. Tecnicamente, porém, Haddad, Ciro, Alckmin e Marina estão empatados (veja o quadro abaixo).

ESTRIDÊNCIA – Ciro: “cana” para o comandante do Exército Fabio Motta/Estadão Conteúdo

Desses últimos, Haddad é o que tem hoje mais chances de crescer. E não apenas porque registra um baixo índice de rejeição entre os candidatos mais bem posicionados, mas sobretudo pelo imenso potencial de votos que pode vir a colher no Nordeste, reduto de seu padrinho. Caso o poste de Lula consiga 45% dos votos na região — meta considerada modesta diante do histórico petista, acima de 50% nas duas últimas eleições —, isso significará que aos atuais 9 pontos que detém, segundo o Datafolha, Haddad acrescerá 10 pontos, chegando a 19% — um capital e tanto quando se leva em conta a fragmentação da atual disputa eleitoral.

ASA ENGESSADA – Alckmin: ainda congelado nas pesquisas, suas chances são de catalisar o “voto útil” Fabio Vieira/Fotorua/Estadão Conteúdo

Na última pesquisa Datafolha, divulgada em 10 de setembro, 33% dos eleitores disseram estar dispostos a votar “com certeza” em quem Lula indicasse. A transferência de votos, no entanto, não deverá ser automática nem fácil. Na terça feira 11, em Curitiba, no terreno em frente à sede da Polícia Federal onde Lula está preso, um evento sagrou Haddad “representante” do ex-presidente. Uma nova “Carta ao Povo Brasileiro”, de autoria atribuída a Lula e lida pelo advogado e amigo Luiz Eduardo Greenhalgh (seu bigode grisalho e sua figura atarracada em alguns momentos lembravam o próprio petista), pareceu agradar muito mais aos presentes do que o discurso de Haddad. “Ele (Haddad) fala bem, mas a carta do Lula mexe mais com a gente”, avaliou um militante, apontando para o peito.

ÚLTIMA CHANCE –  Marina não conseguiu captar os votos de Lula e terá de convencer eleitora indecisa de que tem fôlego Nacho Doce/Reuters

O espetáculo armado para selar a candidatura de Haddad foi planejado por Lula. O ex-presidente atribuiu a Ricardo Stuckert, seu fotógrafo e amigo, a missão de transformar o anúncio, que já era esperado fazia mais de um mês, em um ato histórico — ainda que, ao final, o evento não tenha reunido mais que 500 pessoas. Desde que foi preso, em abril, o petista cultiva a ideia de construir símbolos e mitos em torno de si. Da cela de 15 metros quadrados da Superintendência da Polícia Federal, ordenou: “O anúncio tem de ser aqui onde eu estou. O mundo inteiro precisa ver isso”. Até então, a direção do PT planejava oficializar a troca de Lula por Haddad num evento com a presença de intelectuais e estudantes no teatro da Pontifícia Universidade Católica (PUC), em São Paulo.

Na tentativa de conquistar a militância petista e os votos que eram do ex-presidente, Haddad tem escolhido como alvo o setor financeiro. Na quinta-feira 13, em comício no centro de Osasco, na Grande São Paulo, defendeu a volta dos subsídios governamentais para os combustíveis, “como no governo Lula”. Semanas antes, dissera em um encontro com comerciantes, em Brasília: “Temos de dar um basta à oligopolização dos bancos, e isso não virá sem dor para os banqueiros”. Em privado, Haddad vem suavizando parte de seu discurso (veja o quadro abaixo). Ele falou ainda em soltar presos que tenham cometido pequenos delitos, “para sanar a lotação carcerária”, e convocar referendos e plebiscitos para decidir questões de interesse nacional, como a participação da Petrobras no pré-sal.

Único candidato a visitar até agora os nove estados do Nordeste, Haddad deve voltar à região a partir desta semana. Será o epicentro de sua campanha. Ele viajará acompanhado da ex-diretora de jornalismo da Rede Globo Olga Curado, encarregada de amenizar sua dicção acadêmica e seu sotaque paulistano, além de ensiná-lo a emular a fala nordestina, sem artigos definidos, e fazê-lo aparecer no horário eleitoral com chapéu de cangaceiro.

CENÁRIO – A sagração de Haddad como “representante” de Lula se deu em frente à sede da PF: ordem do petista Franklin de Freitas/Estadão Conteúdo
Arte/VEJA

Ciro Gomes, que rivaliza com Haddad no campo da esquerda, sinalizou que aumentará a estridência dos ataques também à direita. Em sabatina feita pelo jornal O Globo, na quarta-feira 12, chamou o vice de Bolsonaro, general Hamilton Mourão, de “jumento de carga”, e disse que, se fosse presidente, teria demitido e posto “em cana” o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas. Dias antes, Villas Bôas dissera em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo que o ambiente político conflagrado poderia deixar sob questionamento a “legitimidade” do próximo governo. Na outra ponta da linha, cada vez mais estirada, o “jumento de carga” não deixou por menos e aventou a hipótese de que o novo presidente dê um “autogolpe” (veja a reportagem). “A radicalização é o discurso da sobrevivência”, afirma o cientista político Carlos Pereira, da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Ele vem sendo usado pelos candidatos na tentativa de se posicionarem melhor diante de um eleitorado que está cansado da política.”

Em meio à desidratação do discurso moderado, Alckmin e Marina, afirmam analistas, só terão possibilidade de sobreviver na disputa se capturarem o voto útil de quem não quer nem a volta do PT nem a vitória de Bolsonaro. Por esse ângulo, o tucano pode ter mais chance de crescer do que a candidata da Rede. Isso porque, ao contrário de Marina, Alckmin não vem caindo nas pesquisas. Além disso, ele tem as vantagens da grande estrutura partidária e dos espetaculares cinco minutos diários de tempo de TV. “Se Alckmin apresentar, nas próximas semanas, um crescimento de 3 ou 4 pontos, ultrapassará Marina e ficará emparelhado com Ciro, tornando-se mais competitivo para receber o voto útil. É uma eleição que será definida nos últimos dias”, afirma Pereira, da FGV. Marina, por sua vez, pode voltar ao jogo se conseguir atrair o voto dos indecisos, que somam hoje 7% dos eleitores, segundo o Datafolha. Atualmente, o grupo de indecisos é composto majoritariamente de mulheres das classes C e D, justamente as camadas da população em que a ex-senadora tem seu melhor desempenho.

O acirramento do discurso, na avaliação do cientista político Maurício Santoro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é mais que uma característica desta eleição. Para Santoro, sinaliza a ameaça de um retrocesso democrático, à medida que candidatos de esquerda e de direita têm atacado instituições construídas à força de muitas dificuldades no decorrer da história recente. “A brutalização da vida política no país contrasta com tudo o que foi feito nos anos 1990 e 2000, tanto por Fernando Henrique Cardoso quanto por Lula, que foram gestores habilidosos”, afirma. Segundo o cientista, os dois ex-presidentes tiveram o mérito de formar coalizões heterogêneas — ainda que recorrendo a métodos cada vez mais repudiados pelo conjunto dos eleitores. “Elas abrigavam desde o núcleo mais ideológico até partidos muito diferentes entre si. Ainda que essas siglas tenham sido trazidas pela lógica, às vezes perversa, do presidencialismo de coalizão, o modelo resultou em certa estabilidade institucional para o país e criou as bases políticas para um crescimento econômico significativo, distribuição de renda expressiva e melhoria das condições sociais”, diz Santoro.

A radicalização do discurso político e o fortalecimento dos extremos vêm despontando em democracias muito mais consolidadas e organizadas que a brasileira. A diferença, porém, é que, na maior parte dos países, essas forças não têm prevalecido nas eleições, sobretudo na Europa. “Tome-se o exemplo do moderado Emmanuel Macron, na França, e da ainda majoritária coalizão de centro na Suécia”, aponta Santoro. Nesse aspecto, o Brasil se assemelha a democracias mais jovens, como a italiana e a espanhola, que hoje passam por um intenso processo de fragmentação política. A definição do nome que estará com o aparentemente inevitável Bolsonaro no segundo turno sinalizará a essência do Brasil nos próximos anos: se permanecerá sendo um país em que as forças democráticas, ainda que antagônicas, continuam dialogando ou se se transformará numa nação em que, à imagem e semelhança do líder, trará em seu âmago a semente da radicalização.

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Colaborou Roberta Paduan


Haddad em busca da bênção do mercado

Fernando Haddad desenvolveu dois discursos econômicos para tentar se cacifar para o segundo turno das eleições. O primeiro, elaborado pelos petistas Marcio ­Pochmann e Guilherme Mello, ambos da Unicamp, consta de seu programa de governo e prevê as chamadas medidas “antimercado” — o que inclui a revogação da reforma trabalhista e da PEC do teto de gastos, o uso de reservas internacionais para investimento público, o aumento da tributação aos bancos e a instauração de referendos para definir questões como o regime de participação da Petrobras no pré-sal. A tônica é clara: “Os ricos pagarão o preço”.

A portas fechadas com empresários, porém, Haddad tem demonstrado mais moderação. Nas últimas semanas, sozinho ou com interlocução de Guilherme Mello ou do economista Nelson Barbosa, ex-ministro de Dilma Rousseff, ele tem procurado integrantes do setor financeiro e empresários, a quem diz entender que um governo altamente endividado não consegue “governar contra o mercado” e que, se ganhar, terá de empreender reformas para estabilizar o déficit fiscal. A reforma da Previdência, à qual o PT historicamente se opõe, poderia ser empacotada de forma a convencer seus eleitores de que não foram alvo de um estelionato eleitoral. Segundo dirigentes petistas, o ônus de uma reforma feita por Haddad recairia principalmente sobre as categorias mais altas do funcionalismo, para que o partido consiga manter o discurso de “combate a privilégios”. No caso da reforma trabalhista, o petista tem dito em público que proporá uma revogação completa, mas já reconhece, internamente, que será difícil angariar apoio no Congresso para aprová-la no primeiro ano, diante do tamanho reduzido da base política da sigla.

Quando questionado sobre quem seria seu ministro da Fazenda, Haddad desconversa e diz que a decisão será tomada em conjunto com Lula. A influência do ex-­presidente na campanha tem sido encarada pelo mercado como um ponto positivo. A avaliação é que Lula é, antes de tudo, um pragmático, e seus conselhos deverão se sobrepor aos da base petista. As andanças de Haddad, contudo, ainda não surtiram efeito: ele continua sendo, aos olhos do PIB, a aposta mais arriscada das eleições, ao lado de Ciro Gomes, que reza por uma cartilha semelhante para a economia.

Ana Clara Costa


O Supremo sob novo comando

MEDIADOR – O ministro Dias Toffoli, presidente do STF: “A Lei da Ficha Limpa é assim. E ponto” Cristiano Mariz/VEJA

Empossado na presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) na quinta-feira 13, o ministro José Antonio Dias Toffoli é da chamada ala “garantista” da Corte, que faz uma interpretação mais literal da Constituição e das leis. Ex-advogado do PT e ex-assessor da Casa Civil no governo Lula, que o indicou para o STF, Toffoli costuma votar pelo arquivamento de inquéritos abertos com base apenas em depoimentos de delatores e defende a tese de que investigações contra autoridades não podem ser prorrogadas de forma indefinida. Recentemente, seu voto guiou a decisão de libertar da prisão o ex-ministro José Dirceu, de quem era subordinado nos tempos em que ambos despachavam no Palácio do Planalto.

As posições do ministro alimentam na classe política a expectativa de que ele colocará um freio nos alegados abusos cometidos pela Lava-Jato. Já a esperança dos petistas é bem mais pontual: que o ministro paute, o mais rápido possível, os processos que discutem se condenados em segunda instância podem começar a cumprir pena imediatamente. Toffoli não concorda com o cumprimento antecipado de pena, regra que deu impulso à Lava-­Jato e resultou na prisão de Lula. Como alternativa, propõe que um condenado só seja encarcerado após manifestação do Superior Tribunal de Justiça.

Apesar da pressão dos antigos companheiros, o novo presidente do STF só deve retomar a discussão do marco inicial da pena em 2019. Seu plano foi facilitado pela decisão do decano do tribunal, ministro Celso de Mello, que rechaçou na semana passada recurso apresentado para garantir a participação de Lula na eleição presidencial. Em conversa recente, Toffoli rebateu a cantilena petista de perseguição judicial ao ex-presidente: “Há vários observadores internacionais para ver que aqui no Brasil não está tendo nada de errado. A Lei da Ficha Limpa é assim. E ponto”.

Aos 50 anos, Toffoli é o mais jovem ministro a assumir a presidência do STF. Ele não esconde de ninguém sua intenção de atuar como mediador, atenuando conflitos entre os poderes, especialmente aqueles decorrentes do recente ativismo de seus colegas de toga.

Laryssa Borges

Publicado em VEJA de 19 de setembro de 2018, edição nº 2600

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