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A floresta esquecida

Um ecossistema pouco conhecido pelos brasileiros, o Chaco, comumente associado aos vizinhos sul-americanos, está ameaçado de devastação 

 (VEJA/VEJA)

Ensina-se, nas aulas de geografia das escolas brasileiras, que os diferentes tipos de fauna e flora encontrados no país são divididos em seis biomas: Amazônia, cerrado, caatinga, pantanal, pampas e Mata Atlântica. No entanto, a natureza, que não segue as demarcações delineadas pelo homem, avançou com uma pequena faixa do Gran Chaco — predominante na Argentina, no Paraguai e na Bolívia — em Mato Grosso do Sul, onde o hábitat faz fronteira com o Pantanal. Nos quatro países, o Chaco ocupa 800 000 quilômetros quadrados, a segunda maior floresta da América do Sul, atrás apenas da Amazônica. No Brasil, há cerca de 12 000 quilômetros quadrados dessa vegetação, numa área equivalente a quase o dobro da região metropolitana de São Paulo, ameaçada pelo desmatamento. Segundo um recente estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), ao qual VEJA teve acesso com exclusividade, mesmo que a destruição seja freada agora, seriam necessários no mínimo 300 anos para recuperar o que foi perdido.

O grupo de cientistas analisou 42 fragmentos do Gran Chaco encontrados na fronteira com o Pantanal. Assim como o vizinho pantanoso, o Chaco tem floresta seca, mais parecida com uma savana, com temperaturas elevadas e árvores de galhos retorcidos. Os pesquisadores escolheram duas espécies emblemáticas da flora (uma árvore que chega a 12 metros de altura e outra que alcança 6 metros) para estudar como elas estavam distribuídas nas regiões restantes. O resultado mostrou que cada fragmento isolado não tem a riqueza genética necessária para garantir a continuidade do Chaco. Mas, juntos, eles ainda seriam capazes de salvar esse bioma. “As plantas se multiplicam graças à polinização através das abelhas, aos animais que espalham sementes e devido ao próprio vento, que leva o pólen de um lugar a outro. Com isso, a árvore de um fragmento pode ajudar no florescimento em outro”, diz a geneticista Anete Pereira de Souza, coautora do estudo.

Esse processo natural de reflorestamento só funcionará se o desmatamento for contido. Como o Chaco não é considerado um bioma brasileiro, não há política pública nem reserva de proteção ambiental cujo objetivo seja assegurar que essa porção de natureza continue em pé. O município de Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, onde ocorre maior incidência dessa vegetação, tinha perdido 35% de sua cobertura natural até 2008, ano da última medição realizada pelo Ministério do Meio Ambiente.

De acordo com Júlio Sampaio, engenheiro florestal e coordenador do programa Cerrado-Pantanal da WWF Brasil, a destruição é motivada pela implantação de grandes áreas para o cultivo de soja e pastagens. “O fato de o Chaco ser um território diminuto por aqui fez com que fosse esquecido. Protegê-lo é uma questão de soberania nacional, pois o governo desse modo reconheceria a área como pertencente ao país, com todo o valor que pode ter, por exemplo, para a exploração científica”, diz Sampaio. “A conservação também seria uma demonstração de respeito com nossos vizinhos.” Afinal, a destruição do bioma no Brasil afeta diretamente sua preservação nas nações em que tem maior presença.

A mesma lógica motivou a assinatura de um acordo para a proteção do Pantanal entre os governos do Brasil, do Paraguai e da Bolívia em março deste ano. Os três países concordaram em trabalhar juntos na implementação de ações conservacionistas. Nesse caso, o Brasil foi o principal interessado, por ser o dono de 60% dessa que é a maior planície inundável continental do mundo. Iniciativas similares também foram feitas na Amazônia, que se estende por nove países. Sem o mesmo apelo midiático, porém, o Chaco foi esquecido nesses projetos.

Para a geneticista Anete, como a região é pouco estudada no Brasil, mal se sabe o que está em risco. “O desmatamento tira a floresta e também os animais, pássaros e microrganismos que vivem ali”, diz ela. “Se nada for feito, as consequências serão sentidas principalmente pelas próximas gerações.” Segundo uma pesquisa da Universidade Humboldt, na Alemanha, se a destruição continuar no ritmo atual, mais de 50% dos pássaros e 30% dos mamíferos do bioma serão extintos.

Publicado em VEJA de 22 de agosto de 2018, edição nº 2596