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A epopeia dos sem-pátria

Repelidos por todos, os muçulmanos rohingyas vivem sem cidadania, sem pátria e sem direitos

Por Duda Teixeira Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 22 dez 2017, 06h00 | Atualizado em 4 jun 2024, 16h55
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Os relatos de muçulmanos rohingyas que escapam de Mianmar, a antiga Birmânia, são assombrosos. Nos arredores da vila de Tula Toli, militares desceram de helicópteros e se juntaram a milícias budistas locais. Então, ordenaram a todos os rohingyas que deixassem suas casas e se concentrassem na praia de um rio. Minutos depois, começaram a atirar contra a multidão. Os corpos caídos foram esquartejados a golpes de facão. Cabeças, pescoços, braços e pernas foram empilhados em um canto. “Era como cortar bambu”, contou uma rohingya à rede CNN. Em outras ocasiões, homens foram amarrados a árvores e espancados. Meninas e mulheres tiveram as roupas arrancadas e foram estupradas. Bebês foram lançados a fogueiras feitas com roupas e outros pertences. Crianças, arrastadas pelos pés para fora de casa e assassinadas a tiros ou golpes de facão no pescoço. Vilas inteiras acabaram incendiadas.

Os massacres começaram em agosto, quando um grupo armado criado em 2016 com o nome de Exército da Salvação Arakan Rohingya atacou postos militares e matou uma dezena de oficiais no Estado de Rakhine, em Mianmar. Como revide, uma “operação de limpeza” foi deflagrada com o objetivo de punir a população muçulmana. Para sobreviverem ao genocídio, cerca de 650 000 pessoas fugiram para Bangladesh. Na viagem, que dura mais de cinco dias, muitos tiveram de pular arames farpados e chegaram ao destino sangrando e carregando parentes. Também precisaram escapar das minas terrestres na fronteira com Bangladesh e pagar aos pescadores locais para atravessar o Rio Naf, que separa os dois países, em precários pesqueiros. Dezenas de barcos afundaram no meio do trajeto por causa do peso excessivo. Militares birmaneses posicionados na margem atiraram com morteiros e metralhadoras contra as embarcações, razão pela qual a travessia passou a ser feita à noite. O governo de Mianmar não reconhece os rohingyas como uma de suas 135 minorias étnicas e não lhes dá cidadania. O de Bangladesh diz que eles são de Mianmar. Repelidos por todos, os rohingyas vivem sem cidadania, sem pátria e sem direitos. A humanidade lhes é negada.

D.T.

Publicado em VEJA de 27 de dezembro de 2017, edição nº 2562

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