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A dor de uma marca trágica

No clima de violência que sufoca o Rio de Janeiro, os PMs morrem (e matam também) em uma escalada que não encontra paralelo no Brasil nem no mundo

O fascínio pelos números redondos alçou ao centro das atenções um drama que se desenrola sem muito destaque no tabuleiro da violência que engole o Rio de Janeiro. A marca de policiais militares mortos neste ano no estado está perto, muito perto de chegar a 100. Até o fechamento desta edição, eram precisamente 97 — cada um identificado por nome e idade nas 97 fotos que estampam as duas páginas anteriores. Começa com André William de Oliveira, assassinado em 1º de janeiro, e vai até Vaine Luiz dos Santos, enterrado em 13 de agosto. Nesse mesmo período, como comparação, a tropa de São Paulo registrou 22 baixas. Nos Estados Unidos, no país todo, foram 80. Em Nova York, oito. A cada dois dias, um PM é abatido no Rio. A seguir a mesma e sinistra toada, o número de mortos da corporação subirá para 158 até o fim de 2017. Se essa assombrosa taxa de homicídios fosse aplicada ao conjunto da população brasileira, o país teria 720 000 mortes violentas em um único ano — quase o dobro do total de ocorrências no mundo inteiro. Para esses soldados, a chance de ter a vida ceifada é doze vezes maior do que para qualquer outro cidadão. Não há dúvida: ser PM no Rio tornou-se uma das profissões mais perigosas e letais do planeta.

A galeria de retratos dos 95 homens e duas mulheres da PM do Rio assassinados até agosto de 2017

Desde 1994, durante o segundo governo Leonel Brizola (PDT), quando o estado criou um indicador para a matança, o dado anual sempre esteve acima da casa dos três dígitos, impulsionado por uma cultura de confronto profundamente entranhada na corporação. Segundo um estudo da própria PM fluminense, de 1994 para cá houve 3 234 mortes de policiais. O Rio nunca sofreu atentados como o de Barcelona, que vitimou catorze pessoas na quinta-feira 17. Mas é inaceitável que, numa única semana, de 1º a 7 de janeiro, sete PMs tenham perdido a vida na cidade. Depois, de 5 a 11 de fevereiro, foram mais sete. Catorze em apenas duas semanas, estatística vergonhosamente igual à do abjeto ataque do Estado Islâmico na Catalunha.

Em 1994, como resultado da desastrosa acomodação promovida por Brizola com os chefões do crime, as quadrilhas, à vontade para agir, atiraram como nunca. Resultado: 227 PMs mortos, recorde histórico. Os governantes que se seguiram nunca recuaram no incentivo do uso da força. Em 1995, Marcello Alencar (PSDB) criou um prêmio em dinheiro por “atos de bravura”, que consistiam, basicamente, em eliminar bandidos, coroando a fama da corporação que mais mata. Ao irem à caça, os policiais também viraram presas.

A primeira iniciativa de fato para reverter o mata-mata foi o projeto de implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), em 2008, na gestão Sérgio Cabral (PMDB). Ele trazia embutida a boa ideia de povoar as favelas com uma polícia jovem e treinada, imune aos velhos vícios e bem recebida pelos moradores. Em um primeiro momento, deu certo: o crime recuou e as mortes diminuíram, tanto de bandidos quanto de policiais. Mas o projeto ruiu, a bandidagem voltou, o cotidiano de confrontos reinstalou-se, a matança foi restabelecida e o Rio de Janeiro retrocedeu ao passado.

No rol dos PMs abatidos neste 2017, a maioria tinha entre 35 e 45 anos e patente de soldado, cabo ou sargento. Entre os 97 mortos, há duas mulheres, o que reflete a porção minoritária delas na tropa. Um quarto do grupo perdeu a vida em serviço. Os demais foram atingidos, em proporções quase iguais, por balas em confrontos, execuções e assaltos, uma praga que assola o Rio. Por portarem arma e carteira da corporação, os policiais são alvo fácil da bandidagem mesmo quando estão sem farda. “O PM que presencia um assalto em geral tenta intervir. Aquele que é alvo também acaba reagindo, para evitar ser identificado como policial, o que significa morte certa”, explica o sociólogo Ignácio Cano. A recente escalada de PMs mortos levou à criação, pela Polícia Civil, de um núcleo específico de investigação de homicídio de policiais. “Conseguimos um índice de esclarecimento de casos de 47%”, diz o delegado Rivaldo Barbosa, da Divisão de Homicídios da capital. A taxa de resolução para o resto da população é de 20%.

Em países que respeitam os policiais, o bandido pensa duas vezes antes de atirar contra um, pois sabe que o crime atrai os holofotes e a revanche implacável da corporação. No Brasil, especialmente no Rio, joga-se na conta da violência generalizada — e ponto. A regra é a apatia no melhor dos casos, e a inação no pior deles, por parte de quem tem a caneta na mão. O soldado Cléber Xavier Júnior já ia para casa, depois de passar a noite em uma operação contra roubo de carga, uma epidemia no Rio. Subitamente, dois assaltantes cruzaram o seu caminho. Ele reagiu, matou um, foi ferido e socorrido, mas não resistiu. Xavier estava noivo e foi enterrado no dia em que completaria 29 anos. Comoção na cidade, tropa mobilizada, autoridades indignadas? Nada disso. Naquela mesma sexta-feira, 14 de junho, em que ele se tornou o 86º PM morto no Rio, o governador Luiz Fernando Pezão anunciava um período de licença que o levaria a desfrutar um spa cinco-estrelas no interior do estado. Nenhuma palavra foi dita sobre a morte de Xavier. Nada.

A derrocada da segurança do Rio aprofunda em várias frentes a vulnerabilidade da tropa. Faltam planejamento, inteligência nas ações e recursos para as necessidades mais básicas em um estado paralisado pelo caixa vazio. Sem dinheiro, a PM parou de pagar bonificações que ampliavam sua presença nas ruas e deixou sucatear equipamentos essenciais como coletes à prova de balas e viaturas. A pindaíba financeira é tanta que já houve até policial enterrado sem a tradicional salva de tiros. Falta munição. Os investimentos na área de inteligência, sem a qual não se previnem ataques nem confrontos, foram de pouco mais de 20 000 reais (ou seja, quase nulos) em 2015, queda de mais de 45% em relação aos já parcos recursos do ano anterior. Enquanto isso, as quadrilhas organizaram-se e, principalmente, armaram-se. Estima-se que os bandidos tenham em seu poder mais fuzis, uma arma exclusiva das forças de segurança, do que a própria polícia. À vontade em seu território, na semana passada penduraram um fuzil na estátua de Michael Jackson no Morro Dona Marta, na Zona Sul carioca, lembrança da ida do cantor ao local, em 1996. A imagem de Michael Jackson armado soou como bandeira da vitória da bandidagem. A resposta? Resignação, espantosa resignação, a cada novo caso.

Donos do pedaço – Bandidos repousam fuzil de brinquedo na estátua de Michael Jackson, em favela da Zona Sul: abuso e arrogância

Donos do pedaço – Bandidos repousam fuzil de brinquedo na estátua de Michael Jackson, em favela da Zona Sul: abuso e arrogância (//Reprodução)

Eli Barbosa dos Santos, de 32 anos, entrou no rol de 2017 como o morto número 39. Em 19 de março, ele chegava à casa de sua cunhada, em uma favela de Japeri, na Baixada Fluminense, uma das 843 áreas dominadas pelo crime organizado, segundo a Secretaria de Segurança. Santos ia buscar a mulher e os dois filhos quando foi abordado por bandidos munidos de fuzis. Em plena luz do dia, reconhecido pelos criminosos, ele acabou executado com cinco tiros, três na cabeça. Os assassinos foram identificados, mas estão foragidos. Naquele 19 de março, o presidente Michel Temer levava representantes de 27 países para um jantar na churrascaria Steak Bull, em Brasília. O assunto foi a Operação Carne Fraca. Sobre a morte de policiais, nenhuma palavra. Nada.

Milton Carlos de Oliveira, 55 anos, o morto número 79 da lista, reagiu a um assalto em um bar de Brás de Pina, na Zona Norte. Levou doze tiros na frente da mulher, enquanto o prefeito Marcelo Crivella fazia uma visita oficial à Holanda e apareceu nas redes sociais em foto ao lado de um neto, autor da legenda “Aprendendo sobre história com meu avô”. Sobre a trágica história de Oliveira, nenhuma palavra. Nada.

Com o balanço quase arredondando em 100, o Palácio Guanabara começa enfim a discutir providências para reverter a matança de PMs e conter a violência. Uma das ideias é transferir os policiais que trabalham em UPPs, à mercê dos bandidos — o que poderia acabar por enfraquecer um projeto que, embora moribundo, foi o único a tirar bandidos das favelas. Em conversa com VEJA, o próprio governador Pezão admitiu a hipótese de redistribuir a tropa como uma das medidas que pretende implantar a partir da próxima quarta-­feira para amenizar a crise na segurança. Seu vice, Francisco Dornelles, é mais incisivo: “A política de segurança está errada”. Neste momento, milhares de soldados do Exército reforçam as operações de patrulha e de combate ao tráfico de armas no estado, até agora com resultados pífios. Dornelles recomenda: “A fiscalização para coibir a chegada das armas às mãos dos bandidos deveria acontecer nos portos, aeroportos e rodovias, além do acesso às favelas. Não chove fuzil no morro. Eles estão vindo de algum lugar”.

Paralelamente, os especialistas ressaltam a cada vez mais premente necessidade de reforçar o setor de inteligência — mas com 20 000 reais não dá nem para começar — e insistem na devolução às ruas de milhares de PMs lotados em gabinetes em funções burocráticas. Tomara que iniciativas eficientes sejam postas em prática já, antes que se crave na estatística de mortes de policiais o vergonhoso número 100. Se nada for feito, continuaremos a contabilizar tragédias e a assistir impotentes ao luto de tantas famílias, como as das páginas que se seguem.


Morrem, mas matam

 (Arte/VEJA)

A polícia do Rio de Janeiro cravou outro recorde indesejável neste ano: além de ser a que mais morre, é também a que mais mata no Brasil. O Instituto de Segurança Pública registrou, até junho, 581 mortes em situações que o jargão policial define como “autos de resistência” — quando um bandido é alvejado no confronto. São Paulo, o segundo estado da lista, teve 459 dessas ocorrências. A liderança da polícia fluminense nessa contabilidade tem uma de suas raízes fincadas no esfacelamento das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), o programa-vitrine do governo Cabral que decaiu com a falência do caixa do estado. A ideia da UPP, de instalar bases permanentes dentro das favelas, era dar uma nova feição à polícia, trocando confronto e violência por inteligência e convívio com a população. Durante a experiência, houve, de fato, menos choque entre PMs e bandos armados e menos matança. Mas foi um breve período e logo o velho voltou a imperar. “A lógica da guerra prevalece há décadas”, diz Ibis Silva Pereira, ex-­comandante da corporação. Nos anos 1990, no governo Marcello Alencar, criou-se inclusive um sistema de bônus para “atos de bravura”, ou morte de bandidos, o que só serviu para a aumentar o rio de sangue. Não é à toa que a iniciativa do então governador foi batizada de “gratificação faroeste”. Os governos subsequentes continuaram a valorizar a força bruta e se revelaram incapazes de aferir os excessos por parte de PMs. Em 2015, uma CPI concluiu que 99% dos casos de homicídios que envolviam policiais foram arquivados. Ou seja, além de matar muito, a Polícia Militar do Rio mata com completa impunidade. O resultado é isso aí: tragédia para todo lado.

Publicado em VEJA de 23 de agosto de 2017, edição nº 2544

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