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A confiança arranhada

O Facebook é uma potência indiscutível, mas as denúncias de manipulação e de vazamento de dados começam a afetar seu modelo de negócios 

Por Marcelo Sakate - 3 ago 2018, 07h00

O encanto se quebrou. O Facebook, com seus mais de 2 bilhões de usuários, vinha arrebanhando um volume crescente de anunciantes e parecia destinado a ombrear com o Google no posto de grande potência da internet. Mas, desde as denúncias de que vazou dados privados e de que foi alvo de ataque de manipuladores interessados em influenciar eleições, a empresa fundada e comandada por Mark Zuckerberg vive contra a parede. Seus principais executivos já tiveram de enfrentar o questionamento de legisladores americanos e europeus. A dúvida era até que ponto isso atingiria a máquina de lucros na qual se transformou a rede social. A resposta começa a vir à tona.

O Facebook deixou de atrair adeptos nos Estados Unidos e perdeu 1 milhão de usuários ativos na Europa no último trimestre, a primeira queda registrada no continente. Some-se a isso o fato de a empresa ter informado que vai ampliar os gastos com investimentos em segurança e na privacidade dos usuários (finalmente!). Esses foram alguns dos fatores que a levaram a revisar para baixo as estimativas de lucro nos próximos trimestres — e que fizeram com que suas ações perdessem um quinto do valor da noite para o dia. O recuo de 20% em apenas um pregão, em 26 de julho, fez evaporar 123 bilhões de dólares no valor de mercado da companhia. Foi a maior queda diária de uma empresa na história de Wall Street.

Arte/Facebook

A tormenta do Facebook teve início com a revelação do vazamento das informações de 87 milhões de usuários pela Cambridge Analytica, empresa britânica de análise de dados, em março passado. As ações caíram 17% na ocasião, mas depois acabaram se recuperando, infladas pelos bons resultados e projeções — estas que, agora, foram revisadas para baixo. O Twitter, que é muito menor tanto em termos de faturamento como em alcance, passa por uma tempestade parecida. A perda de 1 milhão de usuários ativos no segundo trimestre e a projeção de que a sangria deve continuar provocaram uma redução de quase 30% em seu valor de mercado nos últimos dias.

As duas empresas tentam agora recuperar a credibilidade, agindo mais energicamente no combate a perfis falsos. Na semana passada, o Facebook excluiu 32 páginas e perfis que, segundo a companhia, poderiam influenciar de maneira maliciosa as eleições legislativas americanas de novembro. Foi um movimento semelhante ao feito uma semana antes no Brasil, com o bloqueio de 196 páginas e 87 perfis, muitos dos quais ligados ao Movimento Brasil Livre (MBL), devido à difusão de fake news.

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Parte dos investidores acredita que os resultados financeiros da empresa serão impactados no futuro por regras mais rigorosas para lidar com os dados dos usuários. Analistas do banco americano Morgan Stanley, por exemplo, rebaixaram sua recomendação para o setor de tecnologia, com o alerta de que há mais riscos envolvendo as ações das companhias do que os percebidos pelo mercado. A desaceleração no ritmo de adesão de novos usuários pode ser um dos sinais de que o alcance do Facebook esteja próximo de seu limite. Ciente das dificuldades, Zuckerberg reforçou a aposta no promissor mercado chinês, do qual a rede social é banida. A empresa obteve recentemente uma licença para abrir uma incubadora de startups no país. Mas que ninguém esqueça que o Facebook, com seus mais de 2 bilhões de usuários, apesar de tudo, é nada menos do que uma potência.

Publicado em VEJA de 8 de agosto de 2018, edição nº 2594

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