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A aula que eu nunca esqueci

Ela foi dada por um professor da FGV — e mudou a minha vida

Eu estava fazendo uma disciplina eletiva chamada técnicas de negociação e havia um estudo de caso, o “Ugli Orange exercise”. Não me lembro dos detalhes, mas tomo a liberdade de adaptar o roteiro com o colorido da mente de um cineasta atormentado.

No exercício, uma cidade havia sofrido um acidente industrial. Como resultado, toda a sua água fora contaminada e, agora, milhares de grávidas e seus bebês estavam correndo risco de vida. O antídoto para salvá-los só poderia ser extraído da casca de uma laranja específica (a Ugli), da qual, por questões meteorológicas, apenas um único produtor dispunha. Em uma cidade próxima, outro acidente industrial matara milhares de pessoas e deixara outras tantas gravemente doentes por causa do vazamento de um agente tóxico. O único remédio capaz de curar os enfermos era feito à base do suco da mesma laranja rara. E, é óbvio, não havia laranja suficiente para todo mundo.

A classe foi dividida em três grupos: um representando os produtores da laranja rara, os outros dois representando seus potenciais compradores (cuja tarefa era convencer os produtores a vender a laranja para eles, e não para os outros).

O que se seguiu foi cômico. E foi também um aprendizado valioso. Surgiram modelos matemáticos supersofisticados para concluir se a vida de uma grávida valia mais que a dos outros, cálculos para tentar repartir as laranjas de forma justa, teorias sobre formação de preços e páginas e mais páginas perdidas no esforço de resolver a questão com base em alguma ciência: finanças, estatística — até palitinho rolou.

Horas depois, o professor sentenciou: “Vocês são muito incompetentes. Se tivessem lido o problema com a mente aberta, teriam visto que era fácil resolvê-lo. A solução não era mutuamente excludente”. (Ampulheta do Windows rodando na testa dos alunos.) “Um grupo precisava da casca da laranja, o outro do suco. Dava para vocês terem compartilhado as frutas e ainda dividido o seu custo.” (Tela azul abrindo para todo mundo.) Corta.

Brasil 2017. A esperança e o viés de alta que havia no país do início do Plano Real até o fim do governo Lula derreteram. Um fantoche tupiniquim de Hitler e Trump aproxima-se da Presidência em likes galopantes. Nossos presídios estão lotados e, no Congresso, bandidos mais perigosos do que aqueles que estão presos tramam a sua reeleição. Novos movimentos políticos estão surgindo, alguns brilhantes, outros (contaminados por ideologias boas de briga e ruins de resultado) assemelham-se em seu extremismo. Parte valiosa da nossa direita ama tanto o Primeiro Mundo, mas, do que ele oferece, interessa-se muito mais por uma bolsa Prada do que pelo Museu do Prado, ou suas universidades de ponta. Mais: não percebe que não existe meritocracia sem igualdade (de oportunidades e na Justiça). Parte valiosa da nossa esquerda está tão perdida entre seus heróis e vilões ideológicos que não nota que sua falta de apreço pelas ciências financeiras, tecnologia, empresariado e empreendedorismo vitima os que mais necessitam do seu calor. Pergunto a nós, brasileiros: onde está o suco e onde está a casca desta nossa laranja verde e amarela?

Publicado em VEJA de 23 de agosto de 2017, edição nº 2544