Tarcísio e Flávio se movimentam para aparar arestas em meio a planos eleitorais
Estão em discussão o posto de vice em São Paulo, a chapa ao Senado no estado, um plano de governo para o país e até a eleição de 2030
No dia 30 de junho de 2023, quando a Justiça declarou o ex-presidente Jair Bolsonaro inelegível pela primeira vez, a pergunta óbvia que se impôs foi sobre quem seria o herdeiro de seu espólio político. Governador do estado mais populoso e economicamente mais forte do país, Tarcísio de Freitas (Republicanos) surgiu como o principal nome, cacifado que estava pela vitória em São Paulo já na sua estreia nas urnas, quando, além de derrotar o PT, pôs fim a uma hegemonia local de três décadas do PSDB. Desde então, a opção de Tarcísio como presidenciável sempre foi abalada pela relação difícil com o clã, marcada por desconfianças mútuas, apesar das juras de amor em público. A tensão poderia ter se dissipado em dezembro, quando Bolsonaro escolheu o primogênito, Flávio, para representá-lo na eleição, mas não foi bem assim. A delicada conexão ainda caminha no fio da navalha — agora em cima de como será o apoio mútuo que precisam construir na campanha — e será testada nos próximos dias.
Passados dois meses da opção de Bolsonaro por Flávio, a relação com Tarcísio é até agora baseada mais em esparsas juras de amor do que em gestos concretos. Em dezembro, logo após ser escolhido pelo pai, o senador afirmou que o governador era um “cara fora de série” e “principal nome do nosso time”. Por outro lado, o chefe do Palácio dos Bandeirantes disse que o parlamentar contaria com o firme apoio dele. Apesar disso, nos bastidores, há ainda quem não descarte a hipótese de Tarcísio concorrer ao Planalto. Parece improvável hoje, mas é o suficiente para alimentar desconfianças.
Em suas postagens nas redes sociais, os dois evitam falar um do outro. Nos eventos públicos, ambos só se citam quando são provocados por repórteres, quase sempre com questionamentos sobre qual será o grau de comprometimento de um com o outro durante a disputa eleitoral. Nenhum encontro entre os dois ocorreu desde que ficaram definidos os lugares de cada um na eleição. Classificada por ambos como algo necessário, a primeira reunião deverá ocorrer na sexta27, cercada de grandes expectativas.
Tanto Flávio quanto Tarcísio dizem que o encontro servirá para promover “alinhamentos”. Não é pouca coisa, porque desalinhamento é o que não falta. Um dos pontos mais básicos é sobre como será a participação de cada um na campanha do outro. Uma questão que será colocada na mesa é a necessidade de Flávio apontar com mais clareza quais são seus projetos para o país. É provável que o senador abra espaço para que Tarcísio faça sugestões em economia e infraestrutura (ele foi ministro da área no governo Bolsonaro). Interlocutor do mercado financeiro, de empresários e do agronegócio, o governador vai dizer que estará à disposição para abrir contatos para Flávio. Com isso, Tarcísio visa também ganhar um papel de articulação relevante na campanha nacional, algo que o manteria como alternativa presidencial para o futuro.
Nesse ponto também deve entrar em discussão outro tema importante: um acerto prévio sobre a eleição de 2030. O governador vai sugerir que Flávio se comprometa em seu plano de governo com a defesa do fim da reeleição, algo que é vital para Tarcísio retomar daqui a quatro anos seu projeto presidencial. Nos últimos dias, o senador tem dito que vai apoiar a medida, uma sinalização clara de que pode caminhar com aliados que tenham projetos presidenciais para 2030. “Assino qualquer proposta para que o mandato de presidente da República seja apenas uma vez, não caiba reeleição”, disse no início do mês.
Além das questões da campanha nacional, há vários desalinhamentos também na esfera estadual. Um deles é a movimentada disputa nos bastidores pela vaga de vice de Tarcísio, algo que tem incomodado bastante o governador. Favorito à reeleição e potencial candidato à Presidência daqui a quatro anos, Tarcísio deixaria, em abril de 2030, o posto a seu colega de chapa, que se tornaria um nome forte para a sucessão em São Paulo. O PL de Flávio quer a vaga, que hoje é de Felicio Ramuth (PSD), aliado de Gilberto Kassab. Cacique nacional do PL e político com interesses no estado, Valdemar Costa Neto deseja emplacar André do Prado, atual presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), no posto. Segundo um parlamentar do PL, os dois “estão muito confiantes e dão como certo a aliança”, tanto que o partido já procura novos políticos para disputar como deputado estadual na região de Mogi das Cruzes (Grande São Paulo), não por acaso reduto de André do Prado e de Valdemar.
Colocar o PL no posto de vice criaria problemas a Tarcísio porque ele teria que enfrentar a ira de Kassab, que só aceita tirar Ramuth do posto se for para ele mesmo assumir o lugar — desejo que nunca escondeu de ninguém. De resto, seria difícil achar outro lugar para acomodar o PSD, que é a sigla que comanda mais prefeituras no estado (206, quase um terço do total). “O André seria o melhor nome, mas o PL já está sendo contemplado com a vaga do Senado”, afirma um político próximo a Tarcísio.
Essa chapa ao Senado, por sinal, também é uma pendência a ser resolvida no encontro entre o governador e Flávio. Uma das vagas será do ex-secretário da Segurança Pública de Tarcísio e deputado federal Guilherme Derrite (PP). A outra seria de Eduardo Bolsonaro, que era favorito a ficar com uma das duas cadeiras em disputa, mas saiu do páreo ao se autoexilar nos Estados Unidos na tentativa de pressionar a Justiça a mudar o destino de seu pai, condenado, ao fim, a 27 anos de prisão por tentativa de golpe.
Após perder o mandato de deputado por faltas, ele está receoso de voltar ao Brasil, porque é investigado por obstrução de Justiça no STF e teme ser preso. A vaga de Eduardo na chapa do Senado é alvo de uma disputa intensa no PL. O nome que mais agrada ao filho Zero Três é o do deputado Mario Frias, ex-secretário de Cultura de Bolsonaro e deputado federal. Ele é visto pela família como um político fiel e comprometido ideologicamente com as bandeiras mais radicais da direita.
Para a próxima legislatura, a ala bolsonarista quer ampliar o número de cadeiras no Senado para impor restrições ao Supremo e facilitar o impeachment de ministros. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, no entanto, gostaria de emplacar uma fiel escudeira do PL Mulher em São Paulo, a deputada federal Rosana Valle, cujo nome enfrenta a resistência de Eduardo. “Meu foco segue sendo o mandato que exerço e a reeleição. Caso haja consenso dos líderes do partido quanto à candidatura ao Senado, vamos reavaliar”, diz a parlamentar. Nos bastidores, a opção por Rosana é vendida como uma alternativa para dar mais diversidade à chapa, principalmente se Lula construir uma aliança que inclua as ministras Simone Tebet e Marina Silva. Mas a possibilidade de criar encrenca com Eduardo Bolsonaro deve impedir que a ex-primeira-dama consiga emplacar sua aliada. “Rosana é um excelente nome, mas tem apoio da Michelle. Consequentemente, não tem apoio do Eduardo”, diz um integrante do PL.
Em tese, seria um processo natural a costura de acordos entre Tarcísio e a família Bolsonaro. O governador não perde a chance de agradecer ao padrinho político. Enquanto isso, o ex-presidente enxerga no pupilo um fiel representante de sua cartilha conservadora. Na prática, a convivência nunca foi fácil. A dificuldade do clã de ter mais espaço na gestão de São Paulo gera até hoje um sentimento de ingratidão. Existe ainda uma alta expectativa a respeito do engajamento de Tarcísio na campanha para tirar Bolsonaro da prisão. Para os filhos do ex-presidente, o governador poderia fazer mais. Tarcísio, por sua vez, caminhou o tempo todo tentando se equilibrar entre a moderação pragmática e a necessária defesa de seu padrinho político — muitas vezes exagerando no tom, como ao chamar o ministro Alexandre de Moraes, do STF, de “tirano” em um ato na Avenida Paulista em 2025.
Aparar as arestas rapidamente será fundamental no ano das eleições. Segundo a última sondagem do instituto Paraná Pesquisas em São Paulo, o governador lidera as pesquisas ao comando do estado e pode liquidar a disputa ainda no primeiro turno contra adversários graúdos do governo Lula, como os ministros Fernando Haddad (PT) e Geraldo Alckmin (PSB). Sem o apoio da base bolsonarista, a campanha pode se tornar mais complicada. Já Flávio aparece à frente de Lula no primeiro e segundo turnos. Numa eleição presidencial apertada, como apontam as projeções, uma vitória contundente no maior colégio eleitoral do país (22% do eleitorado nacional) pode ser decisiva. Não faltam motivos, portanto, para Flávio e Tarcísio acertarem os ponteiros, pois um depende do outro. Na prática, essa tarefa tem se mostrado mais difícil do que parecia.
Publicado em VEJA de 20 de fevereiro de 2026, edição nº 2983






