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Sara Winter: ‘Usamos o medo quando uma autoridade comete atos ilegítimos’

Líder de grupo responsável por ação comparada à Ku Klux Klan nega racismo e violência, e detalha a estratégia da manifestação contra o STF

Por Marcela Mattos, Nonato Viegas - 6 Jun 2020, 17h30

A ativista Sara Winter chegou ao acampamento dos 300 do Brasil na última terça-feira, 2, pouco antes do horário marcado para a entrevista a VEJA. Estava num Mitsubishi Lancer 2.0 alugado. Sentada no banco de trás, esperou que o motorista descesse e abrisse a porta do carro para ela. Imediatamente, os integrantes do acampamento chegaram para a recepção. Winter havia acabado de conceder uma outra entrevista à imprensa espanhola, e acusava a Justiça brasileira estar na iminência de instalar uma ditadura no país. A jovem de 27 anos, apoiadora ferrenha do presidente Jair Bolsonaro, entrou na mira do Supremo Tribunal Federal (STF) na investigação que apura as fake news. Nesta entrevista, ela diz que não vai prestar depoimento e explica o que a motivou a dizer que gostaria de “trocar alguns socos” com o ministro Alexandre de Moraes. Confira a íntegra.

Qual a proposta do grupo? Entendemos que aqui no Brasil não existe uma militância organizada de direita. Então, nossa proposta é criar a primeira. A gente conseguiu colocar um presidente no poder, mas todas as instituições continuaram aparelhadas pela esquerda. Os movimentos políticos estão caminhando para um autoritarismo, principalmente por parte do STF e de algumas atitudes dos presidentes da Câmara e do Senado. Percebi que sair todos os finais de semana na rua, vestindo verde-amarelo com a família, com o cachorrinho, com esse clima festivo, não vai coagir as autoridades a fazer o que o povo quer. O povo tem que ser soberano. Seria muito interessante se os nossos ministros do STF e os presidentes do Legislativo não fossem nossos inimigos, mas eles estão se comportando como inimigos do povo brasileiro. Nós queremos governabilidade, queremos que o Executivo consiga governar. O Executivo tem boas propostas, mas, toda vez que é proposto algo pelo presidente, pelo fato de ele ser o Bolsonaro,  elas são barradas. Esse jogo político tem como objetivo atrapalhar e derrubar o presidente.

Qual a intenção do ato em frente ao Supremo? Por que usar máscaras e tochas? Eu tive uma inquietude muito grande em relação ao que estava acontecendo. Sou católica e busquei uma resposta na Bíblia, pensando que quem está me fazendo mal é um juiz. Então, eu fui buscar em juízes na Bíblia. E lá tem a história dos trezentos de Gideão e há a menção de tochas acesas. Eu tive uma inspiração divina.

Mas há alguma relação com a Ku Klux Klan? Claro que não. As máscaras eram para dar medo mesmo, e também pedi para todo mundo ir de preto. Foi um sucesso. Assustou, é o que a gente quer. A gente trabalha com o medo quando entende que uma autoridade comete atos ilegítimos e que a gente não pode mais contar com respeito. E é um medo gerado por uma ação não-violenta. Olha o poder disso. Eu não preciso bater em ninguém. Eu só coloquei uma roupa preta e segurei uma tocha, e as pessoas já ficaram assustadas. E, obviamente, há uma narrativa de toda a imprensa de que tudo o que nós fizermos será nazista. A esquerda atribuiu a palavra nazismo e fascismo no sentido de que ‘tudo o que eu não concordo é nazismo ou fascismo’. Para eles, ser apoiador do Bolsonaro é automaticamente ser nazista ou fascista. Para você ver: os evangélicos colocam a mão em cima da cabeça do Jair Bolsonaro para orar, e logo falam que estão fazendo Sieg Heil [a saudação nazista]. Ele bebe leite para homenagear a ministra da Agricultura, é nazista. A gente acende tochas de luau, e é nazista. Não é algo que nos atinge. Com comunista não se dialoga, comunista se humilha. Essa é uma tese do professor Olavo de Carvalho.

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Você mantém contato com o Olavo de Carvalho? Tenho contato direto, mas ele não orienta esse acampamento. Aqui a gente assiste aulas do professor Olavo, quase todos que estão aqui são alunos dele, fazem o curso online de filosofia, estudam, leem seus artigos. Mas, de maneira específica, o professor Olavo não tem uma conexão direta, não tem influência sobre as atitudes que são tomadas nesse acampamento. É só uma inspiração.

Quem são as pessoas que estão no acampamento? Aqui nós temos, infelizmente, muitos microempresários que quebraram e acabaram vindo para cá por se sentirem injustiçados. Pais, mães de família, jovens. Não tem nada específico. Temos pessoas do Brasil todo. Uma pessoa que vendia cachorro quente, outra que tinha uma lojinha de roupa, que tinha uma pequena fábrica de vela. Nenhum empresário grande. E também há muitos empregados que perderam o emprego.

Como é o treinamento de vocês? O treinamento é baseado em desobediência civil e técnicas de ação não-violenta. Tivemos instrução sobre investigação, inteligência, estratégia. Tivemos alguns professores, que preferem ter seus nomes resguardados, no campo da estratégia, da inteligência e da geopolítica. O treinamento foi um dia todo. Fizemos dois treinamentos, os dois começando de manhã e terminando ao fim do dia.

Onde fica o ‘QG’? Não vou dizer, é segredo. Para ninguém ir lá e tacar um coquetel molotov. A gente não pode colocar a vida das pessoas em risco. Nós estamos sendo ameaçados de morte, estupro e espancamento. Se a gente mostra o lugar, está abrindo mão da nossa segurança e das pessoas que ali frequentam. Não tem como.

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Houve algum treinamento paramilitar? Não, nenhum. Quando você fala em paramilitar, quer dizer que há uma milícia armada. Aqui nós tivemos um treinamento de militância não-violenta, o que é exatamente o oposto. Sabemos ter postura, como segurar um cartaz, como chamar atenção da imprensa para os nossos protestos, como se portar diante de uma ocasião em que há uma pessoa do outro espectro político.

Como se portar, por exemplo, se houver um encontro entre manifestantes de direita e de esquerda? Assim: todos os meninos vão para a frente, as meninas ficam atrás. Se tiver de proteger alguma coisa, fazemos um cordão de isolamento, igual ao da polícia. E a gente fica sempre na defesa, nunca no ataque. Sempre manter a prudência, a temperança. Nunca, de maneira alguma, por mais que xinguem, pôr a mão, principalmente se for mulher. É uma prática comum da esquerda colocar as mulheres para provocar, que é para estimular a agressão do outro lado. Eu já deixo tudo avisado. A esquerda também deixa menores de idade sempre expostos, que é para alguém do lado oposto bater num menor de idade e se encrencar.

E se houver agressão contra vocês? A minha ordem é clara: respondam à altura. A gente não vai apanhar de graça. A gente está sempre na defensiva e defendendo nossas ideias e jamais vai bater numa pessoa de primeira. É uma questão de defender.

Quando a senhora falou em trocar socos com ministro Alexandre de Moraes, não mostra justamente o contrário? Não, porque eu expressei um desejo e uma vontade, e não um fato expresso. Eu disse: ‘Como eu queria estar em São Paulo, porque, se estivesse, iria na frente da casa dele e convidá-lo a trocar socos comigo’. Não disse que ia à casa dele bater no ministro. Sei muito bem as coisas que eu falo, sou muito policiada. Expressei um desejo, um sentimento, uma vontade. Principalmente depois que ele instrumentalizou a Polícia Federal para vir na minha casa num inquérito ilegal, criminoso, inconstitucional. Eu estava sem roupa, tive os meus direitos humanos e fundamentais violados, sofri constrangimento, tive de fazer xixi com um agente da Polícia Federal me olhando, coisa que não acontece nem na cadeia. Eu não sou criminosa, sou uma jovem mãe. Pegaram até o meu dinheiro, sendo que no mandado de apreensão falava claramente que iriam pegar itens eletrônicos.

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A senhora vai prestar depoimento? Não vou. Isso é desobediência civil. Eu recebi uma ordem absurda de uma autoridade que, para mim, é ilegítima.

Mas pode haver consequências. Haverá consequências. E eu serei responsabilizada e assumirei as responsabilidades por essas consequências. Mas eu não vou. Se fosse um inquérito legal, compareceria. Em nenhum momento a PF me comunicou sobre o que era o mandado de busca e apreensão. Inicialmente, eu achei que era sobre armas. Então estava tranquila, porque achei que eles iam entrar na minha casa e não encontrar nada. E se fosse para prestar esclarecimento sobre armas, eu iria. Eu não tenho armas, não há armas no acampamento.

Não há armas? A senhora já disse que havia. Há pessoas que compõem o nosso grupo de organização de apoiadores que são seguranças privados, que são policiais militares ou de outras polícias, que são atiradores, caçadores, colecionadores. Mas que compõem o nosso grupo de organização. No acampamento, não posso dizer se tem ou não. Se eu disser que tem armas, vem um juiz querer fechar. Se eu disser que não, vem um ‘antifa’ querer nos matar porque estamos desarmados. Mas, para esclarecer, qualquer pessoa neste acampamento que possa estar armado tem a sua arma expedida pela PF ou nos devidos órgãos competentes. Não existe nenhuma arma ilegal aqui e nós não trabalhamos com resistência armada.

Voltando ao depoimento, a senhora pode ser presa se descumprir uma decisão judicial. Posso. E eu irei presa, se for preciso. É triste saber que eu estou na iminência de ser presa por ter falado que tenho vontade de convidar um ministro para trocar soco comigo. Quando eu falo isso, poderia estar convidando o ministro para uma luta de boxe, para um esporte. Em nenhum país onde o Judiciário é sério isso aconteceria. Eu posso brigar com ele, posso ter vontade de matá-lo. Mas é a minha vontade. Nada aconteceu.

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Essa iminência da prisão não causa um certo receio? Não. No treinamento que eu fiz na Ucrânia, eu sofri coisas muito ruins que tiveram como consequência a ausência do medo no meu psicológico.

Como se prepara para não ter medo? Na Ucrânia, eu apanhei muito. Inclusive de homens, com tapas na cara. Tapas para humilhar, para a gente aprender a não sorrir, a não chorar e a ser forte. São treinamentos baseados na desmoralização também. De te despir, literalmente, de toda a sua dignidade. Eu fiquei quatro horas nua com outras meninas que estavam passando pelo treinamento, em posição de sentido, repetindo: ‘Eu sou uma puta’. Depois de um tempo, deixou de ser algo bizarro e ofensivo para parecer uma coisa legal. Eu escutei muitas vezes que a gente não era militante, mas, sim, militar. E o ensinamento era o de que a gente não usaria armas de fogo. As ferramentas eram econômicas, políticas, midiáticas e ideológicas. São algumas coisas desse tipo que estou trazendo para a direita, mas com balizas morais e cristãs. Não vou colocar ninguém pelado para repetir alguma coisa e não vou bater em ninguém.

Há algum apoio do governo ao grupo? Não. Recentemente fiz uma visita ao Alvorada justamente para informar das ameaças que a gente está sofrendo aqui. Não estamos recebendo nenhuma ajuda, vivemos apenas de doações. A gente recebe apoio moral de muitos deputados da base bolsonarista. Tem sempre gente visitando a gente aqui, como as deputadas Bia Kicis, Carolina de Toni e Carla Zambelli, e os deputados Daniel Silveira e Hélio Negão. Não ajudam de forma financeira, mas dão uma palavra de solidariedade.

Como a senhora avalia os protestos nos Estados Unidos gerados pela morte de George Floyd? Todas as vidas importam. Mas não gosto de movimentos que se aproveitam da dor e do sofrimento de pessoas alheias para levantar uma bandeira política. Racismo existe. Meu pai é negro. Eu vi meu pai sofrendo racismo toda a minha infância porque eu era uma criança branca. Não há como me chamaram de racista, isso não existe. Mas não acho que o movimento negro seja o melhor para combater o racismo porque hoje ele é instrumentalizado por tudo isso que está acontecendo nos Estados Unidos e, como sempre, o Brasil importou para cá. Não acho que a morte de um homem seja justificada com protestos violentos, roubos, saques, depredação. Eu vi ‘antifas’ brancos espancando policiais negros. Qual é o objetivo disso?

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